sexta-feira, 31 de maio de 2013

“Coleguinha”

Estou na redação do Correio do Povo, quatro da tarde, levanto a cabeça e vejo uma coleguinha me encarar pela quinta vez em dois dias. Ela abre um sorriso tímido. Baixo de novo a cabeça. Uns dez minutos depois, a cena se repete. Não tenho dúvidas. Pego o telefone e ligo pro ramal dela. “Me encontre lá na Casa de Cultura em dez minutos. Vamos tomar um café”. Na mesma hora, a guria levanta e sai...para meu espanto. Ela passa por mim, dá uma piscada e sai da redação. Eu espero uns minutos e vou atrás. Quando chego ali em frente à Casa de Cultura, a guria já está me esperando. Em silêncio pegamos o elevador e vamos ao Café Concerto, no sétimo andar. O silêncio continua imperando, até fazermos o pedido. O garçom sai para buscar os cafés. “E então?”, digo. “Então”, repete ela. “Aqueles olhares...”, continuo, para um segundo depois, a guria enfiar a língua na minha garganta. “Eu tenho namorada...”, tento dizer, antes de me entregar ao desejo. Pelo menos conseguimos tomar o café, antes de descer os sete andares pelas escadas, num violento amasso, que só terminaria seis meses depois, quando decidi focar apenas na minha namorada oficial, e passar mais seis meses sendo jurado de morte.

"As coxas"

Indico uma namorada para trabalhar na redação da Rádio Guaíba, mas para evitar comentários desnecessários dos colegas, a gente combina de não revelar que somos um casal. A guria entra no mesmo turno em que estou, e a gente nem se fala. Esperamos acabar o serviço, e se encontra na Casa de Cultura pra trocar uns beijos e amassos, antes que eu volte pro turno no Correio do Povo. À época, as meninas usavam aqueles vestidinhos pretos, que mal chegavam nos joelhos, acho que chamavam de tubinho, e ela tinha umas coxas deliciosas. Aí o que acontece? Estou no corredor da rádio tomando um café, quando o Ricardo Vidarte, então repórter do esporte, me pega pelo braço. “Tu já viu a gostosa que tá trabalhando ali no jornalismo?”, pergunta ele. “Não, cara”, respondo. “Então vem cá”, manda ele, me puxando. A gente chega na sala, ele aponta discretamente a minha namorada, e sussurra baixinho no meu ouvido. “Olha só, que coxas, que bunda, eu até batia uma punheta praquela gostosa”, diz. Não poderia perder aquele momento. “Vidarte, o quê?”, peço pra ele repetir. E ele repete. “Vidarte, aquela guria é a minha namorada”. O Vidarte, ao invés de ficar constrangido, só diz: “Cara, me desculpe, mas parabéns”, antes de se mandar. Quando conto a história pra minha namorada, ela fica furiosa. “Como assim, o cara fala isso e tu não faz nada?”. “Amor, ele te elogiou. Pior se ele chega e me pergunta quem é aquele dragão...fiquei orgulhoso”, analiso, para ver a guria ficar de beiço por uns dois dias.

“Toc”

Todo mundo tem algum tipo de toc, todo mundo. Mesmo que seja mínimo. Fica nervoso ao ver um armário aberto, não sossega enquanto não tira aquele fio de cabelo no ombro do casaco de alguém, olha mil vezes se desligou o gás ou apagou a luz, lava a mão mil vezes por dia. Então lá estou eu, sentado na redação, plantãozinho, a Folha de S. Paulo de domingo do meu lado, intocada. Então um colega chega do nada, pega o jornal, separa a Ilustríssima, e diz que já me devolve...não tenho tempo de dizer não. E quase tenho um ataque cardíaco, pois não gosto de pegar jornal e revistas folheados, a menos que EU tenha folheado eles. Só deixo passar porque é um colega querido, e fico com vergonha de revelar meu toc. O colega se afasta, senta no lugar dele e fica folheando o jornal, e eu ali, bisoiando, torcendo para que a FSP não seja amassada. Dez minutos depois, o colega devolve o caderno, e o pego nervoso, torcendo para estarem pelo menos com as folhas alinhadas. Em vão, para aumentar minha taquicardia, e descartar o jornal sem ler. Cada um com suas manias. Como os que têm mania de dar palpite em tudo na vida dos outros.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

“A mensagem”

Ih, estou aqui tomando um vinhozinho e ao levantar para ir ao banheiro, a tontura bateu. Aí recordo de uma vez, há muito tempo atrás. Era uma segunda-feira, chovia muito, e eu havia brigado com a então minha namorada Sandra. Não lembro o motivo. Para afogar as mágoas, fui bebendo um vinhozinho ótimo, e o resultado foi uma choradeira, conectada com o temporal lá fora. Precisava conversar com alguém para desabafar...ao levantar da poltrona, a tontura tomou conta de meu corpo. Desabei direto no chão, completamente alcoolizado. Apaguei por alguns segundos, minutos, não sei...mas acordando, vi o telefone e liguei pra Fabi Madeira...mas passava da uma da manhã, e a ligação caiu na secretária eletrônica. Sem problema. Sai conversando, e na minha mente, explicando o que havia acontecido, o que faria no dia seguinte para fazer as pazes com a Sandra. Ih, a ligação, para mim, durou horas. Até que apaguei por completo. Acordo novamente lá pelas cinco da manhã...No dia seguinte, já sóbrio, chego na redação, e vou conversar com a Fabi. “Guria, te liguei ontem à noite. Pô, te deixei uma mensagem no celular, já que ele estava desligado”. “Negão, que horas tu me ligou?”. “Ah, sei lá, uma da manhã”. “Bah, estava dormindo há muito”. “Mas te deixei uma mensagem”. “Juro que não vi”, diz a Fabi, pegando o celular, à época aqueles jurássicos, tijolões. “Tem aqui uma mensagem”, verifica. A Fabi, então põe para rodar a mensagem. Ah, iriamos escutar minha conversa solitária. “Fabi, blsaibaEBVS´9vb ws´9VBW´VBWUIPVBAibvaicb pic ai bciB Cpifb qpidb ICBI ciABCIbciQVRGQ987TGRU9x By80RG9gd80qbd9FGq9cgbOG”, é a mensagem registrada no celular. É uma conversa desconexa, língua enrolada, entrecortada com choros, e que dura apenas um minuto e meio, o tempo que a secretária eletrônica reservava às mensagens. Meu deus, que fiasqueira.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

"A surra"

Putz, como apanhei nos primeiros tempos de colégio. Repetindo a sexta série, não foi diferente o meu destino. Estava lá eu na quadra de futsal do Paula Soares, que ficava no pátio secundário do colégio, lá na General Auto. Recreio, 10h da manhã, e eu fazendo meu lanchinho, pensando na vida, e olhando a gurizada jogar bola com uma tampinha de garrafa. As gurias estavam sentadas na escadaria do ginásio, onde no inverno jogávamos vôlei e ensaiávamos as peças de teatro. Eu vestia uma camiseta branca e a calça era aquele tradicional abrigo da Adidas, azul marinho, com as três listras brancas nas laterais. Abano pra Andréia, pra Flávia, pra Cláudia Batata, pra Diana. E quando elas retribuem o abano, sinto algo estranho. Olho pra baixo, e os carinhas da sétima série acabaram de puxar o meu abrigo pra baixo, levando de carona a minha cueca. Fico ali no meio do pátio, sendo zoado por eles, olho pra eles, olho pras gurias e não sei se largo meu sanduíche pra levantar a calça ou se choro. Puxo as calças de volta. Uma das gurias, e não consigo lembrar qual delas, sai correndo em direção à diretoria. Volta com a vice-diretora Margareta, apontando pra mim. Pronto, serei acusado de exibicionismo, mesmo que àquela época nem soubesse o que era isso. A Margareta, que era severíssima, para na minha frente, e os guris da sétima série já evaporaram. Mas eu sei quem são, e quando ela, ao invés de me ameaçar de demissão, pergunta quem fez aquilo, ingenuamente aponto o dedo para todos eles. A Margareta caça cada um, e quando passa com eles em direção ao SOE, um deles me olha, fecha o punho direito e soca a palma da mão esquerda. Isso significa que serei surrado em breve. Mais exatamente naquele dia. As aulas terminavam 12h. E faltando cinco minutos pra sineta, eu tremo todo, os colegas me olham, sabem do meu destino. Quando toca a sineta, já estava com todo o meu material guardado na mochila, levanto e desabo pátio afora. Quando passo pelo portão, levo uma rasteira. Eles estavam do lado de fora me esperando e não escapo de socos, pontapés, meus óculos são quebrados e todo o meu material retirado da mochila e atirado no chão. O massacre só para quando a professora Melda, de Ciências, sim, Melda, aparece e afugenta os valentões. Vou para casa, mas teria de voltar no dia seguinte e no outro, e no outro...

"Beijinho"

Estou lá na Renner, procurando uma camisa, e ouvindo música no meu ipod. Olho pro lado, em busca de um atendente, quando noto que uma das gurias do caixa está me olhando. Bonitinha, fofinha. Ela sorri e retribuo o sorriso. Continuo olhando as camisas, viro o rosto e lá está a guria, agora ela me manda um beijo. Sério? What a fuck? Só pode estar de zoeira. Procuro as câmeras do Topa tudo por dinheiro. Aponto o meu peito com meu dedo indicador, como dizendo “Eu?”. Ela balança positivamente a cabeça e manda outro beijo. Não, é sacanagem. E das boas. Procuro algum amigo sacana nas proximidades, mas não encontro nenhum. Tento me concentrar na procura da camisa, encontro o que quero e olho pra guria, que está de cabeça baixa, atendendo um cliente, pegando dinheiro no caixa. Respiro fundo, e decido ver qual é a dela. Será que conseguirei ser atendido por ela na minha vez. Bem, qualquer coisa, deixo alguém passar na minha frente. Quando chega a minha vez, me aproximo e dou oi. “Oi”, me responde ela. “Me chamo Fernanda”, completa ela. Quando estico a mão para cumprimentá-la, o que vejo? A Fernanda está grávida, um tremendo barrigão. Ou ela é gorda? Não, ela está mesmo grávida. “Tu está grávida, e me passa uma cantada?”, solto, tentando fazer graça. Ela ri também e confessa: “Ah, deu vontade de te conhecer. Este teu jeito, tu estava rindo, dançando”. Fico meio bobo, mas não consigo deixar de pensar: Safadinha....

“A caganeira”

Finalmente aquela gata que eu sonhava em dar uns amassos aceitou sair comigo depois de insistentes três meses. A convidei prum barzinho no sábado à noite, mas a Miriam foi direta. “Os meus pais estarão viajando sábado. Vem aqui pra casa. Eu faço a janta e tu traz o vinho”, diz ela. Não precisa falar duas vezes. No dia seguinte compro duas garrafas de um bom chileno, e fico imaginando o sábado. A imaginação vai longe, eu sonhando em me esbaldar naquele corpo lindo. Chega o dia, eu já acordo tremendo todo. O medo é tanto, que penso em desistir. No meio da tarde, a Miriam me liga. Olho pro telefone e penso: “Tomara que ela desista”, pois estou em pânico. Atendo. “Chico, cheguei agora do súper. Tu pode vir às seis? Aí tenho tempo de arrumar as coisas, tomar um banho, essas coisas de mulher, sabe, né?”. Minha nossa, não tem como recuar. “Estarei aí”, digo, anotando o endereço. Nisso, começa a cair o maior aguaceiro em Porto Alegre, mas como diz o velho ditado, quem está na chuva é pra se molhar. Então lá vou eu. Quando chego na casa dela, toco a campainha, ela abre, e eu dou três beijinhos nela, por mais que quisesse beijá-la na boca, sentir sua língua. Tento não demonstrar ansiedade, mesmo que na mochila esteja carregando camisinhas e roupa para passar a noite. Dou a entender que vim apenas jantar e tomar um vinho, e depois me toco de volta pro Cristal. Estou em pânico, e a Miriam era linda. Vamos pra cozinha, e ela pede que eu abra um vinho. Eu abro, sirvo os copos, e no primeiro gole que dou, minha barriga faz vruuummmmm. No segundo gole, minha boca fica seca, e minha barriga faz vruuuuuuuuuuummmmmm de novo. Eu sei o que é. Uma tremenda caganeira se avizinha. Pergunto onde fica o banheiro, peço licença e corro pra lá. Minha nossa. A coisa é violenta. Tento evitar fazer barulho, me dobro todo...quando puxo a descarga, 20 minutos depois, penso em ir junto, de tanta vergonha. Limpo bem a privada, tomo banho, e só apareço na frente da Miriam quase uma hora depois. Aliviado, mas pensando naquela piada do Costinha: “Me cantou vários meses, e veio cagar aqui em casa”. A Miriam me beija, para tentar quebrar o climão. “Tá melhor? Mas nada mais de vinho, certo? Agora vem aqui, e relaxa”, diz ela.

“A vegetariana”

Na faculdade tinha uma loirinha linda chamada Angela, longos cabelos ondulados, que fazia publicidade. Claro que fiquei de olho na guria. E depois de espreitar a menina, a convidei para almoçar. E para minha surpresa, recebi um sim como resposta. Agora onde iriamos nos encontrar depois da aula? Pensei em alguma lanchonete no centro de São Leopoldo, onde vendiam uns pastéis deliciosos. Mas a Angela sugeriu outro lugar. “Conheço um local tri, tu vai amar”, sugeriu ela. Topei, claro, tinha de fazer gênero, né? E onde ela me levou? Num restaurante vegetariano. E para mim, um bife bem suculento é essencial. Só que queria impressionar a Angela. Mas os pratos oferecidos, para mim eram totalmente intragáveis. Mas não iria me entregar facilmente. Escolhi um, e pedi suco de laranja. Muito suco de laranja. Foram seis copos, para disfarçar o gosto e empurrar aquela coisa goela abaixo. “Nossa, como tu gosta de suco de laranja”, disse ela. “E tá boa a comida?”, perguntou. “Tá ótima”, menti. Fui tão convincente que acabei sendo convidado para almoçar outras vezes pela bela universitária. Mas na terceira vez e o trigésimo suco de laranja, acabei confessando ser um carnívoro de primeira hora. Além de perder os convites das quartas-feira, não peguei a Angela.

terça-feira, 28 de maio de 2013

"Minha Luta"

Outro dia a Carmem Gamba contou ter surrupiado mais de 200 livros ao longo dos anos, quando confessei ter passado a mão em pilhas para suprir meu walkman. Estava vacinado, mas uma vez quase tive uma recaída. Eu queria muito ter o Mein Kampf na minha biblioteca sobre a II Guerra Mundial. Porém além de o livro ser proibido, custava uma nota preta, e isto é irônico em se falando de um livro do Hitler, numa livraria que o vendia clandestinamente ali na Marechal Floriano. O único exemplar ficava num cantinho lá no fundo da livraria, e ninguém ousava tocar nele, isso lá no final dos anos 1980. Eu entrava lá, pegava ele na mão, folheava, e colocava o livro dentro da pastinha da Unisinos. Era a minha luta...entenderam? Então me arrependia, e voltava a por o Mein Kampf na estante. Isso durou umas duas semanas, repetidamente. Então decidi: roubaria aquele livro. Entrei na livraria, fui direto ao livro e o peguei na mão, quando veio o arrependimento. Me dirigi então ao carinha do caixa, e pedi para ele: “Véio, guarda a minha pasta, e não deixa eu sair daqui sem esvaziar os bolsos”. O cara não entendeu nada, mas assim eu fiquei mais leve. Fui lá no fundão, paquerei o Mein Kampf mais um pouco. No final daquele mês, consegui uma grana extra e consegui adquiri-lo. O problema que para ler aquilo exige muito estômago, pois a gente vai vomitando página após página.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

“A prova”

Minha primeira namorada, dois anos mais velha do que eu, era virgem. Ela já tinha namorado outros dois carinhas, mas o máximo que fizera fora segurar o pau de um deles. E quase morrera de vergonha. Então eu fora sorteado para ser o primeiro dela. Eu já tinha perdido a virgindade com uma prostituta e esta história fica para outro dia. Depois de intensos e diversos amassos em cinemas, como o Imperial, Vitória, Cacique, a gente estava que não se aguentava mais para ir mais fundo. Na época, meados dos anos 1980, eu morava numa república ali na Duque de Caxias com mais dois carinhas. Sábado à tarde, os carinhas, mais velhos e estudantes da UFRGS, estavam viajando para suas cidades. Beleza, o apartamento só pra mim. Levei a guria para lá, coloquei para rodar um disco do Fleetwood Mac, e nos despimos. Envergonhados. E completamente desajeitados. Não teve jeito. Por mais que tentássemos, não conseguimos completar a missão. Ela sentiu muitas dores, eu não conseguia penetrá-la direito. Acabamos desistindo. Ficamos lá, deitados, abraçadinhos, escutando o barulho da rua. No toca-discos Djavan e seu Faltando um pedaço. Nunca vou esquecer. Lá pelas sete da noite tive de levá-la para casa. Mas não desistimos. Uma semana depois, decidimos retomar a missão. Os meus colegas estavam no apartamento e tive de pedir para eles darem uma volta de várias horas. Os dois sacaram e saíram sem perguntar nada. Só riram muito. “Ah, o neguinho vai molhar o biscoito”, disse um deles. Mais tranquilos, fomos bem devagar e correu tudo bem. Como sempre fui um piadista, não grande, mas inconsequente, o que faço depois de consumado o ato? Estava chovendo, a gente ficou ali, abraçadinho por algumas horas. Escutávamos Supertramp e seu It’s Raining Again. Aí a guria levanta para ir ao banheiro, eu pego o lençol, fico olhando aquela mancha vermelha. E quando ela retorna, eu abro bem o lençol, e narro, como se tivesse feito um gol: “Feito, feito...agora não tem mais dúvida! Bem vermelhinho!”. Batman, santa estupidez. A guria quis morrer de vergonha, chorou, e só não foi embora, porque era tarde e chovia muito lá fora. Mas depois, ela me perdoou pela criancice.

“Rebobine, por favor”

Já falei diversas vezes da minha namorada ciumenta. E olha que tem coisa. Sábado de inverno, friozinho gostoso para ficar em casa, vendo filme e tomando chocolate quente. É o que fazemos eu e ela. Abraçadinhos no sofá assistindo a um filme de suspense, quando em determinada cena, a atriz principal, uma bela francesa, vai entrar em determinada parte do prédio, onde está escondido o vilão. E o que acontece? Envolto no filme, eu solto um “não entra aí, bonitinha”. No mesmo instante, a minha namorada dá um berro: “O que tu disse”. Eu repito o aviso. E a minha guria: “Tira o filme, tira o filme agora mesmo”. “Mas...”. “Não tem mais, tu está me humilhando”, exagera ela. “Por quê? Como?” “Tu fica babando por outras mulheres”. “Amor, é um filme, um filme”, insisto. “Tira”. Pego o controle remoto, enquanto ela sai para o quarto. Paro a fita, sim, era a época do VHS. “Agora tu leva o filme de volta pra locadora”. “Amor, tu está exagerando”. “Não, não estou. Pode levar a fita, se não vou pra casa da mãe”, diz ela. Para não piorar a situação, começo a rebobinar a fita. “Leva agora, agora, tira esta merda daqui”. “Estou rebobinando”. “Tira agora mesmo”, ordena ela. Tiro a fita do vídeo-cassete e ponho em cima da mesa. “Já te disse, leva esta merda de volta pra locadora”, berra ela. Tento argumentar que é sábado, final de tarde, está frio, etc e tal, mas não adianta. Ela ameaça ir embora, ameaça chorar. Saio de casa e vou pra locadora, e ainda tenho de pagar a multa por não ter rebobinado a fita.

sábado, 25 de maio de 2013

"O rádio"

O Denilson ganhou do pai dele um rádio-gravador, daqueles que os caras carregavam para cima e para baixo pelas ruas nos anos 1980. Não se desgrudou mais do aparelho, sempre ligado, o que era um inferno para as pessoas que estavam por perto. Algo exatamente como fazem os funkeiros hoje e seus celulares em ônibus e trens. Só que o carinha escutava som pop, mas igualmente irritante, pois em seu toca-fitas parecia ter apenas duas músicas. A gurizada ficava sentada ali na esquina do armazém do seu Manoel, um comerciante irascível e por vezes grosseiro ao extremo. E de repente lá vinha o Denilson e seu rádio, tocando ou Forever Young, do Alphaville, ou então Making Love, do Air Supply. Duas baboseiras românticas e intragáveis. Elas terminavam, ele fazia o rewind e elas começavam de novo. E o pessoal pedia para ele parar com aquela tortura, e o Denilson fazia exatamente como os funkeiros, dava de ombros, mandava todo mundo à merda e prosseguia com aquilo. Até que um dia o irmão do Valmor, o Eraldo, que trabalhava na Brigada Militar, perdeu a paciência: "Ô meu, tu pode desligar isso?". "Não", respondeu o Denilson. "Te peço na boa". "Não". O Eraldo, então, perdeu a paciência e a razão e enfiou o pé no rádio, que voou longe, pilhas prum lado, fita pro outro, para delírio da galera. O Denilson se desesperou, juntou os cacos, chorou, foi pra casa, mas no dia seguinte lá estava ele de novo. O jeito foi o pessoal sumir da esquina por um tempo.

“A puta”

Eu tinha uma namoradinha dois anos mais velha do que eu, que já estava fazendo cursinho, lá no Universitário. Eu saia do Paula Soares quando estudava à noite e ia buscá-la lá na Dr. Flores. A gente ainda não havia transado, nós dois éramos virgens. E o que acontece? Um dia não tive os dois últimos períodos, sai mais cedo do colégio e fiquei dando voltas pelo Centro, até a hora de encontrar com ela. Naquele tempo não existia celular, então o jeito era ficar num ou outro lugar esperando por horas. Aí passo numa rua e vejo uma baita loira fazendo ponto. Fico babando, mas não me atrevo a chegar perto. Às 22h30min encontro minha namorada e a levo pra casa. Já em casa, a loira não sai da minha cabeça. No dia seguinte, mato os dois últimos períodos só para ver se encontro a puta fazendo a ronda dela. E lá está ela. Respiro fundo, aperto as mãos e chego perto. “Oi”, digo. “Oi”, responde ela. “Quanto é?”, pergunto. Ela me diz o preço, que não recordo, ainda mais depois de tantas trocas de moeda. Sei que não tinha a grana, mas isto vira o projeto após receber meu salário no Juizado de Menores. E no final do mês, volto lá, antes de encontrar a minha garota. Naquele dia não tinha aula. A puta me leva prum hotelzinho fuleiro ali no Centro, eu pago o quarto e a parte dela, e vamos pro quarto. Hoje em dia eu nem passaria perto de tal pocilga, mas na época, guri, aventureiro...a puta ainda quer conversar e eu querendo ir pros finalmente. Tudo nela era superlativo, os peitos, a bunda, as coxas, os cabelos amarelos, a boca, os olhos...ela pergunta até se tenho namorada, se transo com ela. “Não, não transo, aliás, sou virgem”, confesso. “Mas tu namora uma santa?”. “Não, mas a gente ainda está naquelas...”, digo. “Tudo bem, relaxa”, manda ela, colocando a camisinha em mim, e ficando de quatro. A guria não finge nada, não geme, só fica pedindo pra mim gozar de uma vez. E aí eu não consigo esporrar. O tempo vai passando, eu ali, feliz da vida. “Carinha, o tempo está esgotando, se tu não gozar, ou paga o dobro, ou a gente encerra”, que motivador. Acabo não gozando e me nego a pagar mais. Não foi muito legal, mas saciei a curiosidade. Vinte minutos depois, estou em frente ao Universitário esperando a minha namorada. Quando ela chega, pergunta: “Chiquinho, esperou muito? O que tu fez hoje?”, pergunta. “Ah, eu estava ali no cinema vendo Amadeus”, minto. Ela quis saber como era o filme, eu desconversei, e no dia seguinte eu matei o serviço à tarde para ver o filme com o Tom Hulce, e poder contar para ela. A puta foi o Salieri de minha primeira namorada.

“E aí, brô”

Aconteceu agora há pouco. Fui pegar o ônibus ali em frente ao Gasômetro, e tinha um carinha sentado no banco da parada, puxando um fuminho e batendo cabeça, pois estava com fones de ouvido. O que estaria escutando? Eu sento dois bancos do lado, e ponho meus fones de ouvido. O cara faz um sinal, me chamando. Tiro os fones. “Sim?”. “E aí brother, o que tu está escutando aí? Tá ouvindo a Ipanema? Eles tão tocando Nirvana”, informa. “Não, estou escutando Exodus”, respondo. “Massa, Bob Marley”, vibra o carinha. “Nós, maconheiros sabemos o que é bom, né?”, continua ele, fazendo o sinal de positivo pra mim. “Ops, tu tá enganado, não estou ouvindo Marley, aliás acho reggae uma chatice monumental”, acrescento. “Mas é Exodus, baita disco”, diz ele. “Não, Exodus, a banda de heavy metal”, digo. ”Não, não, Exodus é o disco do Bob Marley”, insiste. Levanto e deixo ele escutar o meu Exodus. “Ah, é metal, parece Pantera”, analisa ele. “Não parece não, mas deixa assim”, falo. “Tu não curte Marley, mas pelo menos é maconheiro”, conclui. Não sei daonde ele tirou esta ideia numa noite de sexta-feira. Mas não foi a primeira nem a última vez que sou incluído no clube.

“Nem pensar”

O Rudi era um amigo meu, também negão, que estava completamente entusiasmado com seu casamento com a colega de faculdade de direito, uma alemoa lá de Feliz. O amor entre os dois havia sido quase instantâneo no primeiro dia de aula na Unisinos. Mas a timidez imperou, outros rolos aconteceram e os dois nunca se declararam. O namoro só iria rolar anos após a formatura. O Rudi passou uma temporada no exterior, sem contato com a guria. Na época, nada de internet, então a comunicação era feita por cartas, e os dois trocaram uma, duas, até perderem o contato. Quando ele voltou para Porto Alegre, os amigos e colegas fizeram um jantar de comemoração e o Rudi reencontrou a ex-colega. Combinaram de sair, e o namoro teve início. Um ano depois, casaram. Muito, muito amor, que acabou de forma brusca. Quase estúpida. Um dia estavam deitados na cama, ele pegou-a pelos cabelos, a encarou bem nos olhos. “Querida, vamos fazer um filhinho, uma filhinha, uma neguinha linda, de grandes olhos verdes? Imagina só, o arraso que seria”, projetou. A guria foi cruel, muito cruel, como narrava o Januário de Oliveira na Band. “Tu quer ser pai?”. “Sim”. “Então arranja outra mulher, pois eu de forma alguma serei mãe, muito menos de um filho teu”. Doeu muito pro Rudi. Ele ainda resistiu um ano, mas depois pegou suas coisas e saiu de casa. E do estado.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

“O porre”

No final de 1982, o pai e a mãe separados, decidi ficar na casa de meu velho no Ano Novo, ouvindo música. O pai, porém, se bandeou pra igreja, vivia nela, e a mãe estava com seus irmãos e outros parentes em outro lugar. Então eu e o alemão Sérgio Ludvig resolvemos fazer uma massa com galinha, e compramos um daqueles garrafões de cinco litros de vinho tinto que deixavam os dentes manchados. E começamos a beber, beber, beber...o vinho foi pegando, o som bem alto, a gente estava escutando Van Halen, Kiss, era a época do clássico I Love It Loud. A vizinha era uma gostosa que costumava tomar banho de sol e a gente ia pra janela olhá-la de binóculos. Claro que como era noite, a Simone não estava se banhando né, mas estava lá com os familiares dela, comemorando a chegada de 1983. Eu e o Sérgio chegamos na janela, e começamos a gritar: “Aparece, sua gostosa, gostoooooosa”, e riamos, riamos como se não houvesse amanhã. Repentinamente, meu estômago começa a embrulhar, a fazer um ruído estranho, e o alemão só tem tempo de dar um pulo para trás e eu estou despejando pela boca todo o vinho e a massa consumidos nas últimas horas de 1982. O alemão não conseguia parar de rir. A minha camisa branca ficou roxa e amarela, assim como o chão da sala. E o cheiro...ih...corri pro chuveiro, tomei uma ducha e desmaiei no sofá. Quando acordei no dia seguinte, não sentia minhas pernas, mas o seu Chicão não bronqueou comigo. Passou o dia me dando sopa e suco, enquanto eu fiquei deitado na cama lendo O Corcunda de Notre Dame. E nunca esqueci, na televisão, na Band, passava Assassinato por Morte, uma comédia com Peter Sellers e Truman Capote. Ah, o alemão também desmaiou de bêbado, mas a dona Frida igualmente o perdoou do castigo. Mas como resultado do porre, passei os próximos quinze anos sem colocar uma gota de álcool na boca.

“Vampiro”

Há alguns anos fui viajar com uma namorada. Nós estávamos naquela fase intensa da paixão, trepando em qualquer lugar que desse. Pois estamos programando um dia de intensas caminhadas pela cidade que visitávamos naquele momento, quando começa a cair um tremendo temporal. Olhamos pela janela, e era tanta água que não dava para ver nada lá fora. O jeito foi abortar o passeio e ficar deitadinho na cama, escutando música. Naquela manhã a minha namorada havia menstruado, então fazer sexo estava fora de questão...não totalmente, pois certas coisas não ficam inviabilizadas, se é que me entendem. A guria não perdeu tempo e fez um ótimo trabalho com a língua em meu pau. Terminado o boquete, ela não quis ser penetrada. Pediu algo mais impensável naquele momento. “Amor, me chupa”. Olhei para ela, pensando ser brincadeira, mas não, não era. Ela queria mesmo que eu colocasse a língua em sua vagina. “Tu tá menstruada”, lembrei. “Mas eu quero sentir tua língua na minha buceta”, gemeu ela. Ah, o amor. Não me fiz de rogado, coloquei-me em posição e avancei, para um segundo depois levantar a cabeça, enjoado e quase vomitar por causa do cheiro. “Não dá, não dá...tá com cheiro de podre”, eu disse. Não dosei as palavras, que acabaram por magoar a menina. Ela não disse nada, simplesmente começou a chorar, levantou, colocou a roupa e saiu porta fora. Aí sim ordenou: “Não me segue, não me segue”. Obedeço, fico sentado na cama e ela sai debaixo de toda aquela chuva torrencial. Duas horas depois, a guria volta, toda molhada, deita e me abraça. “Tu não é vampiro, eu não sei o que estava pensando”. E passa o resto do dia chorando.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

“Mentirinha”

Era uma gordinha muito bonita. Fiquei encantado por ela e não desisti enquanto não a convenci a ir pra cama comigo. Na primeira vez fomos para um motel. O carinha da recepção ficou nos olhando, com um sorriso debochado nos lábios, e quando nos dirigíamos pro quarto, ouvi ele falar bem baixinho. “Bah, o negão vai se esbaldar hoje, se é que não vai morrer esmagado”. Pensei em voltar e dar uns sopapos no idiota. Desisti. Queria mais curtir a guria. E olha, ela se esmerou muito. Politicamente incorreto, até pensei naquela máxima de que as gordinhas são as melhores trepadas porque acham que estão transando pela última vez na vida. Após algumas vezes decidi poupar os trocados do motel, e convidar a guria pra ir na minha casa. Ela aceitou na hora. A guria chega lá em casa, a gente dá uns amassos no sofá, e ela sussurra no meu ouvido: “Negão, vai me esperar na cama, enquanto eu vou ao banheiro”. Dito e feito. Me mando pro quarto, deito, com o pau já preparado, e ela vai se preparar. Quando ela chega na porta, passa a língua nos lábios, e sinto a maldade gostosa. E ela vem vindo, vem vindo e dá um salto em minha direção. O que acontece? Quando ela pousa, a cama não suporta e vai chão abaixo, afinal, meus 110 quilos, mais os 70 que ela disse ter. “Aí meu Deus, o que fiz?”, se desespera ela. “Calma, calma, não foi nada”, eu digo, acalmando-a. Busco um copo d’água e dou para ela, que fica bebendo, enquanto puxo o colchão pro lado, e é ali que trepamos. No dia seguinte contrato um marceneiro, o carinha chega, analisa a situação e encontra uma solução: reforçar as beiradas da cama. Ficou uma beleza, como se dizia antigamente. Eu e a gordinha marcamos a reestreia do móvel no final de semana seguinte. “Agora não tem perigo”, digo pra ela, que sorri, envergonhada, e me tasca um beijo na bochecha. Segundos depois, ela me empurra pra cima da cama, eu caio de costas, e abro os braços para recebê-la. A gordinha, então, pula sobre mim...e a cama desaba de novo, fazendo um tremendo barulho naquele começo de madrugada. “Chico...preciso te dizer uma coisa...”, sussurra ela, quase chorando. “Calma, calma”, digo, passando a mão no rosto dela. “Não, não...eu te menti, eu não tenho 70 quilos, eu peso 92 quilos”, revela ela. Passei os meses seguintes dormindo no chão, até ter grana pra comprar uma cama nova.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

“A Virgem”

Uma vez namorei uma guria, já com 30 anos, bonitinha, inteligente. Beijava muito bem. Mas na hora do contato mais íntimo, ela travava. Nervosismo, pensei com meus botões. Algumas pessoas precisam de um tempo maior para se soltar. Tranquilo. Mas como éramos grandinhos, só beijos não bastavam. Eu queria mais. Num sábado, após o cinema, a convidei para irmos pra minha casa. A guria se apavorou, e recusou. Precisava ir para a casa estudar, disse. Tudo bem, deixamos para o outro final de semana, eu disse, cheio de tesão. No meio de semana, a guria me liga e diz que não quer mais continuar namorando. “Mas qual o motivo?”, pergunto. “Só não quero mais”, ela responde. Não insisto. Tchau. Mas chega o sábado e ela me liga. “O convite de a gente jantar na tua casa ainda está de pé?”, pergunta. “Está”, digo, pensando que não só o jantar está de pé. Ela diz que chega em uma hora. Vou preparando, enquanto isso, a casa, peço a janta por telefone, separo as camisinhas. E o que acontece? A guria chega, jantamos, tomamos um vinhozinho e começamos um amasso. Meto as mãos embaixo da blusa dela e arranco o sutiã. Ela tenta afastar as minhas mãos. Paro. “Por que tu parou?”, ela diz. “Ué, tu empurrou as minhas mãos”, respondo. “Não, não, não, continua”, pede. É prá já. Tiro a blusa dela, e aparecem os seios duros, tamanho médio, bonitos. Pego eles, beijo eles, chupo eles. Mas quando tento chegar à segunda base, ou seja, tirar a calça dela, nada feito. Ela não deixa. E só não deixa, como se manda. Fico ali, de barraca armada, puto da vida. A guria some duas semanas. Quando volta, diz que será diferente. Enfia as mãos na minha calça, me masturba, mas sempre sem olhar pro meu pau. E me dá um estalo. Eu entendo o que está ocorrendo com ela. Peço para ela ficar calma e vou tirando peça por peça da roupa dela, até aparecer um corpo muito bonito. A beijo, e ela senta no meu colo. Vai ser ali. Beijo os seios dela, ela fecha os olhos. “Chico...” ...”Sim, fala”, digo. “Preciso te dizer uma coisa”. “Eu já sei o que tu vai me dizer”. “O quê?”. “Tu é virgem”. A guria fica vermelha, muito vermelha. “Como tu sabe?”. “Ah, simplesmente eu sei. E só vai rolar se tu quiser”, garanto. “Tenho medo”, garante ela. “Bem, então põe tua roupa, que te levo pra casa”, digo. “Não estou pronta”, continua a guria. E comigo nunca ficou pronta. Ficamos juntos mais alguns meses, mas nunca rolava. Então cada um acabou seguindo seu caminho.

"Os quadros"

Namorada nova, apaixonadíssimo, e cego, só vejo as coisas boas da guria. Corpo violão, longos cabelos loiros, olhos azuis, peitão. Nem me dou conta que nós dois tínhamos muito pouco em comum. E comecei a ver as coisas com mais clareza quando a Bia veio à minha casa pela primeira vez. A guria faz a tradicional visita pelo apartamento, e para em frente a um quadro do Iron Maiden. “Irãn Maidên, o que eles tocam?”, pergunta ela. “Airon Mãeden”, corrijo. “É uma banda de heavy metal”. “Ah, aquelas músicas de louco”, conclui a Bia, seguindo em diante. À sua frente um quadro com a capa do The Dark Side of the Moon. “Chico, tu é gay?”. “Ah, como assim, Bia, tu fumou?”, me espanto. “É que esse quadro tá com o arco-íris dos gays”, analisa. “Bia, esta é a capa do The Dark Side of the Moon, do Pink Floyd”, explico. “Viu, pink, rosa, é coisa de bicha”, continua a guria. “Bia, tu não conhece o Pink Floyd?”, meu espanto vai crescendo. “Além do mais, como posso ser viado se te como, e muito bem, aliás?!”. Ela dá de ombros e falo da banda. Não, ela nunca ouviu falar. Pergunto do The Wall. Nada sabe aquela loirinha. Pego os discos e mostro para ela. “Tá vendo, este aqui é o The Dark, lançado em 1973, com o prisma e não arco-íris”, ensino. “Este aqui com os tijolos é o The Wall, de 1979”. Ponho para rodar a faixa Another Brick in the Wall, afinal esta todo mundo já ouviu alguma vez na vida, pois tocou e ainda toca demais nas rádios. “Ah, isto eu já ouvi”, reconhece. O “isto” dela me dá arrepios. “Mas não me diz nada”, conclui a Bia. Ali notei que nossa relação não tinha futuro. Não teve mesmo. (www.guaibadas.blogspot.com)

terça-feira, 21 de maio de 2013

“O médico”

Estou na fila do banco, quando um velhinho passa na minha frente, afinal ele tem a preferência. Ele começa a conversar com o caixa, e eu lembro dele, era o médico de minha mãe há muito tempo. “Dr. Roberto, né?”, pergunto. “Sim”, responde o senhorinho. “Não vai lembrar de mim, mas sou o filho da Flora”, me apresento. Ele olha, olha, e...”tu é o Chiquinho?”. Faço sim com a cabeça. “De Chiquinho tu não tem mais nada”, afirma o Dr. Roberto. “Pô, guri, como tá a tua mãe?”. “Bem, bem”. “Estou espantado, guri, o teu tamanho, fico pensando na Florinha, pequenininha...”, diz ele, começando a falar baixo. “Vem cá, tua mãe deve ter sofrido muito para te dar a luz. Tu deflorou a Flora no teu nascimento”, brinca ele. “Agora, raciocina comigo, guri, quando uma mulher dá a luz a um bebê grandão , quatro, cinco quilos, sofre, geme, xinga, mas segundos depois, pensa, ah, quero ter mais uns dois”, vai analisando. “Aí penso, tu tá lá querendo transar com tua namorada, mulher, e ela reclama quando tu enfia o pauzinho nela, o que elas fazem? Ah. Para, tá doendo, tá doendo...”, continua. “Não entendo, não reclamam de um bebezão, e duma pingolinha, abrem o berreiro”, finaliza. Eu penso, minha nossa, tenho de contar isso, mesmo que a mulherada vá baixar a linha no pensamento machista. Mas ele era um médico do tempo do parto natural, sem cesariana...

“Coleção”

Há alguns anos atrás fui morar com uma namorada. Ciumenta ao extremo. Das minhas amigas, amigos, dos meus discos...ih...a lista era grande. Eu colecionava a revista Playboy desde o começo da adolescência, e não queria me desfazer delas de jeito nenhum. Tinha as edições da Xuxa, da Claudia Ohana, Luciana Vendramini, Lúcia Verissimo , as trigêmeas gaúchas, Mara Maravilha, , Vanusa Spindler, entre outras. Com fazer? Bem, no nosso apartamento havia um enorme roupeiro, e lá na parte mais alta, um fundo falso...feito. Coloquei as mais de 100 revistas naquele lugar, dentro de uma caixa, tapadas com um cobertor. E na frente de tudo, um monte de sacolas com camisas de futebol e de banda. Ficou muito bem camuflado. Mas não existe crime perfeito. Um domingo, invernão, frio tremendo, fui trabalhar e minha namorada ficou em casa, sem ter o que fazer. Ela então pensou, ao invés de ficar deitadinha na cama, vendo tevê ou lendo: “Ah, vou dar uma arrumada no roupeiro”. Para chegar na parte mais alta, pega o banquinho, e vê as sacolas, manda tudo pro chão e nota algo estranho. Era o fundo falso. Ela afasta a parede e enxerga aquela caixa enorme. Puxa e com o peso, vem tudo abaixo, quase a derrubando. As revistas se espalham pelo chão do quarto. Chego em casa lá pelas nove e meia da noite, abro a porta, pensando na minha esposinha com a jantinha pronta. E o que acontece? Lá está ela, sentada no sofá, e aos seus pés todas as Playboy empilhadinhas. “Chico Izidro, o que é isso?”, pergunta ela. “Ahhh, minhas revistas”. “Eu não sou o suficiente pra ti?”. “Mas claro que é”. “Então por que tu tem estas porcarias?”. “Nada a ver, é a minha coleção que tenho desde guri”. “Bom, tu tem 15 minutos pra se desfazer delas ou acabou tudo”. “Mas...”. “Sem mas...eu vou embora e nunca mais”, ameaça ela. Desço até a garagem, pego o carrinho, volto, coloco todas as revistas dentro, e levo pro lixo. Anos depois, estou na minha dentista, e ela conta que o marido estava de aniversário. E o que ela fez? Deu a assinatura da Playboy para ele. Eu conto meu caso. “Bah, tua mulher era muito insegura. Eu confio no meu taco, e o que é a revista? Fotos, nada mais. Tu deveria ter dito pra ela, quem chegou primeiro, ela ou as revistas? Teu casamento acabou e tu não tem mais a coleção. Perdeu de qualquer jeito!”...

segunda-feira, 20 de maio de 2013

"O gênio"

Não sei se fiz certo, mas o espírito de porco tomou conta de mim na festa da Revista Goool, no dia 17 de maio. Estou lá batendo um animado papo com o Daniel Boucinha e o Alexandre Lopes Correa, quando enxergo o Luis Fernando Veríssimo, sua esposa Lucia e o Paulo Sant’Anna sentadinhos num cantinho, quietinhos. Puxa, o Veríssimo, penso eu, fã de carteirinha. Peço licença aos guris e vou em direção a ele. “Com licença”, peço. O Verissimo levanta os olhos, abre um tímido sorriso, e eu falo. “Desculpe te incomodar, mas sou seu fã desde sempre”. Ele me cumprimenta, digo que sei de sua timidez e que também sou, mas precisava conhecê-lo. A dona Lucia também me cumprimenta, e eu começo a gaguejar. “Fica tranquilo, meu filho”, diz ela, carinhosamente. Relaxo, e saio falando. Ah, o Sant’Anna me olhava intrigado, pois não fiz questão de cumprimentá-lo. Então eu disparo: “Verissimo, tu é o melhor cronista aqui da terrinha, tu é um verdadeiro gênio”. Deu...o Sant’Anna com seu ego imenso e insuportável, me fuzila. Chamo o Boucinha e peço pro Verissimo e pra dona Lucia. “Vocês tirariam uma foto comigo?”. Eles dizem sim. “Mas claro”, fala a dona Lucia, se levantando e pegando o marido pela mão. Aí eu falo com o Sant’Anna. “ O senhor poderia fazer o favor de dar um passinho pro lado, pois vou tirar uma foto com o Verissimo?”. Ele não me responde, continua me olhando tipo: “Que esse merdinha tá pensando? Eu sou o Sant’Anna, o gênio...”. Pra mim, ele não é nada. E o Boucinha faz a foto minha com a simplicidade em pessoa. (www.guaibadas.blogspot.com)

“Violão”

Amo música e sou um músico frustrado, por não saber tocar nenhum instrumento. Mas não foi por falta de tentativa. Aos seis anos, comecei a ter aulas de violão com o Antônio Carlos, filho do padrinho de minha mãe. O problema é que o cara não era nenhum pouco paciente com uma criança em tão tenra idade. As aulas eram aos sábados, no final de tarde, logo após o programa do Jacques Costeau na Difusora, Canal 10, atual Band. Ele começava a aula me jogando o violão no colo e querendo que eu já saísse tocando feito Jimmy Hendrix. Quando eu errava uma nota, levava um safanão. Criança, tímida, esboçava um choro, e levava outro safanão na orelha. Além disso, o Antônio Carlos insistia para que eu tocasse Vento Negro. Por quê? Por quê? Porque todo mundo que estudava música nos anos 1970 e 80 em Porto Alegre começava aprendendo esta música dos Almôndegas. Sei que um ano depois, sem nem conseguir me acertar com as cordas do violão, desisti das aulas. E em 1982, o Antônio Carlos, depressivo, irritadiço, meteu uma bala na cabeça numa noite de chuva.

domingo, 19 de maio de 2013

"O culpado"

Este negócio de alguém perguntar como está um parente, uma namorada, sei lá, às vezes incomoda, mas as pessoas só estão querendo ser atenciosas. E por isso acabei me dando mal nesta semana. Encontrei uma amiga querida e conversa vem, conversa vai, para encerrar o assunto, solto: “Meu doce, tua mãe tá bem? Manda um beijão pra ela”. No segundo seguinte, minha amiga devolve: “A mãe morreu no final do ano passado”, e desaba no choro. Não sei o que fazer, começo a soltar desculpas, que não aplacam a dor da lembrança dela. E o que recordo? Um tempo atrás encontro um colega de faculdade que há muito não via. E o carinha: “E ai, como tá teu pai, o velho Chicão?”. “O pai está morto”. “Mas como, quando foi isso?”, espanta-se meu ex-colega. “Há 20 anos”, e começo a chorar de sacanagem, de mentirinha. “Me desculpe, me desculpe”, implora o coleguinha. “Por que, foi tu que matou ele para vir se desculpar?”, continuo fingindo. Sei, a brincadeira foi longe demais, mas não resisti. Quando o carinha estava quase se enforcando de culpa, paro com a atuação, e começo a rir. Aí o meu colega ri também, um pouco de nervoso, um pouco por lembrar que sempre fui muito sacana. “Seu viado, não mudou nada, né, e eu caí direitinho. Mas putz, 20 anos, como foi?”, continua ele. Conto a história, claro, sinto falta de meu velho, de ouvir a voz dele, que infelizmente já esqueci, mas são duas décadas. Aconteceu...

“O Cheque”

O Possas, certa época, após encerrado o seu primeiro casamento, começou a colecionar garotas de programa. Explico: ele pegava os classificados do jornal no domingo, anotava a que lhe interessava, ligava para ela, acertava o esquema, e depois de consumado o fato, recortava o anúncio da menina e colava num caderno, que escondia num baú embaixo da cama. Só que tanta putaria custava dinheiro, e ele foi minguando. Um dia, o Possas pagou uma hora de sexo selvagem com cheque. E não é que dias depois, a guria foi descontar o dito cujo e...bem, a menina sabia onde o Possas trabalhava, ou seja, no Correio do Povo. E foi lá no jornal por volta das oito da noite numa terça-feira. Chega na portaria, e diz que precisava falar com o Possas. O porteiro simplesmente manda a guria subir. E o que acontece? O Possas sentava de costas para a porta. A menina, salto agulha 12cm, mini-saia vermelha, blusinha deixando o umbigo à mostra, e uma bunda maior do que uma melancia, para atrás dele e anuncia: “Alfredo, o teu cheque voltou...”. O Possas escuta aquela voz, gela, então rapidamente levanta: “Como tu entrou aqui”, já pegando a guria pelo braço e empurrando ela pra fora da redação. E a menina berrando: “Tu me deu um cheque sem fundo!”. “Fica quieta”, pede ele. Os dois saem para o corredor, parlamentam por vários minutos, e depois ele volta, com o rabo entre as pernas, e virando motivo de zombaria dos colegas. Ele jura que só esqueceu de assinar o cheque...

sábado, 18 de maio de 2013

“Prestígio”

Odeio coco. Com toda a convicção do mundo. Eu tinha uns 10 anos e gamei numa colega de colégio, a Flávia Carvalho. Mas quem acompanha minhas histórias, sabe que o mudismo imperava na minha vida infantil e adolescente quando o assunto era garotas. Mais ou menos como o Raj, do Big Bang Theory. A mãe, então, ganha um bombom prestígio de meu pai. Ela não come na hora, deixa em cima da mesinha da tevê para comer no final de semana vendo algum filme ou novela. Passam um, dois, três dias, e o prestígio ali. E eu querendo trocar uma, duas, três palavras com a Flávia. Como poderia me aproximar dela? Ora, levando um presente. E pego o doce. No recreio, chego na menina, e digo: “Tó, pra ti”. “Izidro, obrigada”, agradece ela, devorando o presente em seguida. O papo? Não teve, pois voltei pro meu silêncio natural. E que teria consequências nefastas quando chegasse o final de semana. Estou ao lado de meus pais, vendo Os Trapalhões. Recém havíamos acabado de jantar. E a mãe diz: “Agora vou comer meu doce”. Tenho um calafrio. “Cadê meu doce? Querido, tu pegou ele?”, pergunta a mãe pro pai. “Não”, responde o seu Chicão. A dona Flora me olha. Me fuzila. “Cadê meu chocolate?”. “Eu comi”, minto. “Francisco de Assis, tu não gosta de coco, tu não come coco nem sob tortura”, me desmascara. “Não, eu comi”, insisto. “Não me mente”, ameaça a dona Flora. Acabo confessando o roubo e a entrega pra paixão colegial. “Tu pega meu chocolate e leva pruma guria no colégio. Nem pensou na tua mãe?”. Ah, a chantagem emocional, antes da surra de chinelo que levei (imagina hoje uma mãe dar umas chineladas nos filhos?). Não bastassem as chineladas, o que mais doeu foi o corte da minha mesada, que era semanal, durante dois meses, e que facilitava a compra de revistinhas em quadrinhos e minhas bolachas recheadas São Luiz Extra. Quem acabou namorando a Flávia foi meu amigo Orlando.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

“O frio”

O frio chegou a Porto Alegre, e eu e a Simone Rocha caminhamos pela Rua da Praia. Estou usando apenas uma camisa preta do Iron Maiden e ela reclama que deveria ter colocado mais uma blusa, apesar de estar de jaqueta. “Chico, tá frio”, reclama. “Guria, para de frescura”, digo. “Vou congelar”, continua ela. “É que tu não está mais acostumada com o frio daqui, depois de passar anos em Vitória”,analiso. A Simone continua gemendo, e na nossa direção se dirige uma guria toda encasacada, manta, boina, se apertando toda. Parece estar morrendo. “Que frescura, olha aquela mulher ali, que coisa mais fresca, com aquele monte de roupa. Imagina quando chegar o inverno mesmo”, aponto. Damos mais dois passos e vejo quem é a guria, e começo a rir. Bah, eu estava corneteando a Sirlei Pastore, toda elegante, como estivesse em Paris. “Sissi, me desculpe”, peço. A baixinha não entende, e a Simone me entrega. E levo uma bolsada da Sissi.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

“O doido”

Recebo o convite para uma festa na casa de um vizinho, sábado à noite, na Cidade Baixa. Na época eu morava na João Alfredo, ali bem pertinho de onde hoje é o Ossip, e onde antigamente do lado de meu prédio ficava o Tudo Pelo Social. E lá vou eu para a festa. Toco a campainha e o anfitrião abre a porta, aperta a minha mão. “Entra aí, Chicão”. Entro e segundos depois, deparo com umas 15 pessoas sentadas em sofás, no chão, cheirando carreiras infinitas de cocaína, colocadas em pratos. “Fica à vontade, hoje é tudo free”, diz o dono do apartamento. Eu olho para ele, agradeço o convite e digo que estou indo embora. “Mas tu chegou agora”, estranha ele. “Cara, me desculpa, na boa, eu não sou chegado nesta parada. Sem problemas, cada um na sua, e esta não é a minha”, digo. O carinha fica me olhando, com os olhos arregalados, como se eu fosse um ser de outro planeta. “Claro que tu tá brincando, né?”, pergunta ele. “Não, sério, falo sério mesmo e estou indo”, confirmo. O cara continua fazendo uma cara de surpreso e analisa. ”Chico, eu pensei que tu seria o primeiro a curtir esta festa”, garante ele. “Mas por quê?”, me espanto. “Bah, Chicão, tu anda com estas camisas pretas, ouve estes rocks de doido, tá sempre rindo e falando...”, afirma. Oh, my god, eu fui vítima do estereótipo. “Puxa, meu velho, tu está tão errado sobre mim”, digo, colocando a mão no ombro dele e indo embora. Bem, não fora a primeira vez. Pra mãe da Márcia eu fumava um baseado. Ops, vários...

"A Hobbit"

Toca o telefone e atendo, sem olhar o número. Geralmente quando a ligação é do trabalho ou de algum amigo mala, ou antes das 14h, não atendo. Mas eram 19h. “Alô?”, digo. “Oi, é o Chico?”, pergunta uma bela voz feminina, que não reconheço. "Sim", respondo. “Tu não me conhece, me chamo Monica, uma amiga me falou muito de ti, fiquei curiosa e pedi teu número. Quero muito te conhecer”, ela diz, sem pestanejar. Fico surpreso e claro, lisonjeado. Decido conhecer a guria. Marcamos de nos encontrar num final da tarde de sábado, no Praia de Belas. Quando nos vemos, parece que sempre nos conhecemos desde sempre. Tomamos um café, e acabamos nos beijando. Tudo muito direto. O próximo passo é o motel naquele mesmo dia. Ela é uma guria bonita, cabelos castanhos longos e cacheados, olhos também castanhos, uma boca pequena, cerca de 1,65m. E no quarto, ficamos completamente nus. Ou quase, pois a Monica se nega a tirar as meias brancas. Mas tudo bem, cada um com suas manias. O tesão é intenso, depois das cervejinhas. “Posso?”, pergunta ela. Não entendo. “Posso?”, repete. “O quê?”, solto. “Faça”, afirmo. Ela pega meu pau, e chupa com vontade. Trepamos, mas as meias lá. O tempo vai passando, a gente se encontrava todos os finais de semana, trepava ora no motel, ora na minha casa, ora na casa dela. E nada de ela tirar as meias. Qual seria o mistério? Numa tarde, a gente estava em minha casa, na cama. E insisto com a Monica. “Pô, tira as meias, vai”. Ainda mais que adoro pés femininos, e já deixei de sair com algumas meninas por causa dos pés feios delas. E o que acontece? A Monica apaga as luzes, e dá para ver na penumbra ela tirando as meias. Porra, quero ver os pés dela. Levanto, acendo as luzes e o que vejo? Os pés mais feios que já vi na vida, a guria tinha joanetes imensos, os dedos tortos e as unhas quebradas e escuras. Mas como, se o resto era de uma beleza rara? “Aí guri, por isso que não queria tirar as meias, eu sabia que tu ficaria decepcionado”, disse ela, sacando meu horror com aqueles pés que lembravam os dos hobbits do senhor dos anéis. A gente ficou junto mais umas duas semanas, eu querendo fugir para a Sibéria, a Monica sempre de meias, até que num dia a guria disse que iria visitar a mãe, saiu e nunca mais apareceu, inclusive desligando o telefone. Deve ter viajado para Mordor.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

“Gente ruim”

Encontro na rua a mãe de uma ex-namorada. E ela está furiosa, reclamando do modo como é tratada pelos motoristas de ônibus. “Todos grosseiros, a gente, que é velhinha, sobe no ônibus e eles nem esperam a gente se acomodar e arrancam. Toda a semana levo um tombo”, lembra. “Sabe o que é isso, Chico? As pessoas estão sem amor, estão desalmadas”, continua ela. “Mas eu sou feliz, pois tenho amor e sempre penso no próximo. Tenho pena das pessoas que não tem isso, são umas pobres coitadas, principalmente as que não tem religião”, dispara ela. “Ainda bem que nós temos religião, né, meu filho. Eu queria tanto que a minha filha tivesse religião, seria uma pessoa melhor, pois quem não tem não é bom!”, analisa. Olho bem pra ela, e pergunto: “Eu sou bom, dona Rosa?”. “Mas claro, tu é umas pessoa muito boa”, conclui ela. Aí eu revelo: “Mas dona Rosa, eu não tenho religião!”. A dona Rosa fica estática, e não tem como voltar atrás em sua definição em quem é bom ou mau. Então simplesmente me dá um tapinha no ombro e vai embora, desapontada. Ela repetiu o mesmo gesto feito pela avó de uma amiga há muitos anos atrás, quando fui visitá-la, ela que perdera o marido. A velhinha me serve um café e vamos batendo papo, até que chega o papo religião e ela me questiona. “Meu filho, nunca te vi na igreja. Por quê?”, diz ela, agradecendo por ir visitá-la em momento tão difícil. “Tu é um guri tão bondoso”, conclui. E então eu estrago o mundo dela. “Eu não posso ir à igreja”, digo. “Mas qual o motivo, Francisquinho?”. “É que sou ateu”, respondo. E a afirmação sai como um raio direto na cabeça da dona Lurdes. Ela não pode aceitar. E daquele momento em diante eu deixo de ser o guri bondoso. E passo a ser o filho de Satã. “Eu não acredito, tu é uma pessoa do mal, tu anda com o demônio”, diz ela, fazendo o sinal da cruz. Ué, há um segundo eu era bondoso. E de repente, só por discordar da opinião dela, sou uma pessoa má? Bem, nunca mais fui bem aceito na casa da dona Lurdes. E o mundo não mudou muito não, né. Basta contrariar um religioso, que eles enfurecem. Ainda bem que a fogueira não é mais usada para punir os hereges.

terça-feira, 14 de maio de 2013

“Grilo”

Outro dia contei a história em que era vítima de bullying do Kevin, que nunca mais vi na vida. Pois tinha outro carinha que tinha minha ampla antipatia no Paula Soares. O Rogério e seus tênis Adidas branco e azul e zombando do meu kichute ou da minha conga e de meus óculos fundos de garrafa. O cara fazia parte da Turma da Matriz e era um marginal, que eu considerava quase do mesmo naipe do Micuím, do Bolívar e do Cigano Igor, que também passaram pelo Paula Soares na mesma época. Eu via o Rogério se aproximar e me cagava todo, sabia que viria sacanagem ali. Pois o tempo passou, saí do colégio e fui pra Unisinos estudar jornalismo. E numa bela noite lá estou eu na sala de aula, não recordo qual matéria, e entra um colega novo. Reconheci na hora, 10 anos depois, o demônio em pessoa. Tremi, voltei aos meus 10 anos de idade, quando me sentia frágil, indefeso. E onde senta o carinha? Ao meu lado. Como uma avestruz, escondo a cara no caderno. O cara olha pro lado, me observa, e fala. “Cara, eu te conheço, né?”. Não, não, não...nego. “Tu não me é estranho”, continua ele. “Estudou no Paula Soares, né?”, vai chegando perto. Quente, quente. Nego. “Tu é o Izidro, não tem outro igual”, insiste o Rogério. PQP, que cara chato, Nego mais uma vez. E o professor faz a chamada e não tenho como fugir mais. “Eu sabia, eu sabia, tu é o Izidro, e aí, carinha, como tu está?”. “Cara, não fala comigo”, respondo. “Mas o que houve?”, questiona o Rogério. “Porra, tu é um baita filho da puta, cara, eu não te suporto”. Ele se assusta, deixa a aula rolar e no fim dela vem falar comigo de novo. O cara é insistente. Eu cedo e explico os meus traumas de guri. E digo para ele não me incomodar mais. O semestre vai rolando e aos poucos eu e um de meus carrascos vamos nos entendendo, e eu vejo que o cara mudou, e acaba virando um grande amigo. E como o mundo é pequeno, descubro ser o Grilo amigo do Pedro Dreher, do Rodrigo Vizzotto, do Jaldíson Boca, também grandes amigos meus.

"Cada um por si"

Final de tarde de um domingo nos anos 1980. Retornava de um jogo com um grupo de amigos, éramos uns 10 carinhas caminhando pela rua completamente vazia, no mais animado papo. O sinal fecha para nós, e paramos, esperando a liberação. Finalmente o sinal vermelho, retomamos o passo, quando um carro – e não me adianta perguntar qual carro, pois quem acompanha minhas histórias sabe que não tenho a mínima ideia de marcas – quase atropela aquele grupo enorme. No reflexo, o Fernando enfia o pé na porta do carro e ainda dispara um furioso “filho da puta!”. Putz, na mesma hora o carro dá uma baita freada e sai de dentro dele um alemão enorme, segurando um revólver 38, que aponta para a gurizada. “Quem chutou meu carro, quem é o filho da puta aqui?”, berrava o cara, alucinado. Deu, nos fodemos, vamos levar bala, pensamos. Aí alguém, não recordo, deu uma de alcaguete, apontando o dedo pro Fernando. E o resto de nós também não foi muito fiel, ao se afastar dele, que ficou ali, sozinho, no meio da rua. O dono do carro, claro que não queria atirar, queria apenas dar um susto. Conseguiu o seu objetivo, e vimos que não dava para contar com o apoio de ninguém. Nada do slogan dos três mosqueteiros, era mesmo “cada um por si”.

“The Lady’s Man”

O Fabrício andava numa tremenda maré de azar em relação às mulheres. Não pegava nada, mesmo. E isso começava a incomodar. Numa noite, eu, ele, o Ilgo, o Possas, o Hiltor e o Leandro fomos tomar umas cervejas na Cidade Baixa. Num barzinho lá na Lima e Silva, estamos conversando animadamente, quando chega uma cigana, e pede para ler a sorte da gente. Recusamos, ela então tenta nos vender souvenires. De novo dizemos não. Então ela olha pro Fabrício e afirma, convicta: “Loirinha, tu é bicha, né?”. Bem na nossa frente. Não perdoamos. Risada geral. Horas depois, naquela mesma noite, alguém sugeriu de a gente ir no Dr. Jeckyll, que vivia o seu auge. O Hiltor e o Possas, que não são chegados em danceterias, pularam fora. Então fomos eu, o Ilgo, o Leandro e o Fabrício. O local estava cheinho, um monte de mulheres lindas. Paramos num canto, perto da escada, continuando a nos entupir de cerveja, quando passa uma loiraça. Ela encara o Fabrício, que abre um sorrisão e pensa, oba, me dei bem. Mas acontece exatamente o contrário. A guria para do lado dele, e dispara cruelmente: “Tu é gay, né?”. Putz, duas vezes na mesma noite. Que acabou ali para o Fabrício. Dias depois, o Ilgo chega na redação e entrega um presente pro polaco. Um livro de umas 500 páginas, intitulado “Como conquistar garotas”. O que acontece? O Fabrício aceita na boa a brincadeira, leva o livro para casa, e semanas depois conhece no mesmo Dr. Jeckyll a futura esposa, a Alessandra. Depois disso, a galera começou a pedir o livro emprestado para o Fabrício, mas ele nunca cedeu aos apelos.

“Abstêmio”

Ao me formar, consegui uma entrevista de emprego numa rádio, Verdes Pampas, lá em Santiago do Boqueirão, entre Santa Maria e São Borja. Me toco pra lá, indicado pelo seu Paulo, o dentista da cidade e pai do Dimitri, meu colega na faculdade, e do Andrei Silva, hoje um dos parceiros nos shows de metal no Opinião. Bem, chego lá na rádio, entro na sala do dono, que nem recordo o nome. Um escritório imenso, um mesão de madeira e o velho tomando um chimarrão, que me oferece. E eu recuso. “Senta aí, vivente”, me diz ele, com um puta sotaque gaudério, apontando a cadeira. Obedeço. “Bom, antes de começar a entrevista, uma pergunta”, fala ele. Fico quieto. “Guri, tu bebes?”. Pensa rápido, pensa rápido. Digo que não, pois realmente não bebia naquela época. “Buenas, então podemos continuar a charla”, decide ele. Quinze minutos depois, estou contratado. Aí pergunto: “Por que o senhor perguntou se eu bebia ou não?”. “É que todo o jornalista que trago da Capital pra trabalhar aqui acaba me trazendo problemas de bebedeiras”. Vou morar num quarto de hotel, na época não havia internet, os jornais chegavam com dois dias de atraso na cidade, apenas dois canais de televisão, e como estava no inverno, tudo fechava às 17h. Tédio mortal. O jeito era ficar no hotel jogando cartas e...beber. Aí descobri o porque da pergunta e da preocupação do dono da Verdes Pampas. Logo, logo, estaria dentro de uma garrafa para passar o tempo. Um mês depois simplesmente fiz minhas malas, fui pra rodoviária e voltei pra Portinho. Chegando aqui, liguei pro dono da emissora, me desculpei pela fuga e disse que seria impossível me adaptar à cidade. Ele ainda me ofereceu o triplo do salário. Pela minha sanidade mental, recusei.

domingo, 12 de maio de 2013

“Vitória”

Entro no ônibus, lá pelas nove e meia da noite, após sair do jornal, sento e para não perder o costume vou abrindo um livro. O ônibus vai lotando e minutos depois de sair do final da linha, na Salgado Filho, escuto um barulho irritante. “Lek, lek, lek...”. Viro para trás e uma guria faz um sinal de que não é com ela. Ao lado, outra mulher aponta com o dedo um magrão na última fileira, ouvindo funk. “Pô, meu camarada, põe um fone de ouvido”, peço educadamente. O carinha me olha, levanta o celular e diz que não tem fone de ouvido. E o funk rolando solto. “Na boa, então desliga, né”, peço. “Ah, mas eu quero escutar”, responde ele. “Cara, eu não vou ir até a zona sul escutando funk, tenha santa paciência, ninguém merece”, digo. O carinha faz uma cara de tristeza, mas desliga aquela porcaria. E as pessoas batem palma. O pior: as pessoas estão tão acuadas, com medo da reação desses psicopatas, que temem reclamar. Aí aceitam estas barbaridades. Virei herói.

“Coringa”

Todo mundo tem aquelas paixões platônicas por artistas, atrizes, atores, músicos. Pois bem, lá estou eu nutrindo uma paixão de milhares de quilômetros pela Jennie Garth, a Kelly do seriado Barrados no Baile. Aí minha namorada à época, a Sandra, que não tinha ciúmes de pessoas de papel e de celuloide, mas sim de carne e osso, cansa de assistir a um dos episódios comigo, levanta da poltrona e deduz: “ Não sei o que você vê nela, ela é dentuça, parece um coelho”. Segundos depois, eu vejo uma cena, e ao invés de ver o rosto da Kelly, vejo o Pernalonga na tela. Putz, brochante. Pior foi mesmo meses depois. Ah, Daniela Cicarelli. Tudo de bom. Não perco um programa dela na MTV. A perfeição em pessoa para mim. Então a Sandra está na cozinha, preparando a janta, vem na sala, dá uma olhada no que estou vendo, e saca, e destrói meu mundo: “Amor, está apaixonado pelo Coringa?”. Valeu. Olho pra tela, e aquela boca da Dani Cicarelli me surge pintada de vermelho, o cabelo dela fica verde. E minha paixão vai por água abaixo. Pior que até hoje quando vejo alguma foto dela, lá está o Coringa...

“Iguais”

Havia um repórter na Rádio Guaíba que tentava esconder de todas as formas a sua homossexualidade, mesmo que tenha sido flagrado inúmeras vezes por colegas e conhecidos em situações comprometedoras pelas ruas de Porto Alegre. E por isso virou motivo de chacota de colegas e, principalmente, do locutor Mario Mazeron, este sim gay assumido. Pois uma vez o Mário está no estúdio preparando –se para apresentar o noticiário, e esperando o Luiz Carlos Reche e o Rogério Bölhke encerrarem os esportes. Aí o tal repórter entra no estúdio segurando uma Playboy. Abre a revista bem no pôster e exclama, bem alto: “Que mulher gostosa”. Ninguém dá bola pra ele, que faz cara de tarado para a revista. E ninguém dá bola. Na terceira vez, o Mário se irrita com aquilo, e dispara venenosamente, com a tal famosa voz de veludo: “Fulano, quem tu queres enganar? Todos aqui sabemos que tu é como eu, gostas de chupar pau e dar o cu”. O Reche tapa o microfone, o Bölhke não consegue segurar a risada e sai correndo do estúdio. E o repórter responde pateticamente: “A minha vida particular só diz respeito a mim e a minha mãe”. Antes ficasse quieto. O Mário não perdoava ninguém.

“Ver um pornô”

Nos anos 1980 ver um pornô não era como hoje, ao alcance de um clique no computador. Então a gurizada ficava imaginando como seriam aqueles filmes de mulheres sedentas por sexo. Havia um grupo de guris, imberbes, que se reuniam para almoçar uma vez por semana em algum restaurante “coma tudo o que conseguir por apenas tantos pilas” ali pelo Centro de Porto Alegre. Um dia, levei o pai. E estamos lá, disputando quem come mais vezes, quando um dos guris comenta ter sido barrado num cinema pornô. Me apavoro, pois o pai era todo religioso, ministro da Igreja Católica. Ele olha pro meu amigo, e promete: “Tá aí gurizada, acabem de comer, e vamos ao cinema ver um pornô”. Ninguém acreditou na promessa. Mas ela foi concretizada. Saimos às pressas do restaurante e nos dirigimos ao Cinema Lido, ali quase no final do viaduto da Borges de Medeiros. E com a presença de um adulto, conseguimos entrar, nem pediram identidade. O filme: Caligula, de Tinto Brass. Ora, um semi-pornô, mas já saciou a curiosidade de piás que só tinham tido acesso a revistinhas do Zéfiro ou suecas. Eu pergunto: e hoje, o que aconteceria se um adulto leva um bando de adolescentes prum cinema pornô, sem maldade, só para a gurizada saciar a curiosidade? Pedofilia seria pouco.

“Abelha Rainha”

Uma amiga minha, mãe de uma guria, já na faixa dos 20 anos, conheceu um carinha, e viu nele o genro perfeito. Cara culto, artista, inteligente, bonito, 30 anos. Sem dúvida, iria apresentar o rapaz para a filha. Ela armou todo o plano, marcou jantinha em casa, abriu o jogo com o possível futuro genro. Não iria colocá-lo numa fria,né? E vai o carinha se sentisse pressionado ou enganado a chegar na casa dela e sacasse a armação. Então foi sincera. E ele topou, afinal de contas a filha de minha amiga é muito bonita. No sábado à noite, o cara chegou lá, levando uma garrafa de vinho. Sentou no sofá da sala, enquanto a minha amiga preparava a janta. Nada da filha aparecer. Afinal, a guria decidiu fazer uma preparação especial. Aí minha amiga chega na sala, começa a colocar a mesa, e o carinha observando, meio tenso. “Daqui a pouco minha filha chega”, diz ela, abrindo o vinho e servindo duas taças. O carinha levanta, brinda, e fica olhando pra ela. “Tu vai gostar muito da Fátima”, garante ela. Aí o carinha não aguenta mais, larga a taça na mesa e beija ela, que fica paralisada, surpresa. “Eu não quero a operária, eu quero a abelha rainha”, dispara o cara, não deixando ela escapar. “Tá bom, minha filha demorou, bailou”, pensa ela, deixando se levar. Quando a filha chegou, era tarde. Minha amiga e o futuro genro tornou-se o marido dela. A filha teve de correr atrás de outro.

sábado, 11 de maio de 2013

“Língua preta”

Uma namorada minha tinha um desejo que era o de transar comigo após eu ter jogado futebol. Mas a ideia da guria era eu não tomar banho após chegar da quadra. Suado, fedendo, ainda com a roupa do jogo. Várias vezes declinei da vontade dela, até que num sábado ela me pegou de jeito. Cheguei em casa, e ela já havia preparado todo o clima. Luz de velas, musiquinha de streap, nuazinha em pelo. “Vamos lá então, se tu quer, não vou ser eu que negarei mais”, pensei. Ela vem, se ajoelha, tira minhas chuteiras, as meias, arranca o calção e começa a fazer um boquete. Segundos depois, ela se engasga e começa a cuspir. Calma, calma, não é o que vocês estão pensando. Ela enfiou a língua nos irmãos gêmeos, e eles estavam cheios daquelas bolinhas pretas feitas de pneus de borracha para segurar a grama artificial. Ela põe a língua pra fora, e ela aparece pretinha daqueles troços. O jeito é correr pro banheiro, encher a boca d’água e ficar cuspindo aquilo. Matou o clima. Desde então, sexo só de banho tomado.

“Velha guarda”

O Paulo Moura era um dos jornalistas esportivos da velha guarda, daqueles que não revelavam seu time de coração nem sob a mais intensa tortura. O problema em seu segredo é que ele, com o tempo, começou a deixar pistas, mesmo não querendo. O Mourinha chegava na redação do CP lá pelas seis da tarde, sentava em seu lugar, lá no fundão, e depois de separar o que entraria na edição do dia seguinte, começava a reclamar do Grêmio. Aí eu, o Ilgo e o Possas começávamos a provocar. Nós falávamos do Inter do passado e do presente. E o Mourinha nem se coçava, passando a falar sobre o Guga, o Sampras. Então elogiávamos o Grêmio e ele mordia a isca. Lembrava que o Grêmio bom era o dos anos 1950/60, e sabia a escalação completa dos times de todas as temporadas daquelas décadas. Mas não se dobrava. Eu e o Ilgo tivemos a oportunidade de descobrir o segredo numa festa de Natal da redação do Correio do Povo lá no restaurante Piacevolle, no Rua da Praia Shopping. O Mourinha está num canto, tomando um uisquinho, e então chamamos a esposa dele, dona Silvia. “Dona Silvia, vem cá, uma perguntinha rápida”, pedimos. “Claro, meninos”, responde ela, simpaticamente. “Afinal, qual o time do Mourinha?”, perguntamos. “Mas que pergunta boba, claro que ele é gremista”, diz ela, inocentemente. No mesmo instante, o Moura sacou a nossa sacanagem, cuspiu o uísque e deu um pulo lá do canto dele, puxando a dona Silvia. “Mulher, tu tá louca?”. “Paulo, o que eu fiz?”, espanta-se ela. Eu e o Ilgo saímos de fininho, o Moura vem atrás da gente, reclamando, mas prometemos guardar segredo, como se ninguém soubesse.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

"O Paraíso"

Sabe como é amigo do peito. Tem de ser para todas as horas. Há muitos anos atrás, um camarada e colega de serviço, casado, arranjou uma amante. Sem grana para pagar o motel, ele me pediu emprestado o meu apartamento para transar com ela. Não me neguei a emprestar meu cantinho. Como à época eu morava com uma namorada, tinha de achar uma maneira de tirar a guria de casa sem ela suspeitar. O jeito ela leva-la ao cinema, para que o meu amigo pudesse curtir umas duas horas de luxúrias. Feito. No dia combinado, deixo a cópia da chave com ele, e levo minha namorada para o cinema, num filme beeemmmmm longo. Só peço que ele não deixe nada fora do lugar, troque os lençóis, e por favor, sem camisinhas na cesta do lixo ou qualquer lugar da casa. E sem batom em copos...Saio de casa com medo, apavorado. Imagina se minha guria encontrasse algo? O que eu diria? Bom, afinal de contas deu tudo certo. À noite, quando chego no serviço, o meu amigo e devolve as chaves. “E como foi, tudo certinho?”, pergunto. “Tudo certo. Fodi muito a menina. Ela gozou feito uma louca”, me responde, sem me dizer o nome da vítima. Direito dele, sem problemas. Aí me dirijo para outro setor, e dou de cara com outra colega, sentadinha e pensativa. Um sorriso que chegava a irritar, olhos perdidos no infinito. “E aí guria, tu tá bem?”, pergunto. Ela me encara, e dispara: “Estou ótima, maravilhosa”, me diz. “Mas que alegria imensa, é por que hoje é sexta-feira?”, continuo. “Não, não, Chico, é que hoje conheci o paraíso”, esclarece ela. Piadista, não perco a deixa. “Ih, o paraíso fica na Campos Velho, nove, nove, nove, apartamento XXX”, brinco. A guria toma um susto, dá um pulo da cadeira...”Como tu sabe, como tu sabe?”, desabafa. “Eu moro lá”, revelo. Silêncio, silêncio por segundos, que pareceram horas. Até que ela se abre. “Então o M. te contou?”, fala a guria. “Olha, não, tu que te revelou”, digo. A guria, então, pede sigilo, afinal de contas ela também era casada. “Pode ficar tranquila, mas que está sendo engraçado, ah, está!”. Ainda é engraçado.

“Roqueiro”

Outro dia me perguntaram se sempre gostei de Rock’n’roll. A resposta foi direta, sempre. Desde que comecei a me interessar por música, este ritmo foi o preferido. Piá, recordo que sofria quando meus vizinhos escutavam disco music. Eu ficava ouvindo aquele som vindo das casas vizinhas, e pensava: Como podem escutar isso? Já meu pai gostava de bandinhas alemãs, sério!, polcas, e a mãe, antes de virar evangélica, curtia boleros, samba, frevo. Nada daquilo me tocava. Eu ainda não havia descoberto rock. Ficava colocando os discos de meus pais para tocar na vitrolinha, e nada. Um dia ganhei um compacto, aquele disquinho que tinha só duas músicas, de um cantor americano chamado Luther Vandross, que fazia música estilo Motown. Nada. Então um dia estou assistindo o Fantástico com meu pai, quando o apresentador anuncia um tal de Rolling Stones. E aparece o Mick Jagger na tela, se retorcendo todo, fazendo beiço pras câmeras, Keith Richards rindo pro Ron Wood, enquanto que na cozinha o Charlie Watts, numa calma tocando a bateria, e o baixista Bill Wyman, com cara de tédio... Putz, me arrepiei todo, e ali eu encontrava o som que procurava. Meus olhinhos vibraram. Achei, achei. Levantei para aumentar o som da tevê – sim, em 1978 não havia controle remoto, sob protestos de meu pai. “Um bando de viciados, maconheiros”, reclamou. Mas era rock’n’roll. Depois dos Stones, vieram Pink Floyd, Iron Maiden, Van Halen, Black Sabbath e meu mundo nunca mais foi o mesmo, e passei anos, aliás, ainda hoje vem gente me incomodar por eu gostar de rock. Tou me lixando.

terça-feira, 7 de maio de 2013

O cachorrinho

Lendo meu livro no ônibus, quando noto uma movimentação ao meu lado. Várias crianças e adolescentes e alguns adultos em volta de alguém. O que será? E dê-lhe elogios, tipo coisa mais linda, que beleza, fofura...então de repente o burburinho se desfaz, revelando uma loiraça deslumbrante com um cachorrinho no colo. Claro, estavam elogiando o dog. Eu penso em latir para a guria, tal sua beleza, que abre um sorrisão de dentes brancos e perfeitos, falando pra mim: “Tu viu, que coisa, né, meu cachorrinho chama mais atenção do que eu”, lamentando-se. “Gente mais insensível e cega”, brinco. Os olhos dela brilham, ela fica me encarando, ainda sorrindo, e penso em dar aquela cantada ridícula (o cachorrinho tem telefone?), mas desisto ao lembrar de uma namorada que tive anos atrás. A guria andava deprimida devido a um acidente, e dei um cachorrinho de presente para ela. Erro fatal. Minha namorada começou a tratar o bichinho como uma criança mesmo. Roupas, sapatinhos, cama, mamadeira. Ih, nem vou discutir, viram?, pois sei que muita gente faz isso. Só que ela passou dos limites quando quis que o dog dividisse a cama com a gente numa fria noite de inverno. Dei um basta naquilo. Meses depois o romance findou. E o que acontece? Um sábado chuvoso estou em casa, ouvindo música e lendo um livro quando o telefone toca. Pela bina, vejo que é minha ex. “Oi guria, o que foi?”, pergunto. “Chico, a comida do Pipoca está acabando. Tu vai mandar ou depositar o dinheiro da comida dele?”, pergunta ela. “Como assim, que grana?”, me assusto. “O dinheiro pra comida do Pipoca”, responde a guria. “Mas por que eu deveria dar dinheiro?”. “Ora, ele precisa comer”. “Mas ele é o teu cachorro, não meu”, tento trazer a luz pra ela. “Tu que me deu ele, a gente namorava”. “Sim, a gente namorava, namoraaaava”. “ME DÁ O DINHEIRO”, berra ela, perdendo a compostura, e me fazendo lembrar porque terminei com ela. “ME DÁ O DINHEIRO”, repete. Não querendo discutir, digo que na segunda-feira deposito o dinheiro na conta dela. E o faço. Vinte dias depois, ela volta a me ligar pedindo mais dinheiro. “Guria, tu acha que tenho de pagar pensão pro Pipoca? Não, né? Acabou, agora tu te vira”, determino. Pô, pensão pra cachorro? Dois anos depois, ela me manda um email. Casou, teve um filho e por causa do bebê, deu o Pipoca pra outra pessoa.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

"O silêncio"

Na oitava série, lá no Paula Soares, tive uma puta de uma vontade de conhecer uma menina, a Simone NB, que era da turma 801. Pois bem, todos os dias preparava o discurso, ficava esperando ela passar pela Praça da Matriz. Aí eu corria atrás dela, e ficava cerca de dois metros atrás, mas não conseguia nem dar oi. A gente entrava no colégio, ela ia pra sala dela e eu pra minha, a 803. E o tempo foi passando. Acabou o ano, começou 1984. E eu sempre encontrando com ela pelas ruas, e nada de falar. Anos depois, fui trabalhar no Tribunal de Justiça, no quinto andar, e quem estava trabalhando no segundo? A Simone. Pegávamos o mesmo elevador, almoçávamos e lanchávamos no mesmo restaurante, no sétimo andar. E o silêncio imutável. Aí descubro que a Christine, que trabalhava na sala ao lado da minha, era irmã da Simone, mas nada de nada. Eu só ficava imaginando como seria a voz dela, se seria uma guria legal. A Christine era. Os anos passaram, casei, e um dia estou num restaurante na Cidade Baixa com minha companheira. E na mesa ao lado quem eu vejo? A Simone, com uns amigos. E o que acontece? A minha guria vai ao banheiro, e na mesa ao lado, os amigos da Simone saem para fumar. Ela olha para mim, dá um sorriso tipo, lembrei de você, e puxa, fomos abandonados. O meu coração bate mais forte. Preciso falar com ela, mas não o faço, pois minha ex era muito, muito ciumenta. O que aconteceria se me visse batendo um papo com a minha ex-colega de colégio e de TJ? Baixo a cabeça e deixo estar. Isso foi em 1998. No ano seguinte, abro o jornal e fico muito, muito desolado. Vejo o aviso de missa de um ano de falecimento da...Simone NB. Chorei muito naquela hora. E ali decidi que sempre que tivesse vontade de falar com alguém, eu o faria, mesmo que a minha timidez seja um grande empecilho. Não importa se eu seja maltratado, ou bem recebido. Até hoje e para sempre restará esta dúvida comigo: como seria a Simone? Uma guria legal ou uma chata, eu teria falado com ela e perdido o interesse, ou seria a mulher da minha vida, ou uma grande amiga? Nunca saberei. É isso é triste.

"Gaúcho é praga"

As pessoas ficam me perguntando o que fui fazer no Paraná nas férias? Ora, descobri uma praia tranquila, praticamente vazia, barata por ser baixa temporada, e bonita. E sem querer contato com gaúchos. Bah, a gente vai pra Santa Catarina, e só dá gaúcho, vai pra Sampa, pro Rio, pro Nordeste, pra Buenos Aires, e a gauchada pulula pelas ruas, pelos cantos...aí estou lá em Guaratuba, águas azuis, passeando, ouvindo meus rocks, e vestindo minha camisa do Grêmio, quando vem vindo uns três carinhas, todos gordinhos, e um deles me chama: “Aí cara, tu viu o jogo do Tricolor ontem?” (o Grêmio tinha jogado com o Huachipato no Chile). Dou um tempo na minha caminhada, reconheço nosso sotaque inconfundível, que parece se acentuar mais ainda quando estamos longe, olho para ele, e pergunto: “Bah, tu é gaúcho, né?”. “Sou”. “Bah, véio, na boa, me desculpa, então, mas não vou falar contigo”. No segundo seguinte, reconheço ter sido grosso com o gordinho, porém ele se antecipa. “Puxa, véio, te entendo, o que a gente menos quer é ficar encontrando gaúchos e conversando com eles, ainda mais numa praia como essa”, afirma o gordinho. A gente aperta as mãos e pegamos caminhos diferentes, para não se cruzar mais naquele vasto litoral.

domingo, 5 de maio de 2013

O beijo

Volto das férias, chego na redação do CP, e ganho o carinho da Lu Winck e da Karina, beijo no rosto. O Claudio Isaias ganha um aperto de mão e reclama: “Puxa, as gurias ganharam beijo”. “Tá bom”, respondo, dando um beijo na bochecha dele. “O Chico me deu um beijo”, espanta-se ele. “Tu pediu”, continuo. Aí o Nildo sai do canto dele e fala: “Pô, depois de velho tu ficou viado”. Nem dou bola, um colega e amigo de priscas eras pediu um beijo e ganhou, qual o problema? Aí lembrei de algo ocorrido há mais de duas décadas. Estava ainda no Colégio Paula Soares, sentado nas escadarias com minha turma, quando aparece o Luís Antônio, que já nos anos 1980 assumira ser gay. Não recordo quem falou, mas disseram para ele não entender como um homem podia beijar outro homem. O Luís nos olha, e retruca: “Normal”. “Não, homem não pode beijar homem”, respondemos. “Ora, vocês nunca beijaram o pai de vocês, o irmão, um tio?”, pergunta o Luís. “Claro que não”, digo, e isso me lembro. “Como vou beijar meu pai, ele é homem”, ressalto. “Bem, eu beijo meu namorado e meu pai”, garante o guri. A gente só falta cuspir no chão, de nojo. Quatro anos depois, me vejo na UTI do Hospital Vila Nova, na zona sul, onde o pai está internado após sofrer um derrame. Barbudo, recém saído da entubação, ele consegue falar: “Filho, pede pra me fazerem a barba”, ele que era todo vaidoso. Chamo o enfermeiro e relato o pedido do pai. “Pode deixar”, me garante o enfermeiro. “Ainda mais que amanhã o seu Francisco vai pro quarto, e deve ganhar alta em dois, três dias”, informa. Vibro, comunico as informações pro pai, que esboça um sorriso. Me inclino e o beijo na testa. Ele deixa escapar uma lágrima, e com dificuldade, me beija na bochecha. Vou pra casa, feliz. No dia seguinte, chego no hospital e vou direto pro quarto que me informaram onde ele estaria. Chego lá e não o encontro. Um segundo depois o médico entra no quarto e entendo. O pai teve um ataque cardíaco cerca de uma hora antes e não resistiu. O chão sob os meus pés some e desabo, num choro convulsivo. Mas pelo menos dei um beijo, que não doeu, em meu pai. Um beijo numa pessoa amada, uma demonstração de carinho. Simples assim.

sábado, 4 de maio de 2013

Kevin

Eu sofri muito bullying no colégio. Hoje é muito, muito difícil, praticamente impossível eu ser vítima, mas já fui lá na sexta série. Nunca esqueci o Kevin, putz, como eu odiava o Kevin. Ele roubava o dinheiro do meu lanche, quebrava meus óculos, me passava rasteira no corredor, entre outras maldades. A maior foi quando eu ganhei da mãe uma caixa de lápis de cera, novinha, brilhando. E eu que sempre gostei de desenhar, fui todo alegre pro Paula Soares. Tou lá na aula de Moral e Cívica, da professora Rose, que era bem, mas bem pequenininha, esperando começar a aula de Artes, olhando admirado meus lápis novos. E noto que o Kevin viu eles, e vem vindo. “Izidro, me empresta teus lápis?”. A vontade é dizer não, mas sei o que aconteceria. Eu seria espancado no recreio. Então cedo. Passo eles pro Kevin. Minutos depois ele volta, e me entrega a caixa. Ufa, nada aconteceu, penso. Engano. Quando abro a caixa, estão lá todos os meus lápis novos e ainda não usados totalmente quebrados, e o Kevin sai rindo. “Trouxa, tu é muito trouxa”, grita ele. Não choro. Mas o palavrão sai forte da garganta. “Kevin, pega eles e enfia no teu cu”. Penso que serei triturado, mas não. O cara chama a professora. “ Professora, o Izidro falou um palavrão”. A professora Rose me chama e pergunta. “Francisco, o que tu falou?”. “Eu falei pra ele enfiar os lápis no cu”, respondo. A professora não quis saber o motivo de minha raiva, não perguntou o que havia ocorrido. E nem deixou eu explicar o ocorrido. Fui levado para a diretoria, e peguei 3 dias de suspensão. Putz, eu odiava o Kevin. E acabei repetindo de ano por não conseguir me enturmar naquela turma em que era alvo de zombaria. Na sétima série, cresci uns 20 centímetros, fiz amizade com os roqueiros como eu, os punks, enfim, os desajustados, e nunca mais sofri bullying, pois a gente era considerado muito mais estranhos, mas ao mesmo tempo meio perigosos, para sermos alvo de chacota.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Cenoura

Minha linda tia Vani, gaúcha de Livramento, fazia um bolo de chocolate maravilhoso para mim quando eu a visitava, lá nos meus 7, 8 anos de idade. Eu chegava na casa dela, sentava na sala, ficava vendo tevê e lendo alguma revistinha em quadrinhos. Então a tia Vani ia para a cozinha e voltava com aquele bolo fumegante, e um copão de Toddy, e ficava fazendo cafuné na minha cabeleira black-power, enquanto eu devorava o quitute. Não é que um dia eu chego lá na casa dela e vou direto na cozinha, onde vejo ela ralando uma cenoura. “Tia, o que tu tá fazendo?”. “Ora, Chiquinho, teu bolo”. “Mas por que a cenoura?”. A tia Vani me olha surpresa, e fala tranquilamente: “Porque sim”. “Mas tia, eu não gosto de cenoura”. “Guri, tu sempre comeu o bolo e nunca reclamou”. “Mas ele não tinha cenoura”, respondo. “O bolo sempre levou cenoura”. “Bom, então não quero mais”, retruco, indo para a sala para ver algum desenho na televisão. A tia Vani, quieta lá na cozinha, até que aparece com a fatia do bolo e o meu copo de achocolatado. “Tia, eu não quero o bolo”, teimo. “Tu sempre gostou dele”, diz ela, me oferecendo o lanche, que ponho de lado. A tia Vani não falou nada, simplesmente voltou para a cozinha, pegou o resto do bolo, voltou pra sala, e disse: “Agora tu vai comer todo ele”. Faço beiço, e é um erro. Ela segura minhas bochechas, me faz abrir a boca, e me empurra todo o bolo goela abaixo, pedaço por pedaço. Choro, esperneio, e ela não sossega enquanto não dou a última mordida, para nunca mais comer bolo de cenoura na vida. “Viu, bobalhão, o gosto é o mesmo. Tu só não quer porque viu eu fazendo, descobriu os ingredientes”. E nunca mais ganhei bolo da tia Vani.