domingo, 30 de junho de 2013

“A irmã Parte 1”

Estava muito, muito interessado numa amiga nova, Janice. A visitava no serviço dela, como quem não queria nada, ia esperá-la na saída da faculdade dela. A guria, evidentemente, se tocou de minhas intenções, mas se fazia de desentendida. Uma tarde tomávamos um café, eu olhava para ela. “Puxa, Janice, tu é muito linda”, elogiei. Ela largou a xícara de leve, e disse: “Não sou nada, é que tu não conhece a minha irmã, ela sim é linda”, garantiu. Duvidei. “É sim, é absurdamente linda. Na terça passa lá no meu trabalho pelas 4 horas. Ela ficou de me visitar”, avisou. No dia e hora combinados, apareci na agência de turismo onde trabalhava a Janice. Os colegas dela já me conheciam. Entrei, sentei em frente à ela e me ofereceram um café. “A mana vem vindo aí”. Fiquei imaginando entrar uma guria feia, descabelada, afinal os olhos de parentes são diferentes em relação as pessoas que eles gostam, E de repente entra na sala uma deusa, uma deusa, olhos verdes, cabelos longos e negros, lábios vermelhos, uns 1,65m acentuados por sapatos de salto alto. A Janice me olha com um sorriso vitorioso, como se disse-se “duvidou de mim, né”. Levanto e cumprimento a Julia, inatingível para mim. Mas no íntimo quero ficar com aquele mulherão. A Janice pede uns minutos, enquanto termina um relatório, para depois irmos tomar um café. Eu fico olhando a Julia, sem conseguir falar, e quando tento gaguejo. Ela acha graça de minha meninice. No café, me descontraio e saio a falar sem parar. De nervoso. “Cala a boca, cala a boca, tu vai queimar teu filme”, fico pensando...mas não. A Julia ri de tudo, eu olho para ela, e ela baixa os olhos, tímida. A beleza dela a incomoda, pois ela é simples e gentil. E as pessoas estão acostumadas a se intimidar perante pessoas lindas. A Janice nos avisa que precisa voltar. Levanto. “Então vamos embora”, digo, me borrando de medo de ficar sozinho com Julia. “Vocês podem ficar”, diz a Janice. “É, Chico, vamos ficar”, pede a Julia. Ok. Obedeço. A Julia estudava direito, mas sonhava mesmo em ser bailarina. E está me dando um baile, penso. Duas horas depois, preciso ir embora mesmo, tenho de trabalhar. E ela tem de ir pra PUC. Timidamente me atrevo a perguntar: “Vamos nos ver de novo?”. “Claro, pega meu telefone”, diz a Julia. E eu pego o celular dela e ponho no bolso. “Brincadeirinha”, falo, pensando na sequência: “dã, seu idiota, para, para, para”. Devolvo o aparelho e nossas mãos se roçam. Ela fica vermelha. “Como tu é bobo”, brinca ela, me dando o número. Na hora da despedida tenho uma vontade imensa de abraçá-la forte e lhe dar um daqueles beijos cinematográficos. O coração acelera, e quando chega o lotação dela, me inclino e a beijo no rosto, os lábios pegando de leve no canto dos lábios dela. E na minha cabeça já começo a planejar o sábado à noite. (continua)

“Ervilhas”

Entre os alimentos que não suporto, a ervilha, o coco e a goiaba estão no topo dos desprezados. Pois sexta-feira, mais de 11 da noite, eu, o Ilgo Wink e o Leandro Behs saimos da redação do Correio do Povo depois de fechar a edição de domingo e nos dirigimos para a Cidade Baixa. O objetivo é jantar no Cotiporã, muitos anos antes da reforma que o deixou chique. Nós gostávamos do chinelão, que parecia uma garagem mal-ajambrada, pois ali era feito um Xis fenomenal. Hoje ele não existe mais. Sentamos, pedimos uma cerveja para abrir os trabalhos, e cada um faz seu pedido. Peço meu Xis frango, e saliento: “Por favor, sem ervilhas, no lugar coloquem mais milho”. Sou daqueles que abro uma lata de milho e como de colher. Mas não me ofereçam nada com aquelas coisinhas verdes. Pois dez minutos depois chegam nossos pedidos. Meto o garfo e a faca e saltam dezenas de ervilhas no prato. Pô...chamo o garçom e faço a reclamação. Ele pega o prato e leva de volta, retornando em dois minutos. O mesmo pão, o mesmo prato. O cozinheiro apenas raspou algumas ervilhas, deixando um caldo esverdeado na comida. Volto a reclamar. “Ah, meu amigo, assim não, né...ainda tá cheio de ervilha”. O garçom pega o prato e some de novo. Enquanto isso o Ilgo e o Leandro se esbaldam com a comida deles, e dando risada de minha desventura. Passam-se mais 15 minutos, os guris já acabaram de comer, estão na terceira cerveja, e eis que surge o garçom com meu Xis. Minha boca saliva. Agora vai, penso. Mas antes dou uma última checada, levantando o pão com o garfo, e o que vejo? Ervilhas gordas, verdes, brilhantes no meio do frango. Explodo. “Só pode ser brincadeira, né, meu amigo. Olha isso aqui...”, digo, mostrando o pequeno Hulk. “Ah, Chico, deixa pra lá, come assim mesmo”, diz o Ilgo. “Não, eu não gosto de ervilha, eu pedi sem ervilha...”, protesto. Lá vai mais uma vez o garçom pra cozinha. Quase uma da manhã e finalmente o Xis sem ervilha, quentinho, na minha frente. O Ilgo olha pro garçom, e pergunta: “Meu amigo, vocês cuspiram no Xis dele, né?”. O garçom dá um sorriso maligno, e dispara: “Sim, com certeza”. Mas a fome é tanta, mordo o primeiro pedaço, engulo, e encerro o assunto: “O que os olhos não enxergam, o coração não sente”.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

“Tijolão”

Outro dia uma colega foi passar o número do telefone dela pra mim. Ela começou a ditar os números. “Digita aí”, disse a Andréa. Ao invés de colocar o número no meu celular android, eu saco minha agenda mulambenta, peço a caneta pra ela, abro na letra “A”, e peço para ela repetir. “Mas Chico, porque nesta agenda e não direto no telefone?” Norma de mais de uma década. E recordo que na fila do supermercado, finalmente depois de respirar fundo, consegui chegar naquela morena que me olhava. “Oi”. Ela me encara e dá um sorriso meigo. “Oi”, responde ela. Silêncio. Penso: fala algo, fala algo. Sim, geralmente quando me aproximo de uma mulher, volto a ter 10 anos de idade, além de deixar bem evidente minha gagueira. “Oi, meu nome é Francisco”, me segurando para não fazer nenhuma piada na sequência, tipo “oi, meu nome é Francisco e sou alcoolatra”. “Oi, Francisco”. Tá, e aí, fala alguma coisa, idiota. “Me desculpe chegar assim, não sou nenhum maluco, apesar de estar parecendo. É que entrei no súper, vi você, e te achei linda, fiz minhas compras, e aí dou de cara com você de novo. Aí me deu uma vontade de conhecê-la”. “Tudo bem”, diz ela, estendendo a mão direita. “Meu nome é Carla”. A fila vai andando e vamos conversando, timidamente. Ela paga as compras dela, e me espera. Pago as minhas, pego as sacolas, e saímos para o pátio do supermercado. “Seria muito abusado eu pedir teu telefone? Gostaria de te ver novamente. Posso?”, digo, pausadamente. Carla balança a cabeça positivamente. “Tem como anotar?”. Merda. Não estou com caneta...ah, mas estou com meu então moderno celular da Nokia, um troço de quase 500 gramas. Ela me diz o número e eu digito no aparelho, todo pimpão. A menina me dá três beijinhos no rosto. “Me liga, hein, Francisco. Sexta, sexta...lá pelas oito da noite, aí a gente combina algo”, pede a Carla. Ora, com um pedido destes...a sexta-feira vai se aproximando, chega, falta pouco para as oito da noite. O nervosismo começa a bater. Pego meu Nokia, e antes de ligar para a Carla, vou ao banheiro dar uma mijada pra aliviar. Ponho o telefone em cima da pia. Lavo as mãos, e pego o aparelho. Mas as mãos não ficaram completamente secas, e o Nokia desliza, desliza e se espatifa no chão, em mil pedaços. Não, não, não...não sobrou nada, não foi possível recuperar a agenda eletrônica, e nunca liguei para a guria, que deve ter ficado esperando o imbecil ligar, e depois deve ter pensado. “Ah, só mais um carinha com papo besta”. E nunca mais encontrei a guria. E deste então qualquer número telefônico vai para a agenda de papel.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

“Empurrão”

O que faz um adolescente ter um apagão de segundos e quase jogar fora quase todo um ano letivo? Pois em 1982, oitava série, praticamente passado por média para o segundo grau. Restava a prova de Ciências, hoje chamada de Biologia. O professor era um baiano, que sentia-se completamente discriminado aqui no Sul. Afiado, sei todas as respostas, e em cerca de 20 minutos a completo. A nota dez era certa. Entrego e sou o primeiro a sair da sala 803, rindo sozinho. Segundo grau, lá vou eu. O próximo a terminar a prova é o Alexandre, nerd ao extremo, só tirava dez. Passamos o ano competindo, pacificamente, para ver quem era o melhor aluno da turma. Ele até poderia ser o mais inteligente, mas era mais esperto...o Alexandre sai da sala, e estou ali no corredor, esperando a Rosane, a Claudia Ferrugem, a Andrea Carvalho, a Mariana, a Marialba, a Gisele, o João Inácio, a Ana Maria, a terminarem suas provas e a gente ir tomar um banana split. O Alexandre me olha e diz: “Vamos bagunçar a prova?”. Com o diabo no corpo, não penso duas vezes, afinal estou mesmo aprovado. “Me empurra lá dentro”, pede o Alexandre. Ele não precisa pedir duas vezes. Eu o arremesso porta adentro. O Alexandre cai no meio da sala, para espanto da turma, e do professor. Todo mundo levanta a cabeça, espantado. A Rosane larga o lápis, e com as mãos faz o gesto de “o que vocês estão aprontando”. O Alexandre levanta e sai correndo, e eu e ele fazemos os 100 metros rasos mais rapidamente que o Usain Bolt. Só que o professor corre atrás da gente, e a turma aproveita para colar. Na frente do Paula Soaresm o professor decide encerrar aquela zona. “Parem, não adianta fugir”, ordena ele, e realmente, mesmo se descessemos a General Auto, e fossemos pra praça, teríamos de estar ali na escola no dia seguinte. “Foi ele que me empurrou”, deda o Alexandre, não contando o resto da história. O resultado é somos encaminhados ao SOE, levo um zero bem grande na prova e acabo ficando em recuperação, e ele passa por média, junto com a Liz Peixoto. Eu deveria estar ali, aprovado com louvor, mas não fui esperto o suficiente.

terça-feira, 25 de junho de 2013

“Escurinho”

Namorada nova, tesão à milhão. A gente se encontrava no final da noite, após as aulas, em frente à Praça da Matriz, e nos beijávamos como se não houvesse amanhã. Os nossos lábios chegavam a inchar, e depois eu a levava até o ônibus dela. No sábado, encontrávamos na Casa de Cultura, e ficavámos pelos cantos, beijos, beijos e mais beijos. As mãos procuravam os vãos das roupas, mas ficávamos com medo de sermos vistos, repreendidos e quiçá expulsos do local. Uma vez fomos ao cinema, Baltimore, para tentar refrear o tesão. Não adiantou. O filme começou e já estávamos nos agarrando. Sentados no fundão, eu desabotoo a camisa dela, puxo os seios para fora e começo a beijá-los. Ela abre minha braguilha, e me masturba ali mesmo. Para evitar que eu berre, ela põe a mão livre na minha boca, abafando meus gemidos. E ri, ri, ri...somos dois loucos. Então ela faz algo inimaginável: como está de vestido, puxa a calcinha, e senta em meu colo, encaixando meu pau em sua boceta. Na hora, nem pensamos se seremos vistos, se seremos expulsos, pior, se seremos presos por atentado ao pudor. O filme é barulhento, e se disser qual, entrego a guria, pois quem conhece poderá deduzir o ano...e sim, transamos dentro do cinema, sem camisinha mesmo. A mão dela sempre sobre minha boca, para abafar qualquer som. Gozamos, ela levanta e vai ao banheiro. Eu fico ali, sentado, tomado de suor. Tenho a impressão que um senhor olhou para trás e sacou a putaria que rolou ali. Ela volta, tentamos ver o final do filme. E a saia dela fica manchada...mas ao invés de ficar braba, sorri com cumplicidade para mim. A meta seria encontrar outro local proibido e perigoso para disparar a adrenalina.

“A Recepcionista”

Certa vez me encantei com uma recepcionista do Tribunal de Justiça, a Renata, uma loira de olhos azuis e corpo violão. E quem não, né? Ela ficava lá na entrada, atrás de uma máquina de escrever, séria quando necessário. Rindo quando tranquila. Com minha tradicional timidez, eu passava, batia o ponto, dava uma olhadela de desejo, e me mandava para pegar o elevador. Mas sempre que podia, dava um jeito de passar pela portaria para admirar aquela belezura. Até o dia em que passei, e ela me deu oi. Parei. Era comigo, perguntei, levando as mãos ao peito, como se duvidando? “Sim. Tu passa aqui, bate o ponto, e nem para dar bom dia ou boa noite”. Eu não iria dizer que o medo de me aproximar fazia eu me afastar. Dei oi, e tratei de seguir meu caminho, porém pensando, oba, ela abriu uma porta. No dia seguinte, ao chegar no TJ respirei fundo, encostei no balcão, e desatei a falar com a Renata. Dali em diante, afastado o medo, aparecia umas quatro, cinco vezes durante o expediente para conversar com ela. E cruzei a linha da chatice. Queria sair com ela, e a convidava incessantemente. A Renata dizia não, voltava a dizer não. E eu achando que “ah, quando a mulher diz não, quer dizer sim”. Só que o não é não mesmo. Passei a fase dos presentes. E a guria não podia mais me ver, nem pintado de ouro. Até que certa tarde, encostei no balcão, todo galanteador, mão no queixo. “Então, vamos sair na sexta à noite?”. Eu havia perdido o medo, que nem me importava de cantá-la na frente dos colegas dela. A Renata então levanta, vem na minha direção, e...”Vou te dizer só uma vez: ME ESQUECE!”. “Mas...”. “Não tem mais, será que você não notou que não irei sair contigo nem hoje, nem amanhã, nem nunca! Para de me convidar, para de falar comigo, para de me mandar presentes. Eu não te suporto. Tu é MUITO CHATO!”, finalizou a Renata, acabando com minha auto-estima, fazendo voltar minha timidez, que eu tanto trabalhara para perder, fazendo eu voltar a ter medo das mulheres, fazendo voltar minha gagueira...Fiquei ali parado, rindo nervoso, ajeitei a gravata, os colegas da recepção fizeram um gesto com o ombro, do tipo fazer o quê. Então coloquei meu rabo entre as pernas e saí de mansinho.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

“Enganado”

Quem aí nunca se sentiu enganado pelos pais em algum momento da vida? Pois passei a infância querendo evitar visitar os parentes de meus pais nos finais de semana. Odiava aquela programação de ver tios, primos, primas. Queria ficar em casa, brincando, lendo, vendo tevê, menos aguentar gente chata e que nunca teve nada haver comigo. Mas sempre ouvia de minha mãe: “Criança não pode ficar sozinha em casa. E não existe negociação. Você vai conosco na casa do tio Matias, e não se discute mais”. Aí era aquele sábado ou domingo tedioso. Então chegava a semana, ia para a escola pela manhã. A aula terminava ao meio-dia. E a determinação era a seguinte: entrar em casa, pegar o almoço que ficava no forninho, comer, fazer os temas, e depois eu podia ligar a TV para ver desenhos animados, até esperar a hora de meus pais chegarem em casa, lá pelas 18h, quando podia sair para jogar um pouco de bola até às 19h. O começo da novela era o sinal para entrar em casa, tomar banho, jantar, e ir dormir...sim, nada de ficar acordado depois das 21h...mesmo que implorasse para ver os enlatados tipo Starsky and Hutch, Cyborg, Mulher-Biônica, Kung-Fu, As Panteras...agora me expliquem? Se criança não podia ficar em casa sozinho no final de semana, como podia durante a semana? Fui enganado durante anos...

“Aliança Parte 3”

Tentei me afastar da Naiana. Até um dia que entrou um torpedo no celular: “Quero falar contigo. Entra no msn à noite, por favor”. A tentação morena me perseguindo. Atendo o pedido, e entro no msn ao chegar em casa. “Oi, sábado meu marido vai viajar. Vamos ao cinema?”. A vontade foi imensa, ainda mais que aquela vontade de beijá-la permanecia no ar, só que eu não poderia, já que tinha um churrasco do pessoal do jornal no Caixeiros Viajantes, e era o organizador, ao lado do Ilgo Wink. Lamentei. E no sábado quando estava me dirigindo à reunião, olho pro ônibus do lado do que eu estava, e a vejo me abanando. Deu uma vontade de deixar churrasco e a turma do CP de lado, e me encontrar com ela. As semanas passaram, e eu pensei que finalmente a guria havia esquecido de mim. Até que numa sexta-feira, insônia, sabendo que em poucas horas teria de estar no plantão no jornal, vou pro computador. Abro o msn, e lá está Naiana, online. Chamo ela pra conversar. E começamos a bater papo. Bater papo, bater papo. Uma, duas, três, quatro, cinco horas. Tenho de parar, pois preciso ir trabalhar. Na volta do serviço, lá está ela, online. Digo que vou dormir um pouco, e quando acordo, falo com ela. Acordo por volta das sete da noite. Janto, e vou pro computador. A guria me atende na hora. E começamos a trocar mensagens. Por volta da meia-noite, finalmente eu pergunto: “Mas afinal, onde anda teu marido? Ele não fica preocupado de tu passar o tempo todo no computador?”. “Ele não está em casa há dois dias. Foi pra praia com uns amigos jogar bola e comer churrasco”. Ah, foda-se, penso. “A gente está há 24 horas falando online. Quer saber de uma coisa? Vem pra cá, pra gente conversar cara a cara”. Não preciso pedir duas vezes. A Naiana chega a vacilar. E se a enxergam chegar na minha casa, e se...”Guria, a gente já foi até ao cinema num shopping center...” Meia hora depois, ela toca a campainha de meu apartamento. Eu abro a porta, e lá está ela, de pijama, prontinha pra ir pra cama...e eu agradeço aos céus.

domingo, 23 de junho de 2013

“O ônibus”

Saio da aula na Unisinos e decido ir pegar carona na faixa, também conhecida como BR-116. Comigo a Beth, a Gisele, o Dimitri e outro colega dele do Direito, cujo nome não recordo. Estamos ali, dedões esticados para cima, os carros passando a milhão, quando para um ônibus da Central. Recusamos, afinal não queremos pagar passagem. O motorista nos olha, e diz: “Não precisa. Eu levo vocês pra Porto Alegre de graça”. Legal. Subimos no ônibus, que vai a quase 100 por hora. Nossa alegria é tanta, que nem notamos a velocidade extremada e a cantoria do motora. Ao passarmos em frente aos prédios da Cohab, em Sapucaia, olhamos para trás e vemos um carro da polícia, com o alarme ligado. Ué, o que aconteceu? De repente, o motorista para o ônibus, abre a porta, sai correndo, atravessa a avenida e some entre os prédios. Um fiscal da Central e um brigadiano sobem. “Vocês estão bem?”, perguntam. As gurias estão em pânico, os guris curiosos. “O ônibus foi roubado hoje pela manhã da empresa”. Então nos explicam. O motorista não era um criminoso, e sim um ex-funcionário da empresa de ônibus que havia surtado e encostado. Volta e meia ele aparecia na Central, pegava “emprestado” um ônibus e dava suas bandinhas pelo Vale do Sinos. Mas nunca havia dado carona para estudantes da Unisinos. Desfeito o incidente, fomos colocados em outrto ônibus e levados para Porto Alegre. As gurias nunca mais pegaram carona enquanto durou a faculdade.

"Carona"

Na época da faculdade, na Unisinos, a galera mais humilde fazia de tudo para poupar um pouco de grana. E um dos métodos era pegar carona com colegas motorizados ou então ir para a frente da universidade ou da churrascaria Schneider, na BR-116, pedir carona para uma alma caridosa que topasse trazer os universitários para Porto Alegre ou pelo menos até a estação Esteio do Trensurb. O dinheiro poupado fazia uma puta diferença no final do mês. Mas existiam regras de quem se arriscasse na faixa: nunca, nunca pegar carona solitariamente. Eram sempre grupos de três, para não dar sopa pro azar. Mulheres sozinhas nem pensar. E não é que uma vez a Ana Cristina e a Rosane quebraram a norma. A turma chegou na Unisinos, e havia uma greve de professores naquela manhã de terça-feira. Mas não geral. Eu tive aula e disse para as gurias me esperarem. Só que elas não iriam ficar das 8h30min às 11h30min aguardando. Passou uma kombi, e elas embarcaram nela. E aí começou o filme de terror. O carinha olhou praquelas gurias de seus 18, 19 aninhos, e começou a babar. Acelerou o carro, elas começaram a protestar, e ele nem aí. Quem já viu filme de serial killer pode imaginar o pavor que a Rô e a Ana começaram a passar. “Bom, foi uma vida curta, mas boa”, pensaram, quando o carinha desviou a Kombi e entrou num matagal perto do zoológico de Sapucaia. O carro foi diminuindo de velocidade, foi parando e elas pensaram “quando ele parar, a gente pula e sai correndo”. O carro parou, mas o maluco previu e as ameaçou. “Não corram”. Ele saiu do carro, as mandou descer, e o pavor era tanto que as pernas não funcionaram. Então o carinha abaixou a calça, mostrando uma calcinha feminina, vermelha. Que foi baixada. Ele se ajoelhou, mijou, se trajou novamente. E as duas ali, pasmas, não acreditando no que viam. “Entrem no carro”, ordenou o exibicionista. Satisfeito com sua tara, o maluco deixou as gurias em Esteio. E no dia seguinte, fui xingado, sem ter culpa, afinal ninguém mandou elas pegarem carona sozinhas. Lição aprendida, e spray na bolsa a partir dali.

sábado, 22 de junho de 2013

“Aliança Parte 2”

Olho aquela gatinha ali na minha frente no McDonalds e esqueço aquela aliança em seu dedo anular esquerdo. A Naiana era muito bonita. Sento e decido escutar a defesa dela. No começo parecem aqueles clichês, a pessoa está casada, mas infeliz no casamento, e quer conhecer outras pessoas. OK. Além de bonita, é inteligente, e temos uma sintonia instantânea, apesar também da diferença de idade, afinal ela só tinha 21 aninhos. O marido dela é uns doze anos mais velho do que ela, e completamente indiferente. Só bate o ponto em casa para as necessidades, e passa o resto do tempo jogando bola e churrasqueando com os amigos. Ih, lembro ter conhecido alguém assim na minha vida, eu mesmo anos antes com uma namorada. E agora sei como as mulheres sofrem com isso. Naquela tarde só conversamos, enquanto ela toma um suco de laranja, e eu um café. “Chico?”. “Sim?” “Vamos nos ver de novo?”, pergunta ela, com olhos tristes. “Se você quiser...” Ela abre um sorriso: “Quero sim”. E cada um vai para seu lado. Dias depois, ela me manda um torpedo. “Tu me leva no cinema? Eu queria ver um filme, mas tu sabe quem não quer me levar...”. Eu sabia estar andando em terreno pantanoso, diria minado. Mas topei levá-la para assistir P.S.: Eu te Amo, que estrearia naquela sexta-feira. Nos encontramos na frente do cinema, já com os ingressos na mão. Três beijinhos no rosto, ela compra pipoca e coca-cola, e entramos na sessão das duas da tarde. O clima não podia ser mais romântico, filme de amor, garota bonita ao meu lado...ela coloca a cabeça em meu ombro, chora baixinho quando um dos personagens morre...e o filme vai acabando e começo a suar frio...as mãos tremem. Vontade de beijar aqueles lábios vermelhos. Pareço um garoto de 15 anos. Aparecem os créditos, as pessoas vão saindo da sala, e só ficamos nós dois. Ela me olha, eu passo os braços em volta dos ombros dela, e sinto sua respiração pesada, seus seios ficam empinados...e putaquepariu, eu não consigo beijá-la...”Naiana, tu é linda, mas...” “Eu entendo...”, diz ela, e saimos dali, as peles pegando fogo. Aquela aliança na mão dela, por mais que eu tente não pensar, está lá...não posso ser tão filho da puta assim, penso, e decido me afastar dela. (continua)

sexta-feira, 21 de junho de 2013

"Halley"

Aniversário de 15 anos da Hellen, no Clube dos Funcionários do Tribunal de Contas, no Cristal. O Denilson passa uma descompostura no resto da turma, pois segundo ele, a galera não sabia se comportar e fazia fiasco. Deveriam ser como ele, ou seja, não beber e nem atacar as guriazinhas. A turma escuta o sermão, se olha de canto e prepara a vingança. Enquanto tomam um gole de cerveja, oferecem dois copos cheios para o Denilson. Ele acha poder se controlar, e acaba perdendo a conta. Após o corte do bolo, a aniversariante vai distribuindo souvenires de seus 15 anos, na mesma noite em que o cometa Halley cruzaria os céus. A Hellen oferece uma lembrancinha, um cartãozinho com os dados da festa e um pequeno boton, para o Denilson. “Não, obrigado, estou satisfeito”, diz ele, vomitando em seguida. Quando vê, aliás, não vê, está sendo expulso do salão pelo segurança. Completamente alcoolizado, cai na frente do clube, e continua a devolver ao mundo as bebidas e comidas que ingeriu naquela noite. Em seguida, começa a tremer. O Jaime vai ao seu socorro. O cara está pálido. “Chico, empresta tua camisa para aquecer o Denilson”, pede. “A minha camisa é nova, e o fiasco é dele”, solto. O Beto é expulso em seguida, sai do clube torto de bêbado. Enfia o dedo na goela, vomita uns dois litros, e na hora fica são. “Vamos de novo”, fala. E o Denilson desmaia. O pessoal larga ele, para em vão tentar enxergar o Halley. Nisso passa um lotação, que para. “Moço, precisamos levá-lo pro hospital”, pede o Lauro. “Ele está bêbado?”, pergunta o motorista. “Sim”. “Então nada feito”, garante, pisando fundo. O jeito é tentar pegar um ônibus. Mas não passa nenhum. “Alguém aí viu o Halley”, pergunta o Marco. “Nada”, avisa o Marcelo, pendurado numa árvore. Finalmente vem um T-4. Embarcamos nele, o Denilson sendo carregado por dois dos guris. Descemos na Igreja São Jorge, para pegar o ônibus para Viamão. Começo a contar. Éramos 12 na festa. Conto apenas 11. Cadê o 12º? Olho pro T-4, e lá está o Leandro Radial dormindo, a cabeça encostada na janela, e o ônibus se vai em direção a Ipiranga. Bem, azar dele, pensamos. O cara só acordou no final da linha, na Assis Brasil, e sem dinheiro, teve de pedir carona para poder voltar para casa. Ah, o Denilson? Passou o domingo praticamente em coma.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

"Blitz"

A Lei Seca recém estava sendo implantada em Porto Alegre e eu e o Lelo enchemos a cara no Bar do Beto. Muitas e muitas garrafas de cerveja. Por volta das 11 da noite, enrolando a língua, trocando as letras, achando as feias lindíssimas, decidimos ir embora. Ao levantar, tudo gira, gira, gira...pagamos a conta e nos arrastamos até o carro do Lelo. Por onde ir para não ser pego numa blitz? "Ah, vamos na sorte", arrisca o Lelo. E lá vamos nós, Venâncio, Praia de Belas...nos aproximamos do Beira-Rio e o que vemos? Uma imensa fila de carros e azuizinhos e um monte de brigadianos parando todo mundo...Putaquepariu, nos fudemos. Como sair desta? O Lelo está muito, muito bêbado, eu mais ainda. Os policiais fazem sinal, mandando os carros entrarem na área de checagem. Na frente do carro do Lelo, conseguimos contar cinco carros. Quando chegar nossa vez...bem, se acenderem um fósforo, explode tudo. Um, dois, três, quatro, cinco carros vão sendo parados. É agora...e o brigadiano olha pra gente, e manda seguirmos em frente. Olho para trás, e não acreditando na nossa sorte. E o carro seguinte é parado. O Lelo me larga em casa, vai pra dele e toma um esporro da Gil, que fica furiosa com a falta de responsabilidade dele.

“Beliscão”

Minha namorada ciumenta mandava recado sempre. Festa de final de ano do Correio do Povo no Chopão, lá no Beira-Rio. Na mesa eu, ela, o Elio Bandeira, o Ilgo Wink, e outros colegas e amigos que não recordo. São mais de 100 pessoas, de todos os setores do jornal. Nisso, chega a Fernanda. Olha procurando lugar e pessoas mais chegadas e nos vê. Abre um sorriso, abana e vem vindo em nossa direção. Aí minha namorada me dá um beliscão, forte, e ameaça: “Se tu cumprimentar esta vagabunda, nós vamos embora”. “Mas ela é minha amiga”, digo. “Não, ela não é tua amiga. Não é nada. E eu sou tua mulher. Me respeita”, ordena. Baixo a cabeça. E a Fernanda chega, olha pra gente. “Oi, pessoal”. O Elinho levanta e dá três beijinhos nela. “Oi Chico”, diz a Fê. Eu viro pro lado, e silencio. A Fê fica parada, não acreditando na minha atitude. E desiste de ficar ali, com a gente. “Muito bem, gostei. Nada de falar com esta vaca”, agradece minha namorada. E eu quero morrer. Uma hora depois, quando a galera começa a dançar e a receber os presentes, ela me olha e ordena. “Deu, vamos embora, cansei disso tudo”. Obedeço direitinho, e vou pra casa, bem encoleirado.

"Compras"

Sábado à tarde, Zaffari da Lima e Silva com minha namorada ciumenta, fazendo compras. O carrinho quase cheio, e eu vou olhando as prateleiras, em busca de mais guloseimas e outras bobagens. Ela para lá nos frios, e eu vou seguindo adiante, fora do raio de visão dela, quando duas gurias cruzam na minha frente, me olham e dão um sorrisinho sacana, que eu devolvo instantaneamente. E o que acontece no segundo seguinte. A minha namorada se materializa bem em frente, as duas mãos segurando o carrinho com força. “Tu vem pro supermercado pra ficar olhando estas vagabundas? Chega, vamos pra casa”, berra ela. “Eu não fiz nada, só dei um sorriso”. “Tá paquerando estas putinhas. Vamos embora, vamos embora”, fica berrando ela, no meio do corredor, as pessoas em volta parando e olhando. Tento empurrar o carrinho, mas ela não deixa. “Ele fica aí”, ordena. “Mas”. “Não tem mais, vamos pra casa”, berra. Para fazer ela parar, deixo as compras ali, e voltamos pro apartamento na João Alfredo, sem nada. Só com o enorme beiço dela. Lá pelas nove da noite, sem nada em casa, digo pra gente descer e voltar ao súper. “De jeito nenhum”, garante a guria. “Então vamos no Tudo pelo Social”, peço. Nova negativa. O jeito é pedir uma pizza e permanecer de castigo por ter sido um menino mau, muito mau.

“Gay”

Dando uma banda do Zaffari do Bourbon Country (cântri, como ensinou a Paula Gonçalves) com o Rodriguinho, a Mariane e o Eduardo, que trabalham lá na Livraria Cultura, e a galera compra pão, vinho, parece que estamos indo pra Santa Ceia. Nisso passa uma mulher linda bem na minha frente, e além de ficar admirando aquela beleza desfilando pelos corredores, comento com o Edu, que conheço desde os tempos do Sintrajufe: “Minha nossa senhora, olha que coisa maravilhosa, que estrago iria fazer com ela lá em casa”, lambendo os beiços. O Edu arregala os olhos, espantado. O que será que ocorreu? “Chico, tu gosta de mulher? Desde quando?”, pergunta ele. Aí é a minha vez e do Rodriguinho de nos espantarmos. “Como assim, se eu gosto de mulher? Desde sempre”, digo. “Cara, eu sempre jurei que tu era gay”, garante ele. “Tu tá de brincadeira, né?”. “Não”. O Rodriguinho e a Mariane caem na gargalhada, e eu fico ali, tentando imaginar porque o Edu achava que eu era gay.

terça-feira, 18 de junho de 2013

“Aliança”

Conheci a Naiana tentando pegar o lotação numa manhã de engarrafamento. Após mais de 40 minutos mofando na parada, conseguimos pegar a condução. Aliviados, trocamos um sorriso, e sentamos próximos. “Ufa, finalmente”, disse ela. “É mesmo, o trânsito está horrível”, completo. Aí silêncio até o lotação se aproximar do Centro. Me viro e me apresento. “Me chamo Chico”, estendo a mão. Ela faz o mesmo. “Sou a Naiana”, fala a morena, fofinha, de olhos verdes, 20 e poucos anos. “Tu faz o quê?”, ela pergunta. “Sou jornalista. Trabalho no Correio do Povo”. “Bah, que legal. Eu sou estudante de turismo, e trabalho no hotel XXX.” A conversa tem de ser acelerada, porque estamos quase no final da linha. Acabamos trocando telefones. E no dia seguinte, ela me liga. “Oi, é a Naiana, tudo bom?” “Oi, tudo”. “A gente poderia combinar um café. Trabalho perto do teu serviço. Que tal?” Que tal? Ótimo ser convidado por uma gata. Combinamos de nos encontrar no McDonald’s, no meio da tarde. Entra um torpedo. “Cheguei antes. Estou te esperando no segundo andar”. Me encaminho pra lanchonete. Subo as escadas e a vejo, sentadinha. Vou me aproximando, sorrio, ela retribui, as mãos cruzadas sobre a mesa, quando vejo. A Naiana nota... e tenta esconder as mãos. “Tu é casada?” Silêncio. “Me desculpe, mas tu é casada. Tou fora”, digo, dando meia volta e me dirigindo pra escada. “Não, por favor, não vai. Fica”, pede. “Bah, não dá”. “Por favor”, repete a morena. Volto. A Naiana pede para que eu sente. Sento. “As coisas não estão bem. E eu adorei te conhecer”, garante a guria, pegando minhas mãos, e começando a contar a sua história. (continua)

domingo, 16 de junho de 2013

“Traidor”

Imagina ser gremista nos anos 1970, e ainda criança e negro. E usar óculos. O bullying pegava direto. E nem os adultos perdoavam. Ia ao Tribunal de Justiça, onde a mãe trabalhava, depois da escola, e os colegas dela não poupavam. “Chiquinho, tu tem de ser colorado”. “Bah, teu time perdeu de novo”. Mas acho que o pior era: “Puxa, tu é traidor da tua raça, é gremista, e negrão não pode ser gremista, tem de ser colorado”. Eu chorava de raiva, mas mantinha-me fiel. No colégio, na educação física, nunca dava para se fazer Grenal porque não tinham tricolores suficientes para formar um time. E chega dezembro de 1976. E o Inter vence o Corinthians e se sagra bicampeão brasileiro, e ainda tinha aula no dia seguinte. Final de ano e tortura. Lá vou eu sofrer as humilhações da idade. “Viu, guri, viu guri, tu tem de mudar de time. Aliás, torcer por um time”, falavam os adultos. No Paula Soares só não fui chamado de looser porque ainda não se usava este termo na época. Naquela semana nem quis que o pai me comprasse a Placar, como ele fazia todas as quartas-feiras. No domingo seguinte, o Inter iria receber as faixas de campeão de uma seleção do campeonato. E eu, o pai e a mãe fomos almoçar na casa de um irmão dela, colorado. Na hora do jogo, que passou na tevê, ele diz: “Chicão e Chiquinho, sentem e aprendam o que é um time de verdade. O Chicão tá velho, não vai mais mudar, mas talvez o Chiquinho ainda se salve”, diz o irmão da mãe. Final da partida, e o Inter leva uma surra de 4 a 1. Olho pro pai, sorrio e digo: “Pai, as coisas vão mudar...”. E no ano seguinte, o Grêmio é campeão gaúcho depois de oito anos.

“Teimosia”

O Newton Azambuja era um repórter da Rádio Guaíba que andava sempre de terno e gravata, modelos 1970. Gremista e vascaíno, devido a sua longa experiência, não aceitava opiniões contrárias. Uma vez, estávamos na salinha do esporte, o Grêmio iria jogar com o Vasco, e enquanto nos organizávamos, ele ia contando os jogos que havia feito entre os dois anteriormente. “Recordo de 1984, pelo Campeonato Brasileiro, no Maracanã, nas semifinais, a partida finalizou com o placar em branco”, garantiu ele com a voz empostada. Eu estava redigindo o roteiro, paro de digitar, e corrijo: “Não, Azambuja, o jogo terminou em 3 a 0 para o Vasco”. “Não, 0 a 0, eu estava lá atrás da goleira”. “Não, foi 3 a 0”. “Chico, foi empate. Me lembro como fosse hoje”. “Bom, então tu dormiu e não viu os gols do Vasco”. “Tu não sabe nada, tu é guri, tu é cagalhão”, dispara o Azambuja. “Posso ser, mas minha memória é foda, e vi o jogo pela tevê. Foi 3 a 0 pro Vasco”, teimo. “Tu não sabe nada, tu não sabe nada”, encerra ele, e a galera cai na risada. Era pré-google, tenho de esperar ir pra casa, pegar minha coleção de Placar, procurar o tal jogo, separar a revista, e esperar o dia seguinte. O Azambuja chega na redação com sua pasta 007, e senta. “E aí Azamba”, provoco. “Azambuja. Newton Azambuja”. “Tudo bem. Então, reviu o jogo?”, pergunto. “Tu vais insistir com isso?”. “Sim, tu está errado”. “Errado estás tu, eu estava lá”. Pego a revista, mostro a matéria do jogo, mostro o Tabelão com os dados. E...o Azambuja insiste. “Está errado, eu estava lá”. “Azambuja, está registrado na revista, notou, está aqui a matéria, é algo concreto...”. “Está errado”, diz ele pela milésima vez. Eu largo a Placar, chego perto dele, fecho a mão e bato de leve na testa dela, como se estivesse batendo numa porta. “Alô, alô, alguém em casa? Não, não tem ninguém...” Na mesma hora, o Azambuja pula de trás da mesa, e tenta me pegar pelo pescoço, mas consigo me desviar e saio porta afora, me mijando de rir.

“Portão 8”

Já trabalhava no Correio do Povo há uns dois anos, e naquele domingo fui escalado pelo Hiltor pra cobrir o jogo do Inter com a Portuguesa no Beira-Rio pelo Brasileirão de 1995. Os vermelhinhos viviam uma crise danada naquele ano, haviam perdido o Gauchão pro Banguzinho do Grêmio, e os protestos no Portão 8 eram frequentes. E o que acontece? O Inter é derrotado por 1 a 0, e a turba se posiciona na entrada do vestiário, para onde me encaminho junto do Hiltor e o Ricardo Giusti. Fazemos anotações, o Giusti fotografa, e estamos esperando o carro do jornal nos pegar, quando escuto uma voz: “Hei, conheço aquele cara, aquele repórter é gremista”. Olho e vejo o segurança de um mini-mercado que ficava na João Alfredo, onde eu morava. O gordinho vestia uma camisa do Inter puída, da Olympikus, e estava acompanhado de uns 30 colorados, e eles começam a vir na nossa direção. “Secador, tu vai apanhar”, diz ele, e os outros berram hinos. A gente se olha, e nisto chega o carro do jornal. Nem conseguimos entrar e somos cercados. O Hiltor diz pra eles. “Aqui não tem colorado ou gremista, estamos trabalhando”. “Ele é gremista que eu sei”, berra o gordinho, cara de Tim Maia. “Véio, estou trabalhando”, digo, querendo parecer corajoso, mas quase me cagando nas calças. A turba só pára quando aparecem uns brigadianos a cavalo, ameaçando-os com cassetetes. Entramos no carro, e nos mandamos. No dia seguinte, encontro o gordinho no mercadinho. “Porra, véio, tu não sabe separar as coisas? E tem mais, nunca eu brinquei ou falei contigo de futebol”, digo. “Eu não gosto de gremistas. Não tô nem aí pro que tu acha”, responde ele. Bem, vi que dali não poderia sair conversa inteligente, mandei ele se foder, e fui embora.

“Infiltrado”

Em 1992, o Inter faria um jogo extra com o Caxias no Beira-Rio por uma vaga na final do Gauchão contra o Grêmio. A diretoria colorada decidiu que não cobraria ingressos. Eu e o Jeff decidimos ir ao estádio secar os vermelhinhos, sabendo dos riscos que correríamos. Já ao pegar o ônibus linha Futebol no Mercado Público, vimos a enrascada. Os vândalos arrebentaram uns dois veículos, antes que um terceiro fosse poupado para levá-los ao estádio. Fomos carregados pela turba, que cantava hinos de extermínio aos gremistas. “Os dois aí não vão cantar?”, pergunta um carinha com os braços do tamanho do Schwarzenegger. O Jeff começa a socar a parede do ônibus, e berrar colorado, colorado. Eu acho um jeito de elogiar o Caíco, que surgia naquele ano como promessa vermelha. Ao descer no estádio, uma multidão avançando em direção as entradas. Lotado nas arquibancadas superiores, só restaram lugares nas inferiores. Entramos, apavorados. Afinal, estavámos indo pro matadouro. A partida começa e logo o Inter faz um gol. Temos de comemorar. Segundos depois, um cara berra. “Olha lá, aquele cara é gremista, eu conheço ele”. O torcedor infiltrado e identificado é puxado pro meio da turba, e começa a ser surrado, sendo salvo pela brigada militar. Olhando pro lado, vejo que uns carinhas ficam se olhando. Intervalo. Chego no ouvido dele e digo: “Jeff, já identificaram um gremista. Daqui a pouco alguém conhece a gente, e já viu, né”. Ele me olha, concorda. E diz: “Vamos nessa”. Quando nos viramos pra sair, um grupo nos cerca. “Os carinhas vão aonde?”. “Pro bar”. Certamente eles notaram nossas caras de “porra, o que estamos fazendo aqui”. Mas deixam a gente passar. A gente sai caminhando bem devagar, entra no túnel, e acelera o passo. Só paramos quando atravessamos a rua e chegamos na parada de ônibus. Onde estão umas 10 pessoas. Todo mundo se encara, e um tem a coragem de dizer: “Aposto que todos aqui são gremistas, né”. Outro começa a rir nervoso, e todo mundo concorda. A gente só relaxa quando passa um ônibus, a gente entra nele e se manda pra bem longe do Beira-Rio.

“Cotovelada”

Eu tinha uns 10 anos e vi o Figueroa acertar uma cotovelada no Tarciso em um Grenal. Não recordo quanto acabou o jogo, mas os vermelhos devem ter vencido, afinal eram os anos 1970. O Flecha Negra caiu pra trás, o nariz estropiado, e o chileno nem amarelo levou, tal o jeito de disfarçar o golpe. Mesmo gremista, achei aquele lance legal, bonito plasticamente, claro que não pensei estes termos àquela época. Na minha cabecinha, decidi que na primeira oportunidade faria o mesmo no primeiro jogo que disputasse. Nem imaginava ser aquilo um lance sujo. E tive a oportunidade na escolinha do Grêmio. Sempre gostei de jogar no gol, mas sendo míope, e à época ainda não usando lentes de contato, fui vergonhosamente deslocado para a zaga. E a bola vem na minha direção, e o atacante aproxima-se perigosamente. Faço a cobertura com o corpo, e o guri bufa na minha nuca perto da lateral-direita. Não tenho dúvida. Enfio o cotovelo no nariz alheio, e todo orgulhoso saio com a bola dominada, sozinho. Aí escuto o apito do juiz, e vejo o atacante adversário espatifado no chão, o nariz sangrando. “O quê, o quê?”, pergunto. “Garoto, o que tu fez? Tu agrediu o teu colega...”, diz o juiz, mandando eu sair de campo, para esfriar a cabeça, e depois do jogo me explicar que aquele lance era inapropriado. Coisa desleal. Ah, tá...

“Narrador”

Em 1987, na faculdade, uma colega do jornalismo, Gisele, diz nunca ter ido a um jogo de futebol na vida. Ela não tinha irmãos, o pai achava que campo de futebol não era lugar para garotas, e o até então único namorado que ela havia tido também não havia concordado em acompanhá-la ao estádio. Ela torcia para o Inter, e pediu que eu a levasse a um jogo no Beira-Rio. Infelizmente este pedido eu não poderia atender. Antes que ela me colocasse no mesmo nível do pai e do ex-namorado, disse que não a levaria ao estádio colorado só pelo fato de ser gremista. “Tudo bem, eu aceito ir no estádio do Grêmio. Só quero ver uma partida de futebol ao vivo. Os times não me interessam”, garantiu a guria. Naqueles dias o Grêmio enfrentaria o Atlético Mineiro pela Copa União, sexta-feira à noite. A Gisele topou na hora. No dia e horário marcado, nos dirigimos pro Olímpico. A gente compra os ingressos, entra na arquibancada inferior. Senta naquela laje fria, comendo amendoim. O jogo começaria só em meia-hora, e vou explicando para ela o sistema do campeonato, a organização dos times, etc e tal. As equipes entram em campo, ela se anima toda, dá pulinhos na arquibancada. Um cara olha pra ela e diz: “Nossa, quanto entusiasmo”. Ela dá um sorriso tímido e fica quieta, de vergonha. Aí a partida começa, e a Gisele parece não entender nada do que está ocorrendo no campo. Olha pra cima, olha pra mim, olha pro campo...”Chico...””O que foi, Gi?””Tá tudo muito quieto, Chico, cadê o cara narrando? Ele só falou o nome dos jogadores lá no começo e depois sumiu...”Antes que eu pudesse falar para a Gisele que não havia narração ao vivo nos estádios, o carinha do lado, que já havia provocado a Gi antes, dá uma gargalhada e chama os amigos dele. “Há, há, há, há...a guria aí quer narração, pessoal... mulher em futebol, não existe”, berra, para delírio dos outros carinhas. A Gisele queria se enfiar num buraco, ir embora, mas depois de todo o esforço para matar aula, mentir pro pai dela, decide ficar, mas pede pra gente trocar de lugar. Priscas eras onde estádio era terreno hostil para mulheres.

“Pavor”

O Milton Ferreti Jung era cruel com os redatores da Rádio Guaíba. E costumava pegar no pé dos novatos, talvez estratégia para que pegassem confiança. Ou desistissem. Sei que meus primeiros seis meses foram de pesadelo. Eu era um dos redatores do Correspondente Renner das 13h e a Kátia Hoffman e o Idalino Vieira eram os editores. Eu entrava meio-dia e mal tinha tempo para respirar, já recebia várias matérias para redigir e ainda pegar os telefonemas do Gustavo Mota, setorista de política na Assembleia. Um terror. Lá pelas 13h15min, o Milton entrava na redação com as notas onde encontrava erros viradas para cima, e esculachava o redator responsável. Com a pressão diária, comecei a errar frequentemente, suar frio, e ter fortes dores de estômago. Não pedi demissão porque decidi que venceria o leão. Mas estava demais...eram xingamentos, ofensas. Teve redator que chorou. Eu comecei a sumir após entregar o último texto. Me trancava no banheiro e por lá ficava até 13h45, 14h, quando sabia que ele já havia ido embora. Eu voltava, e a Kátia dizia para eu me acalmar, mas eu estava quase cometendo suicídio, e quiçá assassinato. Antes que eu fizesse um desses atos, o Milton descobriu que eu era gremista, e ao me encontrar, passou a falar do Tricolor. E achou uma outra vítima para sacanear.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

"Pé de Porco"

Assistindo estes protestos nas ruas contra o aumento das passagens, recordo de uma vez em 1982. Sai da aula no Paula Soares junto com a Rosane e o Alexandre e nos dirigimos à Praça da Matriz. A turma se reunia sempre lá para bater papo, namoricos, jogar bola, trocar figurinhas. No meio do caminho deparamos com um grupo de manifestantes em frente à Assembleia Legislativa, com bandeiras do PT, do PCB...ainda vivíamos na ditadura militar, que dava seus últimos suspiros, e pelo que recordo, o protesto era pela liberação dos partidos de esquerda nas eleições daquele ano. O pessoal gritava palavras de ordem, gritava PT, PT, PT...a gente para ali ao lado deles, e perto os brigadianos só observando. E o que o débil mental faz? Abafado pelos gritos, eu solto uns “pé de porco, pé de porco”. A gente se mija rindo, achando que os brigadianos não escutaram as ofensas. Mas eles escutaram, e segundos depois, vejo o Alexandre e a Rosane dispararem tal qual Usain Bolt em direção à praça. Uê, onde eles vão, penso. Nesse instante, sou cercado por uns cinco ou seis brigadianos, e um deles pergunta: “O que tu falou, guri?”. “Nada, nada”, minto, já apavorado. “Ele nos chamou de pé de porco”, diz um outro. E talvez não exista ofensa maior para eles. “Vaza daqui”, ordena o que parece ser o chefe, ao ver alguns manifestantes se aproximarem e pedirem para me largar. Mas não saio ileso. Quando vou me afastando do círculo, um deles me acerta os testículos com o cassetete. PQP. Aquilo doeu muito. Saio correndo em direção à praça, onde a turma não ri, pelo contrário, todo mundo com os olhos arregalados, de medo dos guardinhas.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

“Fundão”

Isto é um clássico. Os CDFs sentam nas primeiras fileiras, e os bagunceiros vão lá pro fundo da classe. E eu desde os primórdios, sentava lá na frente, inclusive no início da oitava série. Uma mistura de nerdice, com miopia, me faziam ficar quase de frente aos professores. Até que eu conheci Andréa Carvalho, a garota mais linda de todas no último ano do primeiro grau. Linda e divertida. E os maiores peitos entre as gurias com 14 anos de idade. Não tive dúvidas. Abandonei a segunda fileira, o Alexandre, a Rosane, a Cláudia, a Marialba, a Denise, e fui lá pra última classe, colado à parede, onde passava as tardes encantado com aquela morenaça. E chega a Copa do Mundo de 1982, e a gente só tinha dispensa em dias de jogos do Brasil, mas eu queria saber tudo o que estava ocorrendo lá na Espanha. Em época pré-internet, o jeito foi arranjar um radinho de pilha e um arcaico fone de ouvido para apenas um ouvido para escutar os jogos que começavam às duas da tarde. Estou escutando o jogo Inglaterra e França. Termina o jogo e tem a partida das quatro da tarde, bem na hora da aula de português da professora Conceição. Enquanto espero começar, não lembro qual jogo. Aí decido por em alguma emissora FM. Fico fuçando no seletor, e encontro o Kiss e seu clássico I Love It Loud, ê, ê, ê, ê...fico lá batendo cabeça no fundão, a Andréa se vira pra mim, e pergunta o que estou escutando. Tiro o fone, escondido entre o capuz de minha jaqueta e meu cabelo black-power, pra falar com ela, respondo, e quando vou colocar de novo, o som sumiu. O que será que aconteceu? Fuço aqui, ali e nada...amador, puxo o fio, e a sala da turma 803 se enche com o som pauleira do Kiss no momento em que a professora Conceição explicava algum verbo. Todo mundo olha pra trás, pra mim, que desesperado, tento desligar o rádio, e no desespero, claro que não consigo. “Franciscoooo”, grita a professora. O jeito é abrir o compartimento das pilhas e tirá-las. Mas isso não impede que eu seja expulso da sala de aula e leve uma advertência no SOE.

“Linda”

Sim, ela era linda, a mulher mais linda que vi na vida. Eu olhava para ela e ficava hipnotizado. Longos cabelos negros, olhos verdes cristalinos, lábios carnudos e peitos enormes, tal qual Sofia Loren no auge. A perfeição, e ela sabia disso. E se entregou para mim sem questionamentos. Nos trancamos dentro de minha casa durante três dias seguidos, e eu inventei uma gripe violenta para não comparecer ao trabalho. A gente passava o tempo transando, dormia, acordava, comia alguma coisa, transava de novo, de forma incessante. O problema que fora do quarto não tinhamos nada em comum. Além do que, ela não era modesta. Sua beleza a tornara uma mulher sem alma. Quando um raio cortava os céus, ela olhava para o alto, imaginando o clarão ser fruto dos flashs das máquinas fotográficas registrando sua beleza incomum. E quer ver quebrar o clima do que soberba? Estávamos deitados, e eu não conseguia parar de olhar para ela, tamanha beleza. Alisei seus cabelos, ela beijou meu umbigo, beijou mais abaixo, e me olhou com maldade. Nossa, poderia passar o resto de minha vida com aquela mulher. “Meu deus do céu, tu é linda, tu é muito linda”, me derreto todo. Ela levanta o rosto perfeito, me encara e diz, de forma fria: “Eu sei, eu sei muito bem que sou linda. Não precisa me dizer isso”. Minha nossa, frieza tamanha a fez perder o encanto. Não à toa, ela era dispensada por todos os homens. Afinal, beleza não é tudo, não é eterna, e ela não entendia isso.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

"A mensagem"

Esta é pré-msn, pré-skype. O Renato Gava, quando ainda trabalhava no Correio do Povo, tinha a mania de deixar o email minimizado, quando saia para lanchar ou fazer uma reportagem. Uma tarde, estava lá na tela do computador o e-mail aberto, para quem quisesse ver e ler. O Possas e a Claudia Chiquitelli não tiveram dúvida. Escreveram uma mensagem para uma coleguinha que recém havia sido chutada pelo namorado e andava cabisbaixa pela redação. Na mensagem fictícia, “o Gava” abria seu coração para a menina, que não era uma beldade, aliás, feinha, coitadinha, tanto que secretamente foi apelidada pelos colegas de ET. O email continuava: por que tanta tristeza, e que ele, o Gava, faria de tudo para ajudá-la a sair da frustração. A moça ficou empolgada e começou a lançar olhares apaixonados pro Gava, e até mandou um email pra ele. Que claro, não entendeu nada. E para maior decepção dela, não respondeu. A guria não se deu por vencida, e mandou outra mensagem: “Por que tu não responde os meus emails?”. Aí o Gava sacou a brincadeira, foi na lixeira do computador, e viu a primeira mensagem, que havia sido escrita pelo Possas e pela Chiquita. E teve muito, mas muito trabalho para desfazer o mal-entendido. A moça acabou tendo o coração quebrado pela segunda vez em poucos dias.

"Negrinho"

Saio da aula de natação na Stillo e vou à secretaria pagar a mensalidade com a Magda, que vendia uns negrinhos tri gostosos, do tamanho da palma da mão. Pego o último e o devoro com uma mordida faminta, daquela de quem ficou uma hora gastando energia na piscina. Nisso entra um guri, gordinho, de seus oito anos na sala. “Tia Magda, tem negrinho”, pergunta. A Magda olha pro guri. “Meu querido, acabaram os negrinhos”. O guri faz uma cara de tristeza, fica parado ali, como se não acreditasse. Aí eu olho pra ele e brinco: “Carinha, acabou o negrinho, mas tem o negrão aqui”...pra quê, eu esqueço que nem todo mundo, ainda mais um piá, tem meu senso de humor politicamente incorreto. O guri começa a chorar e sai correndo. “Mãeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee”. “Chico, tu tá louco? Ele não entende este tipo de brincadeira. E tu vai passar por pedófilo”, adverte a Magda. Nem me dei conta. No final, nada acontece.

"Dentista"

Entre os medos que tenho na vida, um deles é de dentista. Não à toa, a cena mais arrepiante no cinema para mim é aquela onde Sir Lawrence Olivier tortura Dustin Hoffmann em “Maratona da Morte” com uma broca. “É seguro, é seguro?”, pergunta Olivier. “O quê, o quê?”, desespera-se Hoffmann...Então aos 7 anos eu tinha de tirar um dente acavalado, aquele que ficava sobre os outros dentes. Anestesiado, a ajudante do dentista, o Dr. Cláudio, segurando minha mão direita, e o que faço? Começo a me debater, a berrar, e num descuido deles, saio correndo consultório à fora, chorando muito. E não tem Cristo que faça eu voltar para terminar a cirurgia. Mas uns 10 anos depois, já grandinho, protagonizei outro fiasco. Era verão, janeiro, e começo a tremer na cadeira, o suor escorre pelo meu rosto, eu amasso vários lenços de papel, tal o nervosismo e o medo. “Tudo bem aí, Francisco?”, pergunta o dentista. “Não, não está tudo bem. O senhor é um sádico, só sádicos podem ser dentistas”, grito, para em seguida tentar me soltar, e o que acontece? A cadeira simplesmente quebra e caio para trás. Mais uma vez adio a cirurgia, que só seria feito aos 30 anos, quando coloquei aparelho.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

“Maverick”

Estava trabalhando no Correio do Povo há pouco tempo, e ainda totalmente inseguro. Uma tarde chego na redação, pego a pauta e a liquido em menos de uma hora. O que fazer nas próximas horas? À época não havia internet, sim, sou pré-internet. Leio um jornal, folheio umas revistas e nada de o tempo passar. Olho pro cinema Imperial, que ainda resistia, veja bem, estávamos em 1995. Ah, vou dar uma escapada da redação, deixo a jaqueta na cadeira e atravesso a rua para assistir Maverick, com Mel Gibson e Jodie Foster. Quando entro na sala, o filme já começou e tenho dificuldades para me encontrar naquele breu. Ufa, acho um lugarzinho e sento para ver o faroeste...duas horas depois, Maverick termina e começam a subir os créditos. A luz do cinema é acessa, e ao olhar para o lado, quem vejo? Um editor do Correio do Povo sentado, com as mãos no queixo, matando serviço. O cara olha pro lado também e me vê. E agora? Bem, eu era um mero repórter. Iria me incomodar. E o que o editor faz: “Guri, tu não me viu e eu não te vi, e ficamos assim, ok”. Não seria eu que iria discordar. “Você primeiro”, diz ele. Entendo o recado. Deixo a sala e ele permanece sentado. Volto pro jornal, e dez minutos depois, o editor entra, segurando um copo de café, senta na editoria dele, e segue o baile.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

“Vingança”

Prova de ciências na sexta série lá no Paula Soares, e a Renata com o livro embaixo da carteira, aberto, colando as respostas. E a prova estava mesmo difícil, aplicada por uma professora que nunca foi muito popular entre os alunos, a Melda. Então a Márcia, que era uma gordinha muito CDF, mas não por isso que não era popular, quebrou a ética entre os alunos. “Professora”, chamou ela, levantando a mão direita, sinal de quem queria ter a atenção. “Sim, Márcia”, disse a Melda. “A Renata tá colando. O livro dela tá aberto...”. Nossa, a Renata tentou fechar o livro, a turma ficou em polvorosa, abismada com a atitude da dedo-duro. A professora veio lá da frente, puxou a Renata pelo braço, pegou o livro, e a levou direto pra Margareta na diretoria. A Margareta era mais ou menos como o Hitler para os judeus na Alemanha nazista, o terror em pessoa. A Melda voltou sozinha, e elogiou a atitude da Márcia. “Muito bem, a honestidade é tudo”, disse ela para a guria, que virou persona non-grata para a turma. E ela pagaria caro por isso. Além de virar uma pária social, não que já não fosse, pois tinha uns quilos a mais, ainda era não-confiável. E semanas depois, aula de matemática, e a Janete, uma das amigas da Renata, que pegara um dias de suspensão, notou uma poça no chão, embaixo da cadeira da Márcia. Levantou e foi até lá. Ao chegar do lado da Márcia, notou que algo pingava...”Pessoal, a Márcia se mijou toda”, alardeou. Sim, a Márcia havia urinado na calça. Com vergonha de pedir pra sair da aula, ela piorou a situação. O xixi escorria entre as suas pernas. Todo mundo, sim, todo mundo começou a rir, menos a professora, claro. E as gurias mais sacanas apontavam o dedo pra ela. “Mijona, mijona. Márcia mijona”. Os efeitos foram devastadores para a Márcia, que sumiu do colégio por algumas semanas, e a Renata. As duas acabaram rodando de ano.

“Pirralha”

A Catia era uma gatinha que eu conheci ainda pirralha, brincando de boneca. E ela cresceu muito bem, virou um mulherão, sensual, provocante. Os caras se dobravam à passagem dela, mas para mim nada mais distante, quase como se fosse um crime maior, quase pedofilia. Ficamos tri amigos, conheci uns namorados dela, ela me confidenciava sua vida amorosa, e a gente dava risada das tragédias românticas um do outro. Mas a guria não parava de crescer...e ao ultrapassar idade em que não teria muita diferença para a minha, comecei a vê-la com olhos famintos, e a Catia notou que as minhas brincadeiras começaram a ficar mais pesadas, desrespeitosas mesmo. E ela foi logo cortando minhas asinhas, afinal eu era como um irmão mais velho. “Tá bom, não brinco mais, não falo mais nada”, prometi. Segurei o tesão até o dia em que ela me ligou, havia brigado com o namorado, e queria desanuviar. Pegar um cinema, tomar uns chopps. Ok, vamos nessa, disse. Fomos ao Moinhos, vimos um filme, eu sentindo o perfume delicioso dela, a respiração ofegante, o decote generoso mostrando os seios grandes. E pensava, se segura, senhor Francisco de Assis. Depois da sessão, ela chorou as mágoas em relação ao ex-namorado, enquanto iamos tomando um, dois, três chopps...seis, sete canecas e a tonteira pegou, e ela ensaiou um choro. “Só tu é meu amigo, só em ti eu confio”, disse ela, com a voz enrolada. “Tá, vamos embora, que tá tarde. Te levo em casa”, digo. Pegamos um táxi, e a guria cai no sono, a cabeça no meu ombro. O táxi vai seguindo seu caminho, e a Catia acorda, passa a mão direita no meu rosto, e ao me encarar, abre um sorriso. Na mesma hora, meu instinto animal vem à tona, e eu a agarro. Só que li mal os sinais. Ela só queria um carinho amigo, e fica muito puta comigo. Me dá um safanão e berra NÃO. O taxista continua seu trabalho, nem olha pra trás, acostumado que está com casais se agarrando. E não era o caso. Envergonhado, eu me afasto, e fico num cantinho, quase encolhido. A Catia fecha a cara. Chegamos em frente ao prédio dela, e descemos. Pago a corrida. E a Catia séria. Ela abre a porta, e aí sim me olha bem nos olhos. “Filho duma puta, filho duma puta. Não dá mesmo pra confiar em homem nenhum. FILHO DA PUTAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA. Chico, tu é foda, não quero mais te ver”. “Mas Catia”. “Some, some. FILHO DUMA PUTAAAAA”, berra mais uma vez, entrando no prédio, sem olhar pra trás. Dois dias depois, toca meu telefone. Vejo o número, e é a Catia. Ah, passou a raiva, imagino, e atendo, todo feliz. E do outro lado da linha. “Tu é um FILHO DA PUTAAAAAAAAA”, grita a Catia, desligando em seguida.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

“Lobo”

O Lobo era foda. Não perdoava as namoradas dos amigos e nem as meninas que estavam na mira dos amigos. Todo domingo a gurizada se reunia antes do futebol, para falar sobre as façanhas ou fracassos da balada de sábado à noite. E invariavelmente o Lobo, que era apaixonado pela irmã de um dos amigos, mas sempre fracassava em suas tentativas, acaba se consolando em outras carnes. Lobo porque se fazia de carente e atacava sem piedade as menininhas. O pessoal ficava meio puto, mas acabava por perdoar o carinha, só que ficavam todos com medo de ser o próximo a ser passado para trás. E chegaria o meu dia. Dia dos namorados e tinha festa Love Songs, apresentado pelo radialista Arlindo Sassi no Partenon Tênis Clube. Eu estava todo derretido pela Viviane, e a convidei para ir na festa. A guria topou na hora, e pensei com meus botões que no sábado iria me dar bem. Pô, a guria aceita meu convite logo no 12 de junho. Quer sinal maior? E chega a data, e o Lobo tenta se aproximar da irmã do amigo, e leva outro fora. Arrasado, ele pede pra ir junto lá no PTC comigo e a Viviane. Meu radar não funcionou e eu aceito. O cara tá lá com uma cara de choro, sentado no salão, tomando uma Coca-Cola e eu dançando rostinho colado com a Viviane, mas ainda sem avançar o sinal vermelho. A timidez e o medo me impedem que eu a beije. Uma, duas, três, quatro músicas lentas depois, e a guria: “Chico, vai lá falar com o teu amigo. Ele tá tão triste....dá uma força para ele”. E eu daria mesmo. Para agradar a guria que eu queria tanto namorar, vou lá bater um papo com o Lobo. Escuto suas lamúrias. “Pô, cara, brigadão pela força”, agradece ele. O Sassi avisa: “A próxima é a última lenta. Depois um pouquinho de embalo”. E começa a tocar Kid Abelha com o hit “Como Eu Quero”. “Véio, vai lá dançar esta com a Viviane”, digo. Ele me olha sério, me dá um tapa no ombro. Aliás, vou proibir que as pessoas me deem tapa no ombro. Sempre me fodo com este gesto. E lá vai ele dançar com a Viviane. Eu pego uma Coca-Cola, e fico ali contando os minutos pra música acabar. O salão fica escuro, eu tomo um gole do refrigerante, e de repente as luzes piscam, e o que vejo: o Lobo falando no ouvido da Viviane. E no segundo seguinte eles estão se beijando no meio da pista....Quase tenho um treco, não acredito no que meus olhos estão vendo, pisco, e sim, eles estão se amassando. Atiro a garrafa no chão e me dirijo pros dois, e os separo. “Que porra é esta?”, pergunto. O Lobo: “Chico, foi mal, eu imaginei outra guria e beijei ela”. E a Viviane: “Aconteceu, aconteceu”. Perco a cabeça, e empurro o rosto da guria com a palma da mão direita. E na sequência dou um soco no rosto do Lobo. “Tu tá louco”, diz a Viviane. “Cala a boca, sua puta”, berro, saindo da pista. Eles me seguem, o Lobo se desculpando e a Viviane me xingando por tê-la empurrado. “Tu me empurrou, não fala mais comigo”. “Tu que não fala mais comigo, putinha”. A festa acaba para nós três. Passo as duas semanas seguintes rezando para que eles não prossigam com os beijos e amassos, que enfim o Lobo não namore a Viviane. Mas o coração dele pertence a outra menina, e o coração da Viviane nunca foi meu.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

“Estereótipo”

Uma coisa que detesto é a estereotipagem. Outro dia conversando com uma amiga, ela soltou que os “homens não conseguem fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo”. “Ora, eu consigo”, rebati. “Não, não, impossível”, teimou ela. Insisti que sim. Consigo escrever, ouvir música, ver TV, cozinhar, e por aí vai, simultaneamente. “Então tu é o único”, atesta ela. “Não, conheço muitas pessoas, tanto homens quanto mulheres, que fazem isso. “Mas o meu namorado não consegue”, constata ela. “Bem, cada caso é um caso, é uma característica de cada pessoa”, finalizo, mas ela continua achando que sou um caso a ser estudado pela ciência. E aí me vem a lembrança da vez que morava em São Paulo e saí algumas vezes com uma japonesinha que conheci no Masp. Íamos ao cinema, à livrarias, uma vez fomos a um show do Viper. Até que ela conseguiu estragar tudo numa tarde de domingo enquanto caminhávamos pela Paulista. “Francisco, tu é diferente”. “Mas por quê, tenho dois olhos, um nariz, duas orelhas”, brinco. “Não, não, tu é diferente do teu povo”. “Como assim, meu povo?”, me espanto. “Que povo, que povo?”. “Ah, Francisco, tu é um rapaz negro que gosta de ler, ir ao cinema, de trabalhar...”. Como assim, rapaz negro? Meu deus do céu, o “povo negro” para aquela guria era visto como preguiçoso, inculto. Parei ali na imensa avenida, olhei pra ela, e disse: “Olha, foi bom te conhecer, mas depois dessa, fui. Tu precisa aprender muito ainda”, e me mandei de volta pra república onde morava.

“Judeu”

Na quinta série, lá no Paula Soares, eu tinha um colega que nunca aparecia no colégio aos sábados pela manhã, e era dispensado das aulas de religião. Eu não entendia porque o Victor Hugo tinha aquele privilégio, e ao lado de meus outros colegas “azarados”, imaginávamos que o guri ficava num clube jogando botão ou ping-pong ou jogando bola. Morríamos de inveja. Que acabaria de modo brusco. Dias depois da Páscoa, escutamos uma gritaria no corredor, e fomos todos para lá. O Victor Hugo, que era meio franzino, estava sendo surrado por uns caras mais velhos. Ele tomava um sopapo, caia, tentava levantar, levava uma rasteira, caia de novo. Uma colega, Cristina Mocellin, tentou apartar. “Parem, parem, ele não fez nada para vocês”, disse, colocando-se no meio do bolo. “Sai, sai”, ameaçou um dos grandões. “Eu não fiz nada”, disse o Victor Hugo. Até hoje escuto a resposta de um dos espancadores. “Tu é judeu. Tua raça matou Jesus Cristo”, e vapt-vupt, mais uma porrada no Victor Hugo. “O quê? O quê? Como assim?”, perguntou outro colega. “Ele é judeu”, e vapt-vupt. E eu sem entender o que era aquele negócio de judeu. Em casa perguntei pro pai sobre judeus, morte de Jesus Cristo. Ah, tá...mas o que o Victor Hugo tinha a ver com tudo aquilo? Bem, nem ele entendia, e volta e meia era espancado nos corredores, no pátio. O guri só terminou com o bullying nazista quando começou a fazer karatê. Um dia, quando tomou a rasteira, levantou rápido e deu uma surra num daqueles skinheads mirins. No final do ano, ele saiu da escola, e nunca mais o vi.

“Coincidência”

Já escrevi sobre a Simone Berthier, menina que fez com que eu decidisse não deixar de falar com alguém quando tivesse vontade. Então estou no T-4 e vejo uma loira linda, grandes olhos verdes, lembrando a Brigite Bardot, sentada à minha frente. Admiro a guria e deu. E ela desce na mesma parada. No dia seguinte, a vejo de novo no supermercado. O seu andar é fascinante. Fico ali, babando e deu. E o que acontece no terceiro dia? Cruzo com a guria na Rua da Praia. Quem está seguindo quem? Aí terminam os encontros. Não a vejo por uns três meses. Março chega e a guria volta a cruzar comigo nos horários e lugares mais variados. Na décima vez em que esbarro nela, fico pensando: porra, tenho de conhecer esta guria. Claro que a minha timidez vai me impedir de chegar perto dela. No dia seguinte, estou chegando em casa e cruzo com ela. Penso em falar com ela, mas não consigo. No outro dia, de novo. PQP...prometo para mim mesmo que se no dia seguinte esbarrar com ela, me apresento. E o que acontece? Desço do ônibus, e a menina está na parada. Fico ali, observando, respirando fundo, mas não dou um passo para me aproximar dela. Chega, penso. É muita tortura. Até que 24 horas depois, pego o ônibus e quem sobe nela e senta bem no banco em frente ao meu? Ah, é o destino. Hoje eu perco a vergonha e falo com a menina bonita. O ônibus passa pelo Barra Shopping, Beira-Rio, Praia de Belas e começa a se aproximar perigosamente do Centro. Quando passa no Açorianos, respiro e digo: “É agora”. Dou um leve tapinha no ombro dela, que se vira. “O QUE FOI, O QUE TU QUER?”, berra a BB cover. Putz. “Eu só queria falar contigo, saber teu nome...”, falo tremendo. “Meu nome é CRISTIANE, TÁ BOM, CRISTIANE, O QUE MAIS TU QUER SABER?”, continua berrando. Eu não sei aonde enfiar a cabeça naquela hora. O ônibus entra na Salgado Filho. “Já conheci, me desculpe”, peço. “Foi mal”, encerro. A loira Cristiane sai do ônibus batendo violentamente os pés...que medo...

terça-feira, 4 de junho de 2013

“Foguete”

Separado após relacionamento de seis anos, e alguns meses de “luto”, comecei a sair de novo. Um dos points no começo dos anos 2000 era o Dr. Jeckill, ali na Cidade Baixa. Foi lá, onde batia o ponto todos os finais de semana, que conheci um grande amor em minha vida, e também protagonizei um fiasco homérico. Estava uma galera na casa da Anne Coutinho, ali na República, fazendo a concentração para ir à danceteria lá pelas 23h30min, meia-noite. Começamos com cerveja, partimos pro vinho, e eu havia ganhado de presente no final do ano anterior uma champagne. Decidimos deixar o espumante para beber mais tarde, lá dentro do Dr. Jeckill. O problema era como entrar no local com a garrafa...resolvido, escondo dentro do casaco, já que fazia frio. Entramos, e vamos pra pista de dança, no segundo andar. Já meio entupido de outras bebidas, começo a tomar a champagne no bico, e com a movimentação, as luzes piscando, começo a ficar tonto. Sinto que vai dar porquinho, e corro pro banheiro, onde me tranco, e começo a vomitar sem parar. É como uma cachoeira, incessante. Começo a ficar fraco e sem força para me mexer. Eu levanto a cabeça, abaixo e ...hugoooo...as pessoas do lado de fora se assustam e tentam arrombar a porta, mas não conseguem. Será que morrerei ali, afogado? Nisto, o Iberê com a ajuda de um segurança, pula a porta e para dentro do banheiro, abrindo a porta. Estou quase desmaiando, e ele, com pouco mais de 1 metro e meio, consegue me carregar para fora. As gurias se assustam, mas não, não vou morrer. Mas não posso mais ficar lá, preciso descansar. A Anne decide que vou ficar na casa dela, até ter condições de voltar pra minha. E o Iberê, consegue não sei daonde uma força e sai me carregando duas quadras e meia. Em todo o trajeto, eu só consigo dizer: “cadê a Sandra, cadê a Sandra”, que não havia ido à festa àquela noite. Ao chegar no apartamento, as forças do Iberê acabam, e acabo ficando no chão mesmo. Não quero o café, o chã que me são oferecidos. Apenas apago, e o Iberê e a Anne me tapam. Como estou dormindo, e são pouco mais de 3 da manhã, eles voltam pro Dr. Jeckill, e eu fico ali, pregado no sono, só acordando, quando a turma toda retorna, às seis da manhã.

“Consultório”

Um certo tempo atrás, por causa da depressão, vivia entupido de antidepressivos. E todo mundo sabe que estes remédios causam alguns terríveis efeitos colaterais. E um deles eu teria a constatação de modo nada agradável. Fiquei com uma guria linda numa festa e a sequência foi irmos pra casa dela. Os beijos eram intensos, os amassos, mas eu não conseguia sentir nada lá embaixo. Nada. O bichinho estava mortinho. Quando ficamos nus, a guria tentou de tudo para acordá-lo. Zero, zero. E eu querendo me atirar lá do sétimo andar. Ela passa a mão na minha cabeça. “Tudo bem, tudo bem. Vamos dormir”, diz ela. Claro que não dormi, pois passei as duas horas seguintes tentando explicar o que poderia ter ocorrido. Só parei quando notei que ela já estava no mundo de Morfeu há muito tempo. E pensei que não teria outra chance com a guria, até que ela me ligou na semana seguinte, e disse que queria me ver. Fui vê-la e de novo nada...tentamos mais umas duas vezes nas semanas seguintes, e sempre acontecia o nada, e eu já pensava em meter uma bala na cabeça, se tivesse uma arma. Não teria jeito, precisava procurar um urologista. Fui nas páginas amarelas, catei e fiquei ligando. “Aceita Unimed, aceita Unimed?”. Marquei a consulta, e me fui pro consultório. Chego lá, e quando olho, tem uns seis velhinhos na sala de espera. Ficam me olhando, um misto de espanto, e outro de satisfação por ver alguém mais jovem “se foder direitinho”. Eles sabem porque estou ali. Sento e abro um livro. Sou avisado pela secretária que serei atendido logo. “Ok, mas e estes senhores?”, pergunto pra ela. “Ah, eles chegaram muitooooo cedo à consulta. É sempre assim”, ela me informa. Afinal, eles não têm o que fazer mesmo no resto do dia, então vão pro consultório zoar da cara do pessoal mais novo que anda brochando, fico imaginando. Nisso, abre a porta da sala do médico e...dela sai uma ex-colega minha do tempo do colégio com uma daquelas maletas de amostras médicas. A guria me olha bem nos olhos, feliz por me rever depois de tantos anos. “Izidroooooo”. Engulo em seco. PQP. Merda de mundo pequeno. “O que tu faz aqui?”, pergunta ela, que virou representante de produtos médicos, antes de completar. “Ih, não precisa explicar. Entendi”, me dando um tapa no ombro, daqueles que significam “sou solidário no seu sofrimento”, e sai porta fora. Deu, agora todo o Paula Soares vai saber que o Izidro foi procurar um médico especializado em disfunção erétil. “Sr. Francisco”, chama o médico. (continua)

segunda-feira, 3 de junho de 2013

"Parede"

A dona Irene é a mãe de um amigo meu de escola, o Carlos Alberto. E uma vez fui na casa dele fazer um trabalho escolar, e ela preparou um cafezão pra gente. Tímido e com aquela ordem de minha mãe na cabeça: “Nunca aceite nada na casa dos outros”, recusei. Para quê? A dona Irene ficou num misto de tristeza e indignação, parando de falar comigo em todas as outras vezes que apareci por lá. O Carlos, notando o meu desconforto e o silêncio da mãe dele, resolveu checar para ver o que havia acontecido. A dona Irene revelou pra ele sua mágoa, e ele me contou. “Tá bom”, disse eu, passando a aceitar os cafés, bolos, pães caseiros que ela orgulhosamente punha a mesa. E quase perdi o privilégio, quando um dos gatos da dona Irene decidiu pegar no meu pé. Eu chegava lá, ficava escutando Black Sabbath, Deep Purple e Led Zeppelin com a Eliane e o Julinho, irmãos do Carlos, enquanto esperávamos o café. E o gato me olhava, olhava. E um dia decidiu agir. A dona Irene vinha da cozinha com a bandeja carregada de bolos e um café fumegante, quando o bichano me olha e salta no meu colo, cravando as unhas nas minhas pernas, que mesmo protegidas pela calça jeans, ficaram arranhadas. Na mesma hora, eu pego o bicho pelo pescoço, grito NÃO, e o jogo na parede, bem no momento em que a dona Irene passava, não sendo atingida por milímetros. O gato bate na parede, escorrega pro chão, miando e sai correndo porta afora A dona Irene me olha, os olhos se enchem de lágrimas...”Me desculpe, me desculpe”, peço repetidamente, sem sucesso, enquanto penso numa forma de me matar. Sou obrigado a me retirar. Seria perdoado uma semana depois, mas sempre que o gato chegava perto, eu dizia: “Não vemmmmmmmmmmm”, para delírio do pessoal da casa.

“Épocas”

Acho o Justin Bieber um tremendo mal para a música. Por mim ele poderia ter ficado escondido lá no Canadá por toda a vida. Mas já teve coisa pior...e uma amiga de infância me fez lembrar isso. Outro dia ela me liga, e reclama: “Chico, não aguento mais a minha filha, é o dia todo Justin Bieber prá cá, Justin Bieber prá lá...como uma guriazinha pode gostar destas porcarias? O que faço?”, desespera-se. “Olha, quando ela crescer, com certeza vai descobrir música de verdade”, filosofo. “Mas como ela pode gostar desta coisa?”, insiste minha amiga. “Fala alguém que encheu os cadernos com fotos e desenhos do Menudo...minha filha, não se reprima, que passa”, sacaneio. Ela desliga o telefone, furiosa, para me ligar no dia seguinte. “É, eu tinha o Menudo na minha vida...”

“Morangos”

Uma época, já formado e desempregado e sem grana para pagar o aluguel, tive de voltar a morar com a mãe. E na casa dela a lei é a seguinte: “Sob o meu teto, minhas leis”. E não se discutia isso. Aí levar uma namorada lá era praticamente impossível, já que a dona Flora é rigorosamente religiosa. Mas uma vez eu comecei a sair com uma menina, que mesmo ela não conhecendo, acabou simpatizando, devido ao meu entusiasmo pela guria. “Meu filho, traz ela aqui para almoçar”, pede. Eu fico meio assim, a dona Flora deve estar delirando. Como ela repete o pedido mais umas três vezes em dois dias, acabo cedendo, e aviso a menina. Que treme na base, mas acaba aceitando o convite. E a mãe faz um banquete delicioso. Comemos até não poder mais, mas o que queríamos era ir pro quarto. Ou seja, missão impossível. Porém parece que naquele dia os deuses estavam do nosso lado. “Crianças, fiquem à vontade”, diz a dona Flora, após nos servir um café. “A gente vai pro quarto ouvir música”, aviso. “Vão com Deus, eu vou sair, vou à igreja”, fala a dona Flora. Olha, era tudo o que a gente queria. Vamos pro meu quarto. “O que tu quer escutar”, pergunto. “Ah, tu escolhe”, diz a menina. Claro que naquela hora não seria heavy metal. Penso, penso, penso. “Pode ser Pink Floyd?”. “Claro”. Ponho o disco, e sento do lado dela na cama. Tento beijá-la, mas ela dá um gritinho. “Não...”. Recuo. Tento de novo, e ela cede. No mesmo momento, tenho uma ereção violenta. Pego a mão dela e ponho sobre a minha calça. Ela tateia, dá um sorrisinho malandro, e abre a braguilha da calça, para tirar meu pau pra fora e dar um beijo nele. Putaqueopariu...parece que vou entrar em erupção. E o que acontece? A minha mãe desistiu de sair e entra no quarto, bem na hora, sem bater, carregando uma bandeja com dois potes com morango e creme. “Crianças, pra vocêsssssssssssssssss...................”. Eu empurro a guria, tento fechar as calçar, a guria vira o rosto pra parede, e a mãe põe a bandeja na mesa e sai rapidamente do quarto. Deu, literalmente fudeu tudo. Nos recompomos, e o que nos resta é sair do quarto. A mãe nem olha pra guria, que tenta dar tchau, sem sucesso. “Dona Flora, obrigado pelo almoço...”.”Vai com Deus, minha filha”, responde a mãe, mais envergonhada do que nós dois. Levo a guria embora e só vou conseguir ficar com ela duzentos anos depois, quando voltei a morar sozinho.

“O jogo”

Final da Libertadores de 2008. A partida entre Fluminense e LDU no Maracanã está indo para os pênaltis, quando toca o telefone. Atirado no sofá, penso em não atender, mas vejo o número no bina, e quem liga é uma menina que eu estava saindo à época. O que será que ela quer àquela hora da noite e logo naquele momento? Conversar sobre o nosso relacionamento meio enrolado...não poderia ser outra hora? Não, tinha de ser naquele momento. Mas e os pênaltis? “Ah, mas homem é tudo igual, só quer saber de futilidades”, decreta ela, antes de desatar a falar. Mas teve outro momento mais tenso relacionando mulher e futebol. Copa do Mundo de 1986, no México, sábado à tarde, e jogam Brasil e França pelas quartas de final. Quem acompanhou, recorda a tensão daquela partida. Pênalti que o Zico perdeu, prorrogação...estou na sala da casa da mãe, a partida começou faz uns cinco minutos, quando toca a campainha. Mas não vou atender mesmo. A mãe, que estava na cozinha, vai lá e atende a porta. “Filho, é pra ti”, avisa ela. Mas o que seria? E aparece em minha frente uma guria que há muito eu queria sair, Diana. E a menina aparece na hora do jogo?! Tá de brincadeira...”Oi Chico“, diz ela. “Oi”, respondo, não sabendo se olho para TV ou se para ela. “Chico, eu gostaria de ir ao cinema agora ver o Top Gun. Tu me leva?”. EU NÃO ACREDITOOOOOOO....O ano tem 365 dias, e a guria quer ir no cinema naquele exato momento...”Não pode ser depois do jogo, ele deve terminar lá pelas seis horas, seis e meia”, peço. “O pai só deixou eu sair agora, tenho de estar de volta até às oito”, fala ela, fazendo uma cara de “por favor, sou eu, a guria que tu está de olho, mas na realidade eu quero ver o Tom Cruise”. Por mais que eu quisesse sair, quiçá ficar com ela, acabo cedendo aos meus instintos futebolísticos. “Puxa, hoje não dá, o jogo...”, lamento. “Que pena, a gente ia se divertir mais no cinema”, finaliza a Diana, dando tchau e indo embora. Mesmo.

sábado, 1 de junho de 2013

"Mega-Sena"

Existe um ditado que decreta: "azar no amor, sorte no jogo". Pois às vezes isto é muito verdadeiro. Em 2005, tomei um violento chute na bunda de uma namorada, que me deixou completamente fora de área por mais de um ano. Como não fiz nada durante um tempo, de licença médica, ou ficava em casa, dormindo, ou saia a caminhar pelas ruas da zona sul, sem rumo. Uma tarde caminhando, meto a mão nos bolsos, e descubro umas notas de um real amassadas. Bem na hora passava em frente a uma lotérica. Então decido entrar e fazer uma fezinha. Afinal, não tinha nada a perder. Entro na fila, que vai andando devagar, e de repente olho para o chão, e o que vejo? Uma pilha de notas de dez reais. Abaixo e as pego. Uns cem reais. Pergunto, ingenuamente, se era de alguém, mas ninguém se apresenta. Tudo bem, coloco a grana no bolso, e faço uma aposta simples. No dia seguinte, vou verificar o jogo. E quase tenho um ataque cardíaco. Acerto o primeiro número, acerto o segundo, acerto o terceiro...começo a suar frio, e acerto o quarto...meu deus, faltam só dois números e já me vejo milionário, e esfregando a grana na cara de minha ex-namorada. Só que não passo da quadra. Mas já dava uma graninha. Ao invés de gastar comigo os 500 reais, compro presentes pra guria...um coração de chocolate de 200 reais da Kopenhagen, um imenso buquê de rosas vermelhas e uma camisa preta do Nightwish. Ela nem agradece os mimos. Aliás, deve ter jogado no lixo depois que entreguei os presentes pessoalmente para ela.

"Tattoo"

Carrego comigo sete tatuagens, e tomando coragem e juntando grana pra fazer mais umas duas. O desejo de marcar o corpo era antigo, mas o perigo de não conseguir emprego e ser estigmatizado foram impedindo. Além do que, desde criança eu escutava os meus pais falando que tatuagem era coisa de marginal. A coragem veio numa noite fria de inverno em 2000, junto com uma amiga, que meses depois viraria namorada. Estávamos na casa de uma amiga em comum, tomando um vinho, quando uma das gurias disse: “Vamos fazer uma tatuagem?”. E não foi coisa de bêbados, não. Foi bem pensado. Era sábado, dez da noite. Onde encontrar um tatuador àquela hora? Fomos procurar no guia telefônico, aqueles grossos, amarelos, hoje uma coisa anacrônica. Encontramos e ligamos prum tal de Elias Tattoo. Ele nos atenderia dentro de uma danceteria lá perto da 24 de Outubro. Nos tocamos prá lá. Minha ex-namorada fez uma tribal no cóccix, e eu homenageei a banda que me iniciou no rock’n’roll, os Rolling Stones, com a língua desenhada no ombro direito. Engraçada foi a reação de minha mãe, dona Flora. Claro que não contei para ela que agora era um “marginal”, “ex-presidiário”. Ela estava em minha casa, e saio do banheiro sem camisa e sento no sofá, quando noto o olhar dela para mim. “Mãe, o que foi?”. “Filho, o que é isto no teu ombro?”, pergunta ela, apontando pra língua dos Stones. “Ah, é a tatuagem dos Stones”. “Estô o quê?”, continua ela, passando a língua no dedo indicador, e deslizando ele na tatuagem. “Filho, isto sai, né?”, diz, esfregando com força minha pele, começando a se desesperar. “Não, mãe, não sairá nunca mais”, aviso. Ela leva a mão direita à testa, e exclama: “Meu filho, não acredito, que vergonha, que vergonha. Tu, um jornalista...o que as pessoas vão pensar? Tu parece um presidiário”, afirma. “Mas a tua namorada não fez isto, né?”. Quando digo que a minha namorada também tatuou-se, ela decreta: “Ah, meu Deus do Céu, a guria vai parecer uma prostituta”, conclui.

"Macaco"

Aula do Jornalismo Aplicado da Zero Hora/RBS, em 1995. A jornalista e professora Eunice Jacques nos informa que em uma semana iremos começar a preparar o jornal experimental do curso, e vai perguntado a cada aluno como ele irá assinar seu nome dali em diante. À época eu já tinha uns quatro anos trabalhando na Imprensa, entre Band AM, Ipanema FM, Rádio Guaíba, Correio do Povo, Placar, e já era conhecido como Chico Izidro. Mas claro que iria sobrar pra mim, né? Ao meu lado a Alessandra Corrêa e o Jaime Silva. Chega a minha vez. E a Eunice: “Como tu vai assinar tuas matérias?”. “Bem, eu já assino como Chico Izidro nos outros veículos que trabalhei”. “Bom, apaga tudo o que você viveu. Agora é uma coisa séria”, ataca ela. “Além do mais, Chico é nome de macaco”, agride. A sala fica em silêncio. Por aquela eu não esperava, e nem tenho tempo de reagir. Se fosse hoje, eu pulava no pescoço dela, e depois metia um processo. Nem consegui lembrar do Xico Sá, do Chico Pinheiro, Chico Lang...a minha reação foi a de simplesmente abandonar o curso por duas semanas, frustrado com aquela atitude. Só voltei e finalizar mal e porcamente o curso porque o Jaime foi lá em casa – na época eu morava na João Alfredo – e me convenceu a voltar e terminar as aulas pra pegar o diploma.

"Braço"

O Rogério Grilo guardava o carro numa garagem na Independência. O guardador não tinha o braço esquerdo, mas mesmo assim era um exímio motorista. O Grilo dava as chaves pro carinha, que conseguia fazer as manobras somente com a mão direita e uma parte do cotoco esquerdo. Rapidamente, o velhinho estacionava o veículo no box, sem nenhum arranhão. Aliás, sem nenhuma dificuldade. E isso deixava o Grilo encucado e enciumado. E ele decidiu que não perderia pro guardador. Um dia, quando chegou para guardar seu possante, recusou a ajuda do guardador, que deu de ombros. “Eu também consigo manobrar”, garantiu o Grilo, acelerando e na maior dificuldade, conseguiu colocar o carro de primeira no box. Vitorioso, saiu do veículo, e esbravejou: “Viu, não precisava, pois aqui tem braço”, batendo com o punho esquerdo na batata do antebraço direito. Na hora se tocou da gafe. O Grilo não quis dizer dizer que ele não era maneta como o outro, mas que também tinha tanta força quanto o guardador. Não adiantou. Passou a ser visto como o cara mais grosseiro e antipático do pedaço.