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Mostrando postagens de junho, 2013

“A irmã Parte 1”

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Estava muito, muito interessado numa amiga nova, Janice. A visitava no serviço dela, como quem não queria nada, ia esperá-la na saída da faculdade dela. A guria, evidentemente, se tocou de minhas intenções, mas se fazia de desentendida. Uma tarde tomávamos um café, eu olhava para ela. “Puxa, Janice, tu é muito linda”, elogiei. Ela largou a xícara de leve, e disse: “Não sou nada, é que tu não conhece a minha irmã, ela sim é linda”, garantiu. Duvidei. “É sim, é absurdamente linda. Na terça passa lá no meu trabalho pelas 4 horas. Ela ficou de me visitar”, avisou. No dia e hora combinados, apareci na agência de turismo onde trabalhava a Janice. Os colegas dela já me conheciam. Entrei, sentei em frente à ela e me ofereceram um café. “A mana vem vindo aí”. Fiquei imaginando entrar uma guria feia, descabelada, afinal os olhos de parentes são diferentes em relação as pessoas que eles gostam, E de repente entra na sala uma deusa, uma deusa, olhos verdes, cabelos longos e negros, lábios vermelh...

“Ervilhas”

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Entre os alimentos que não suporto, a ervilha, o coco e a goiaba estão no topo dos desprezados. Pois sexta-feira, mais de 11 da noite, eu, o Ilgo Wink e o Leandro Behs saimos da redação do Correio do Povo depois de fechar a edição de domingo e nos dirigimos para a Cidade Baixa. O objetivo é jantar no Cotiporã, muitos anos antes da reforma que o deixou chique. Nós gostávamos do chinelão, que parecia uma garagem mal-ajambrada, pois ali era feito um Xis fenomenal. Hoje ele não existe mais. Sentamos, pedimos uma cerveja para abrir os trabalhos, e cada um faz seu pedido. Peço meu Xis frango, e saliento: “Por favor, sem ervilhas, no lugar coloquem mais milho”. Sou daqueles que abro uma lata de milho e como de colher. Mas não me ofereçam nada com aquelas coisinhas verdes. Pois dez minutos depois chegam nossos pedidos. Meto o garfo e a faca e saltam dezenas de ervilhas no prato. Pô...chamo o garçom e faço a reclamação. Ele pega o prato e leva de volta, retornando em dois minutos. O mesmo pão,...

“Tijolão”

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Outro dia uma colega foi passar o número do telefone dela pra mim. Ela começou a ditar os números. “Digita aí”, disse a Andréa. Ao invés de colocar o número no meu celular android, eu saco minha agenda mulambenta, peço a caneta pra ela, abro na letra “A”, e peço para ela repetir. “Mas Chico, porque nesta agenda e não direto no telefone?” Norma de mais de uma década. E recordo que na fila do supermercado, finalmente depois de respirar fundo, consegui chegar naquela morena que me olhava. “Oi”. Ela me encara e dá um sorriso meigo. “Oi”, responde ela. Silêncio. Penso: fala algo, fala algo. Sim, geralmente quando me aproximo de uma mulher, volto a ter 10 anos de idade, além de deixar bem evidente minha gagueira. “Oi, meu nome é Francisco”, me segurando para não fazer nenhuma piada na sequência, tipo “oi, meu nome é Francisco e sou alcoolatra”. “Oi, Francisco”. Tá, e aí, fala alguma coisa, idiota. “Me desculpe chegar assim, não sou nenhum maluco, apesar de estar parecendo. É que entrei no s...

“Empurrão”

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O que faz um adolescente ter um apagão de segundos e quase jogar fora quase todo um ano letivo? Pois em 1982, oitava série, praticamente passado por média para o segundo grau. Restava a prova de Ciências, hoje chamada de Biologia. O professor era um baiano, que sentia-se completamente discriminado aqui no Sul. Afiado, sei todas as respostas, e em cerca de 20 minutos a completo. A nota dez era certa. Entrego e sou o primeiro a sair da sala 803, rindo sozinho. Segundo grau, lá vou eu. O próximo a terminar a prova é o Alexandre, nerd ao extremo, só tirava dez. Passamos o ano competindo, pacificamente, para ver quem era o melhor aluno da turma. Ele até poderia ser o mais inteligente, mas era mais esperto...o Alexandre sai da sala, e estou ali no corredor, esperando a Rosane, a Claudia Ferrugem, a Andrea Carvalho, a Mariana, a Marialba, a Gisele, o João Inácio, a Ana Maria, a terminarem suas provas e a gente ir tomar um banana split. O Alexandre me olha e diz: “Vamos bagunçar a prova?”. C...

“Escurinho”

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Namorada nova, tesão à milhão. A gente se encontrava no final da noite, após as aulas, em frente à Praça da Matriz, e nos beijávamos como se não houvesse amanhã. Os nossos lábios chegavam a inchar, e depois eu a levava até o ônibus dela. No sábado, encontrávamos na Casa de Cultura, e ficavámos pelos cantos, beijos, beijos e mais beijos. As mãos procuravam os vãos das roupas, mas ficávamos com medo de sermos vistos, repreendidos e quiçá expulsos do local. Uma vez fomos ao cinema, Baltimore, para tentar refrear o tesão. Não adiantou. O filme começou e já estávamos nos agarrando. Sentados no fundão, eu desabotoo a camisa dela, puxo os seios para fora e começo a beijá-los. Ela abre minha braguilha, e me masturba ali mesmo. Para evitar que eu berre, ela põe a mão livre na minha boca, abafando meus gemidos. E ri, ri, ri...somos dois loucos. Então ela faz algo inimaginável: como está de vestido, puxa a calcinha, e senta em meu colo, encaixando meu pau em sua boceta. Na hora, nem pensamos se ...

“A Recepcionista”

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Certa vez me encantei com uma recepcionista do Tribunal de Justiça, a Renata, uma loira de olhos azuis e corpo violão. E quem não, né? Ela ficava lá na entrada, atrás de uma máquina de escrever, séria quando necessário. Rindo quando tranquila. Com minha tradicional timidez, eu passava, batia o ponto, dava uma olhadela de desejo, e me mandava para pegar o elevador. Mas sempre que podia, dava um jeito de passar pela portaria para admirar aquela belezura. Até o dia em que passei, e ela me deu oi. Parei. Era comigo, perguntei, levando as mãos ao peito, como se duvidando? “Sim. Tu passa aqui, bate o ponto, e nem para dar bom dia ou boa noite”. Eu não iria dizer que o medo de me aproximar fazia eu me afastar. Dei oi, e tratei de seguir meu caminho, porém pensando, oba, ela abriu uma porta. No dia seguinte, ao chegar no TJ respirei fundo, encostei no balcão, e desatei a falar com a Renata. Dali em diante, afastado o medo, aparecia umas quatro, cinco vezes durante o expediente para conversar ...

“Enganado”

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Quem aí nunca se sentiu enganado pelos pais em algum momento da vida? Pois passei a infância querendo evitar visitar os parentes de meus pais nos finais de semana. Odiava aquela programação de ver tios, primos, primas. Queria ficar em casa, brincando, lendo, vendo tevê, menos aguentar gente chata e que nunca teve nada haver comigo. Mas sempre ouvia de minha mãe: “Criança não pode ficar sozinha em casa. E não existe negociação. Você vai conosco na casa do tio Matias, e não se discute mais”. Aí era aquele sábado ou domingo tedioso. Então chegava a semana, ia para a escola pela manhã. A aula terminava ao meio-dia. E a determinação era a seguinte: entrar em casa, pegar o almoço que ficava no forninho, comer, fazer os temas, e depois eu podia ligar a TV para ver desenhos animados, até esperar a hora de meus pais chegarem em casa, lá pelas 18h, quando podia sair para jogar um pouco de bola até às 19h. O começo da novela era o sinal para entrar em casa, tomar banho, jantar, e ir dormir...sim...

“Aliança Parte 3”

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Tentei me afastar da Naiana. Até um dia que entrou um torpedo no celular: “Quero falar contigo. Entra no msn à noite, por favor”. A tentação morena me perseguindo. Atendo o pedido, e entro no msn ao chegar em casa. “Oi, sábado meu marido vai viajar. Vamos ao cinema?”. A vontade foi imensa, ainda mais que aquela vontade de beijá-la permanecia no ar, só que eu não poderia, já que tinha um churrasco do pessoal do jornal no Caixeiros Viajantes, e era o organizador, ao lado do Ilgo Wink. Lamentei. E no sábado quando estava me dirigindo à reunião, olho pro ônibus do lado do que eu estava, e a vejo me abanando. Deu uma vontade de deixar churrasco e a turma do CP de lado, e me encontrar com ela. As semanas passaram, e eu pensei que finalmente a guria havia esquecido de mim. Até que numa sexta-feira, insônia, sabendo que em poucas horas teria de estar no plantão no jornal, vou pro computador. Abro o msn, e lá está Naiana, online. Chamo ela pra conversar. E começamos a bater papo. Bater papo, ...

“O ônibus”

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Saio da aula na Unisinos e decido ir pegar carona na faixa, também conhecida como BR-116. Comigo a Beth, a Gisele, o Dimitri e outro colega dele do Direito, cujo nome não recordo. Estamos ali, dedões esticados para cima, os carros passando a milhão, quando para um ônibus da Central. Recusamos, afinal não queremos pagar passagem. O motorista nos olha, e diz: “Não precisa. Eu levo vocês pra Porto Alegre de graça”. Legal. Subimos no ônibus, que vai a quase 100 por hora. Nossa alegria é tanta, que nem notamos a velocidade extremada e a cantoria do motora. Ao passarmos em frente aos prédios da Cohab, em Sapucaia, olhamos para trás e vemos um carro da polícia, com o alarme ligado. Ué, o que aconteceu? De repente, o motorista para o ônibus, abre a porta, sai correndo, atravessa a avenida e some entre os prédios. Um fiscal da Central e um brigadiano sobem. “Vocês estão bem?”, perguntam. As gurias estão em pânico, os guris curiosos. “O ônibus foi roubado hoje pela manhã da empresa”. Então nos...

"Carona"

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Na época da faculdade, na Unisinos, a galera mais humilde fazia de tudo para poupar um pouco de grana. E um dos métodos era pegar carona com colegas motorizados ou então ir para a frente da universidade ou da churrascaria Schneider, na BR-116, pedir carona para uma alma caridosa que topasse trazer os universitários para Porto Alegre ou pelo menos até a estação Esteio do Trensurb. O dinheiro poupado fazia uma puta diferença no final do mês. Mas existiam regras de quem se arriscasse na faixa: nunca, nunca pegar carona solitariamente. Eram sempre grupos de três, para não dar sopa pro azar. Mulheres sozinhas nem pensar. E não é que uma vez a Ana Cristina e a Rosane quebraram a norma. A turma chegou na Unisinos, e havia uma greve de professores naquela manhã de terça-feira. Mas não geral. Eu tive aula e disse para as gurias me esperarem. Só que elas não iriam ficar das 8h30min às 11h30min aguardando. Passou uma kombi, e elas embarcaram nela. E aí começou o filme de terror. O carinha olhou ...

“Aliança Parte 2”

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Olho aquela gatinha ali na minha frente no McDonalds e esqueço aquela aliança em seu dedo anular esquerdo. A Naiana era muito bonita. Sento e decido escutar a defesa dela. No começo parecem aqueles clichês, a pessoa está casada, mas infeliz no casamento, e quer conhecer outras pessoas. OK. Além de bonita, é inteligente, e temos uma sintonia instantânea, apesar também da diferença de idade, afinal ela só tinha 21 aninhos. O marido dela é uns doze anos mais velho do que ela, e completamente indiferente. Só bate o ponto em casa para as necessidades, e passa o resto do tempo jogando bola e churrasqueando com os amigos. Ih, lembro ter conhecido alguém assim na minha vida, eu mesmo anos antes com uma namorada. E agora sei como as mulheres sofrem com isso. Naquela tarde só conversamos, enquanto ela toma um suco de laranja, e eu um café. “Chico?”. “Sim?” “Vamos nos ver de novo?”, pergunta ela, com olhos tristes. “Se você quiser...” Ela abre um sorriso: “Quero sim”. E cada um vai para seu lado...

"Halley"

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Aniversário de 15 anos da Hellen, no Clube dos Funcionários do Tribunal de Contas, no Cristal. O Denilson passa uma descompostura no resto da turma, pois segundo ele, a galera não sabia se comportar e fazia fiasco. Deveriam ser como ele, ou seja, não beber e nem atacar as guriazinhas. A turma escuta o sermão, se olha de canto e prepara a vingança. Enquanto tomam um gole de cerveja, oferecem dois copos cheios para o Denilson. Ele acha poder se controlar, e acaba perdendo a conta. Após o corte do bolo, a aniversariante vai distribuindo souvenires de seus 15 anos, na mesma noite em que o cometa Halley cruzaria os céus. A Hellen oferece uma lembrancinha, um cartãozinho com os dados da festa e um pequeno boton, para o Denilson. “Não, obrigado, estou satisfeito”, diz ele, vomitando em seguida. Quando vê, aliás, não vê, está sendo expulso do salão pelo segurança. Completamente alcoolizado, cai na frente do clube, e continua a devolver ao mundo as bebidas e comidas que ingeriu naquela noite. ...

"Blitz"

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A Lei Seca recém estava sendo implantada em Porto Alegre e eu e o Lelo enchemos a cara no Bar do Beto. Muitas e muitas garrafas de cerveja. Por volta das 11 da noite, enrolando a língua, trocando as letras, achando as feias lindíssimas, decidimos ir embora. Ao levantar, tudo gira, gira, gira...pagamos a conta e nos arrastamos até o carro do Lelo. Por onde ir para não ser pego numa blitz? "Ah, vamos na sorte", arrisca o Lelo. E lá vamos nós, Venâncio, Praia de Belas...nos aproximamos do Beira-Rio e o que vemos? Uma imensa fila de carros e azuizinhos e um monte de brigadianos parando todo mundo...Putaquepariu, nos fudemos. Como sair desta? O Lelo está muito, muito bêbado, eu mais ainda. Os policiais fazem sinal, mandando os carros entrarem na área de checagem. Na frente do carro do Lelo, conseguimos contar cinco carros. Quando chegar nossa vez...bem, se acenderem um fósforo, explode tudo. Um, dois, três, quatro, cinco carros vão sendo parados. É agora...e o brigadiano olha pr...

“Beliscão”

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Minha namorada ciumenta mandava recado sempre. Festa de final de ano do Correio do Povo no Chopão, lá no Beira-Rio. Na mesa eu, ela, o Elio Bandeira, o Ilgo Wink, e outros colegas e amigos que não recordo. São mais de 100 pessoas, de todos os setores do jornal. Nisso, chega a Fernanda. Olha procurando lugar e pessoas mais chegadas e nos vê. Abre um sorriso, abana e vem vindo em nossa direção. Aí minha namorada me dá um beliscão, forte, e ameaça: “Se tu cumprimentar esta vagabunda, nós vamos embora”. “Mas ela é minha amiga”, digo. “Não, ela não é tua amiga. Não é nada. E eu sou tua mulher. Me respeita”, ordena. Baixo a cabeça. E a Fernanda chega, olha pra gente. “Oi, pessoal”. O Elinho levanta e dá três beijinhos nela. “Oi Chico”, diz a Fê. Eu viro pro lado, e silencio. A Fê fica parada, não acreditando na minha atitude. E desiste de ficar ali, com a gente. “Muito bem, gostei. Nada de falar com esta vaca”, agradece minha namorada. E eu quero morrer. Uma hora depois, quando a galera com...

"Compras"

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Sábado à tarde, Zaffari da Lima e Silva com minha namorada ciumenta, fazendo compras. O carrinho quase cheio, e eu vou olhando as prateleiras, em busca de mais guloseimas e outras bobagens. Ela para lá nos frios, e eu vou seguindo adiante, fora do raio de visão dela, quando duas gurias cruzam na minha frente, me olham e dão um sorrisinho sacana, que eu devolvo instantaneamente. E o que acontece no segundo seguinte. A minha namorada se materializa bem em frente, as duas mãos segurando o carrinho com força. “Tu vem pro supermercado pra ficar olhando estas vagabundas? Chega, vamos pra casa”, berra ela. “Eu não fiz nada, só dei um sorriso”. “Tá paquerando estas putinhas. Vamos embora, vamos embora”, fica berrando ela, no meio do corredor, as pessoas em volta parando e olhando. Tento empurrar o carrinho, mas ela não deixa. “Ele fica aí”, ordena. “Mas”. “Não tem mais, vamos pra casa”, berra. Para fazer ela parar, deixo as compras ali, e voltamos pro apartamento na João Alfredo, sem nada. Só...

“Gay”

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Dando uma banda do Zaffari do Bourbon Country (cântri, como ensinou a Paula Gonçalves) com o Rodriguinho, a Mariane e o Eduardo, que trabalham lá na Livraria Cultura, e a galera compra pão, vinho, parece que estamos indo pra Santa Ceia. Nisso passa uma mulher linda bem na minha frente, e além de ficar admirando aquela beleza desfilando pelos corredores, comento com o Edu, que conheço desde os tempos do Sintrajufe: “Minha nossa senhora, olha que coisa maravilhosa, que estrago iria fazer com ela lá em casa”, lambendo os beiços. O Edu arregala os olhos, espantado. O que será que ocorreu? “Chico, tu gosta de mulher? Desde quando?”, pergunta ele. Aí é a minha vez e do Rodriguinho de nos espantarmos. “Como assim, se eu gosto de mulher? Desde sempre”, digo. “Cara, eu sempre jurei que tu era gay”, garante ele. “Tu tá de brincadeira, né?”. “Não”. O Rodriguinho e a Mariane caem na gargalhada, e eu fico ali, tentando imaginar porque o Edu achava que eu era gay.

“Aliança”

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Conheci a Naiana tentando pegar o lotação numa manhã de engarrafamento. Após mais de 40 minutos mofando na parada, conseguimos pegar a condução. Aliviados, trocamos um sorriso, e sentamos próximos. “Ufa, finalmente”, disse ela. “É mesmo, o trânsito está horrível”, completo. Aí silêncio até o lotação se aproximar do Centro. Me viro e me apresento. “Me chamo Chico”, estendo a mão. Ela faz o mesmo. “Sou a Naiana”, fala a morena, fofinha, de olhos verdes, 20 e poucos anos. “Tu faz o quê?”, ela pergunta. “Sou jornalista. Trabalho no Correio do Povo”. “Bah, que legal. Eu sou estudante de turismo, e trabalho no hotel XXX.” A conversa tem de ser acelerada, porque estamos quase no final da linha. Acabamos trocando telefones. E no dia seguinte, ela me liga. “Oi, é a Naiana, tudo bom?” “Oi, tudo”. “A gente poderia combinar um café. Trabalho perto do teu serviço. Que tal?” Que tal? Ótimo ser convidado por uma gata. Combinamos de nos encontrar no McDonald’s, no meio da tarde. Entra um torpedo. “C...

“Traidor”

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Imagina ser gremista nos anos 1970, e ainda criança e negro. E usar óculos. O bullying pegava direto. E nem os adultos perdoavam. Ia ao Tribunal de Justiça, onde a mãe trabalhava, depois da escola, e os colegas dela não poupavam. “Chiquinho, tu tem de ser colorado”. “Bah, teu time perdeu de novo”. Mas acho que o pior era: “Puxa, tu é traidor da tua raça, é gremista, e negrão não pode ser gremista, tem de ser colorado”. Eu chorava de raiva, mas mantinha-me fiel. No colégio, na educação física, nunca dava para se fazer Grenal porque não tinham tricolores suficientes para formar um time. E chega dezembro de 1976. E o Inter vence o Corinthians e se sagra bicampeão brasileiro, e ainda tinha aula no dia seguinte. Final de ano e tortura. Lá vou eu sofrer as humilhações da idade. “Viu, guri, viu guri, tu tem de mudar de time. Aliás, torcer por um time”, falavam os adultos. No Paula Soares só não fui chamado de looser porque ainda não se usava este termo na época. Naquela semana nem quis que o...

“Teimosia”

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O Newton Azambuja era um repórter da Rádio Guaíba que andava sempre de terno e gravata, modelos 1970. Gremista e vascaíno, devido a sua longa experiência, não aceitava opiniões contrárias. Uma vez, estávamos na salinha do esporte, o Grêmio iria jogar com o Vasco, e enquanto nos organizávamos, ele ia contando os jogos que havia feito entre os dois anteriormente. “Recordo de 1984, pelo Campeonato Brasileiro, no Maracanã, nas semifinais, a partida finalizou com o placar em branco”, garantiu ele com a voz empostada. Eu estava redigindo o roteiro, paro de digitar, e corrijo: “Não, Azambuja, o jogo terminou em 3 a 0 para o Vasco”. “Não, 0 a 0, eu estava lá atrás da goleira”. “Não, foi 3 a 0”. “Chico, foi empate. Me lembro como fosse hoje”. “Bom, então tu dormiu e não viu os gols do Vasco”. “Tu não sabe nada, tu é guri, tu é cagalhão”, dispara o Azambuja. “Posso ser, mas minha memória é foda, e vi o jogo pela tevê. Foi 3 a 0 pro Vasco”, teimo. “Tu não sabe nada, tu não sabe nada”, encerra el...

“Portão 8”

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Já trabalhava no Correio do Povo há uns dois anos, e naquele domingo fui escalado pelo Hiltor pra cobrir o jogo do Inter com a Portuguesa no Beira-Rio pelo Brasileirão de 1995. Os vermelhinhos viviam uma crise danada naquele ano, haviam perdido o Gauchão pro Banguzinho do Grêmio, e os protestos no Portão 8 eram frequentes. E o que acontece? O Inter é derrotado por 1 a 0, e a turba se posiciona na entrada do vestiário, para onde me encaminho junto do Hiltor e o Ricardo Giusti. Fazemos anotações, o Giusti fotografa, e estamos esperando o carro do jornal nos pegar, quando escuto uma voz: “Hei, conheço aquele cara, aquele repórter é gremista”. Olho e vejo o segurança de um mini-mercado que ficava na João Alfredo, onde eu morava. O gordinho vestia uma camisa do Inter puída, da Olympikus, e estava acompanhado de uns 30 colorados, e eles começam a vir na nossa direção. “Secador, tu vai apanhar”, diz ele, e os outros berram hinos. A gente se olha, e nisto chega o carro do jornal. Nem consegui...

“Infiltrado”

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Em 1992, o Inter faria um jogo extra com o Caxias no Beira-Rio por uma vaga na final do Gauchão contra o Grêmio. A diretoria colorada decidiu que não cobraria ingressos. Eu e o Jeff decidimos ir ao estádio secar os vermelhinhos, sabendo dos riscos que correríamos. Já ao pegar o ônibus linha Futebol no Mercado Público, vimos a enrascada. Os vândalos arrebentaram uns dois veículos, antes que um terceiro fosse poupado para levá-los ao estádio. Fomos carregados pela turba, que cantava hinos de extermínio aos gremistas. “Os dois aí não vão cantar?”, pergunta um carinha com os braços do tamanho do Schwarzenegger. O Jeff começa a socar a parede do ônibus, e berrar colorado, colorado. Eu acho um jeito de elogiar o Caíco, que surgia naquele ano como promessa vermelha. Ao descer no estádio, uma multidão avançando em direção as entradas. Lotado nas arquibancadas superiores, só restaram lugares nas inferiores. Entramos, apavorados. Afinal, estavámos indo pro matadouro. A partida começa e logo o I...

“Cotovelada”

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Eu tinha uns 10 anos e vi o Figueroa acertar uma cotovelada no Tarciso em um Grenal. Não recordo quanto acabou o jogo, mas os vermelhos devem ter vencido, afinal eram os anos 1970. O Flecha Negra caiu pra trás, o nariz estropiado, e o chileno nem amarelo levou, tal o jeito de disfarçar o golpe. Mesmo gremista, achei aquele lance legal, bonito plasticamente, claro que não pensei estes termos àquela época. Na minha cabecinha, decidi que na primeira oportunidade faria o mesmo no primeiro jogo que disputasse. Nem imaginava ser aquilo um lance sujo. E tive a oportunidade na escolinha do Grêmio. Sempre gostei de jogar no gol, mas sendo míope, e à época ainda não usando lentes de contato, fui vergonhosamente deslocado para a zaga. E a bola vem na minha direção, e o atacante aproxima-se perigosamente. Faço a cobertura com o corpo, e o guri bufa na minha nuca perto da lateral-direita. Não tenho dúvida. Enfio o cotovelo no nariz alheio, e todo orgulhoso saio com a bola dominada, sozinho. Aí es...

“Narrador”

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Em 1987, na faculdade, uma colega do jornalismo, Gisele, diz nunca ter ido a um jogo de futebol na vida. Ela não tinha irmãos, o pai achava que campo de futebol não era lugar para garotas, e o até então único namorado que ela havia tido também não havia concordado em acompanhá-la ao estádio. Ela torcia para o Inter, e pediu que eu a levasse a um jogo no Beira-Rio. Infelizmente este pedido eu não poderia atender. Antes que ela me colocasse no mesmo nível do pai e do ex-namorado, disse que não a levaria ao estádio colorado só pelo fato de ser gremista. “Tudo bem, eu aceito ir no estádio do Grêmio. Só quero ver uma partida de futebol ao vivo. Os times não me interessam”, garantiu a guria. Naqueles dias o Grêmio enfrentaria o Atlético Mineiro pela Copa União, sexta-feira à noite. A Gisele topou na hora. No dia e horário marcado, nos dirigimos pro Olímpico. A gente compra os ingressos, entra na arquibancada inferior. Senta naquela laje fria, comendo amendoim. O jogo começaria só em meia-ho...

“Pavor”

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O Milton Ferreti Jung era cruel com os redatores da Rádio Guaíba. E costumava pegar no pé dos novatos, talvez estratégia para que pegassem confiança. Ou desistissem. Sei que meus primeiros seis meses foram de pesadelo. Eu era um dos redatores do Correspondente Renner das 13h e a Kátia Hoffman e o Idalino Vieira eram os editores. Eu entrava meio-dia e mal tinha tempo para respirar, já recebia várias matérias para redigir e ainda pegar os telefonemas do Gustavo Mota, setorista de política na Assembleia. Um terror. Lá pelas 13h15min, o Milton entrava na redação com as notas onde encontrava erros viradas para cima, e esculachava o redator responsável. Com a pressão diária, comecei a errar frequentemente, suar frio, e ter fortes dores de estômago. Não pedi demissão porque decidi que venceria o leão. Mas estava demais...eram xingamentos, ofensas. Teve redator que chorou. Eu comecei a sumir após entregar o último texto. Me trancava no banheiro e por lá ficava até 13h45, 14h, quando sabia qu...

"Pé de Porco"

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Assistindo estes protestos nas ruas contra o aumento das passagens, recordo de uma vez em 1982. Sai da aula no Paula Soares junto com a Rosane e o Alexandre e nos dirigimos à Praça da Matriz. A turma se reunia sempre lá para bater papo, namoricos, jogar bola, trocar figurinhas. No meio do caminho deparamos com um grupo de manifestantes em frente à Assembleia Legislativa, com bandeiras do PT, do PCB...ainda vivíamos na ditadura militar, que dava seus últimos suspiros, e pelo que recordo, o protesto era pela liberação dos partidos de esquerda nas eleições daquele ano. O pessoal gritava palavras de ordem, gritava PT, PT, PT...a gente para ali ao lado deles, e perto os brigadianos só observando. E o que o débil mental faz? Abafado pelos gritos, eu solto uns “pé de porco, pé de porco”. A gente se mija rindo, achando que os brigadianos não escutaram as ofensas. Mas eles escutaram, e segundos depois, vejo o Alexandre e a Rosane dispararem tal qual Usain Bolt em direção à praça. Uê, onde eles...

“Fundão”

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Isto é um clássico. Os CDFs sentam nas primeiras fileiras, e os bagunceiros vão lá pro fundo da classe. E eu desde os primórdios, sentava lá na frente, inclusive no início da oitava série. Uma mistura de nerdice, com miopia, me faziam ficar quase de frente aos professores. Até que eu conheci Andréa Carvalho, a garota mais linda de todas no último ano do primeiro grau. Linda e divertida. E os maiores peitos entre as gurias com 14 anos de idade. Não tive dúvidas. Abandonei a segunda fileira, o Alexandre, a Rosane, a Cláudia, a Marialba, a Denise, e fui lá pra última classe, colado à parede, onde passava as tardes encantado com aquela morenaça. E chega a Copa do Mundo de 1982, e a gente só tinha dispensa em dias de jogos do Brasil, mas eu queria saber tudo o que estava ocorrendo lá na Espanha. Em época pré-internet, o jeito foi arranjar um radinho de pilha e um arcaico fone de ouvido para apenas um ouvido para escutar os jogos que começavam às duas da tarde. Estou escutando o jogo Inglat...

“Linda”

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Sim, ela era linda, a mulher mais linda que vi na vida. Eu olhava para ela e ficava hipnotizado. Longos cabelos negros, olhos verdes cristalinos, lábios carnudos e peitos enormes, tal qual Sofia Loren no auge. A perfeição, e ela sabia disso. E se entregou para mim sem questionamentos. Nos trancamos dentro de minha casa durante três dias seguidos, e eu inventei uma gripe violenta para não comparecer ao trabalho. A gente passava o tempo transando, dormia, acordava, comia alguma coisa, transava de novo, de forma incessante. O problema que fora do quarto não tinhamos nada em comum. Além do que, ela não era modesta. Sua beleza a tornara uma mulher sem alma. Quando um raio cortava os céus, ela olhava para o alto, imaginando o clarão ser fruto dos flashs das máquinas fotográficas registrando sua beleza incomum. E quer ver quebrar o clima do que soberba? Estávamos deitados, e eu não conseguia parar de olhar para ela, tamanha beleza. Alisei seus cabelos, ela beijou meu umbigo, beijou mais aba...

"A mensagem"

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Esta é pré-msn, pré-skype. O Renato Gava, quando ainda trabalhava no Correio do Povo, tinha a mania de deixar o email minimizado, quando saia para lanchar ou fazer uma reportagem. Uma tarde, estava lá na tela do computador o e-mail aberto, para quem quisesse ver e ler. O Possas e a Claudia Chiquitelli não tiveram dúvida. Escreveram uma mensagem para uma coleguinha que recém havia sido chutada pelo namorado e andava cabisbaixa pela redação. Na mensagem fictícia, “o Gava” abria seu coração para a menina, que não era uma beldade, aliás, feinha, coitadinha, tanto que secretamente foi apelidada pelos colegas de ET. O email continuava: por que tanta tristeza, e que ele, o Gava, faria de tudo para ajudá-la a sair da frustração. A moça ficou empolgada e começou a lançar olhares apaixonados pro Gava, e até mandou um email pra ele. Que claro, não entendeu nada. E para maior decepção dela, não respondeu. A guria não se deu por vencida, e mandou outra mensagem: “Por que tu não responde os meus em...

"Negrinho"

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Saio da aula de natação na Stillo e vou à secretaria pagar a mensalidade com a Magda, que vendia uns negrinhos tri gostosos, do tamanho da palma da mão. Pego o último e o devoro com uma mordida faminta, daquela de quem ficou uma hora gastando energia na piscina. Nisso entra um guri, gordinho, de seus oito anos na sala. “Tia Magda, tem negrinho”, pergunta. A Magda olha pro guri. “Meu querido, acabaram os negrinhos”. O guri faz uma cara de tristeza, fica parado ali, como se não acreditasse. Aí eu olho pra ele e brinco: “Carinha, acabou o negrinho, mas tem o negrão aqui”...pra quê, eu esqueço que nem todo mundo, ainda mais um piá, tem meu senso de humor politicamente incorreto. O guri começa a chorar e sai correndo. “Mãeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee”. “Chico, tu tá louco? Ele não entende este tipo de brincadeira. E tu vai passar por pedófilo”, adverte a Magda. Nem me dei conta. No final, nada acontece.

"Dentista"

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Entre os medos que tenho na vida, um deles é de dentista. Não à toa, a cena mais arrepiante no cinema para mim é aquela onde Sir Lawrence Olivier tortura Dustin Hoffmann em “Maratona da Morte” com uma broca. “É seguro, é seguro?”, pergunta Olivier. “O quê, o quê?”, desespera-se Hoffmann...Então aos 7 anos eu tinha de tirar um dente acavalado, aquele que ficava sobre os outros dentes. Anestesiado, a ajudante do dentista, o Dr. Cláudio, segurando minha mão direita, e o que faço? Começo a me debater, a berrar, e num descuido deles, saio correndo consultório à fora, chorando muito. E não tem Cristo que faça eu voltar para terminar a cirurgia. Mas uns 10 anos depois, já grandinho, protagonizei outro fiasco. Era verão, janeiro, e começo a tremer na cadeira, o suor escorre pelo meu rosto, eu amasso vários lenços de papel, tal o nervosismo e o medo. “Tudo bem aí, Francisco?”, pergunta o dentista. “Não, não está tudo bem. O senhor é um sádico, só sádicos podem ser dentistas”, grito, para em se...

“Maverick”

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Estava trabalhando no Correio do Povo há pouco tempo, e ainda totalmente inseguro. Uma tarde chego na redação, pego a pauta e a liquido em menos de uma hora. O que fazer nas próximas horas? À época não havia internet, sim, sou pré-internet. Leio um jornal, folheio umas revistas e nada de o tempo passar. Olho pro cinema Imperial, que ainda resistia, veja bem, estávamos em 1995. Ah, vou dar uma escapada da redação, deixo a jaqueta na cadeira e atravesso a rua para assistir Maverick, com Mel Gibson e Jodie Foster. Quando entro na sala, o filme já começou e tenho dificuldades para me encontrar naquele breu. Ufa, acho um lugarzinho e sento para ver o faroeste...duas horas depois, Maverick termina e começam a subir os créditos. A luz do cinema é acessa, e ao olhar para o lado, quem vejo? Um editor do Correio do Povo sentado, com as mãos no queixo, matando serviço. O cara olha pro lado também e me vê. E agora? Bem, eu era um mero repórter. Iria me incomodar. E o que o editor faz: “Guri, tu n...

“Vingança”

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Prova de ciências na sexta série lá no Paula Soares, e a Renata com o livro embaixo da carteira, aberto, colando as respostas. E a prova estava mesmo difícil, aplicada por uma professora que nunca foi muito popular entre os alunos, a Melda. Então a Márcia, que era uma gordinha muito CDF, mas não por isso que não era popular, quebrou a ética entre os alunos. “Professora”, chamou ela, levantando a mão direita, sinal de quem queria ter a atenção. “Sim, Márcia”, disse a Melda. “A Renata tá colando. O livro dela tá aberto...”. Nossa, a Renata tentou fechar o livro, a turma ficou em polvorosa, abismada com a atitude da dedo-duro. A professora veio lá da frente, puxou a Renata pelo braço, pegou o livro, e a levou direto pra Margareta na diretoria. A Margareta era mais ou menos como o Hitler para os judeus na Alemanha nazista, o terror em pessoa. A Melda voltou sozinha, e elogiou a atitude da Márcia. “Muito bem, a honestidade é tudo”, disse ela para a guria, que virou persona non-grata para ...

“Pirralha”

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A Catia era uma gatinha que eu conheci ainda pirralha, brincando de boneca. E ela cresceu muito bem, virou um mulherão, sensual, provocante. Os caras se dobravam à passagem dela, mas para mim nada mais distante, quase como se fosse um crime maior, quase pedofilia. Ficamos tri amigos, conheci uns namorados dela, ela me confidenciava sua vida amorosa, e a gente dava risada das tragédias românticas um do outro. Mas a guria não parava de crescer...e ao ultrapassar idade em que não teria muita diferença para a minha, comecei a vê-la com olhos famintos, e a Catia notou que as minhas brincadeiras começaram a ficar mais pesadas, desrespeitosas mesmo. E ela foi logo cortando minhas asinhas, afinal eu era como um irmão mais velho. “Tá bom, não brinco mais, não falo mais nada”, prometi. Segurei o tesão até o dia em que ela me ligou, havia brigado com o namorado, e queria desanuviar. Pegar um cinema, tomar uns chopps. Ok, vamos nessa, disse. Fomos ao Moinhos, vimos um filme, eu sentindo o perfum...

“Lobo”

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O Lobo era foda. Não perdoava as namoradas dos amigos e nem as meninas que estavam na mira dos amigos. Todo domingo a gurizada se reunia antes do futebol, para falar sobre as façanhas ou fracassos da balada de sábado à noite. E invariavelmente o Lobo, que era apaixonado pela irmã de um dos amigos, mas sempre fracassava em suas tentativas, acaba se consolando em outras carnes. Lobo porque se fazia de carente e atacava sem piedade as menininhas. O pessoal ficava meio puto, mas acabava por perdoar o carinha, só que ficavam todos com medo de ser o próximo a ser passado para trás. E chegaria o meu dia. Dia dos namorados e tinha festa Love Songs, apresentado pelo radialista Arlindo Sassi no Partenon Tênis Clube. Eu estava todo derretido pela Viviane, e a convidei para ir na festa. A guria topou na hora, e pensei com meus botões que no sábado iria me dar bem. Pô, a guria aceita meu convite logo no 12 de junho. Quer sinal maior? E chega a data, e o Lobo tenta se aproximar da irmã do amigo, e ...

“Estereótipo”

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Uma coisa que detesto é a estereotipagem. Outro dia conversando com uma amiga, ela soltou que os “homens não conseguem fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo”. “Ora, eu consigo”, rebati. “Não, não, impossível”, teimou ela. Insisti que sim. Consigo escrever, ouvir música, ver TV, cozinhar, e por aí vai, simultaneamente. “Então tu é o único”, atesta ela. “Não, conheço muitas pessoas, tanto homens quanto mulheres, que fazem isso. “Mas o meu namorado não consegue”, constata ela. “Bem, cada caso é um caso, é uma característica de cada pessoa”, finalizo, mas ela continua achando que sou um caso a ser estudado pela ciência. E aí me vem a lembrança da vez que morava em São Paulo e saí algumas vezes com uma japonesinha que conheci no Masp. Íamos ao cinema, à livrarias, uma vez fomos a um show do Viper. Até que ela conseguiu estragar tudo numa tarde de domingo enquanto caminhávamos pela Paulista. “Francisco, tu é diferente”. “Mas por quê, tenho dois olhos, um nariz, duas orelhas”, brinco. “Não,...

“Judeu”

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Na quinta série, lá no Paula Soares, eu tinha um colega que nunca aparecia no colégio aos sábados pela manhã, e era dispensado das aulas de religião. Eu não entendia porque o Victor Hugo tinha aquele privilégio, e ao lado de meus outros colegas “azarados”, imaginávamos que o guri ficava num clube jogando botão ou ping-pong ou jogando bola. Morríamos de inveja. Que acabaria de modo brusco. Dias depois da Páscoa, escutamos uma gritaria no corredor, e fomos todos para lá. O Victor Hugo, que era meio franzino, estava sendo surrado por uns caras mais velhos. Ele tomava um sopapo, caia, tentava levantar, levava uma rasteira, caia de novo. Uma colega, Cristina Mocellin, tentou apartar. “Parem, parem, ele não fez nada para vocês”, disse, colocando-se no meio do bolo. “Sai, sai”, ameaçou um dos grandões. “Eu não fiz nada”, disse o Victor Hugo. Até hoje escuto a resposta de um dos espancadores. “Tu é judeu. Tua raça matou Jesus Cristo”, e vapt-vupt, mais uma porrada no Victor Hugo. “O quê? O qu...

“Coincidência”

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Já escrevi sobre a Simone Berthier, menina que fez com que eu decidisse não deixar de falar com alguém quando tivesse vontade. Então estou no T-4 e vejo uma loira linda, grandes olhos verdes, lembrando a Brigite Bardot, sentada à minha frente. Admiro a guria e deu. E ela desce na mesma parada. No dia seguinte, a vejo de novo no supermercado. O seu andar é fascinante. Fico ali, babando e deu. E o que acontece no terceiro dia? Cruzo com a guria na Rua da Praia. Quem está seguindo quem? Aí terminam os encontros. Não a vejo por uns três meses. Março chega e a guria volta a cruzar comigo nos horários e lugares mais variados. Na décima vez em que esbarro nela, fico pensando: porra, tenho de conhecer esta guria. Claro que a minha timidez vai me impedir de chegar perto dela. No dia seguinte, estou chegando em casa e cruzo com ela. Penso em falar com ela, mas não consigo. No outro dia, de novo. PQP...prometo para mim mesmo que se no dia seguinte esbarrar com ela, me apresento. E o que acontece...

“Foguete”

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Separado após relacionamento de seis anos, e alguns meses de “luto”, comecei a sair de novo. Um dos points no começo dos anos 2000 era o Dr. Jeckill, ali na Cidade Baixa. Foi lá, onde batia o ponto todos os finais de semana, que conheci um grande amor em minha vida, e também protagonizei um fiasco homérico. Estava uma galera na casa da Anne Coutinho, ali na República, fazendo a concentração para ir à danceteria lá pelas 23h30min, meia-noite. Começamos com cerveja, partimos pro vinho, e eu havia ganhado de presente no final do ano anterior uma champagne. Decidimos deixar o espumante para beber mais tarde, lá dentro do Dr. Jeckill. O problema era como entrar no local com a garrafa...resolvido, escondo dentro do casaco, já que fazia frio. Entramos, e vamos pra pista de dança, no segundo andar. Já meio entupido de outras bebidas, começo a tomar a champagne no bico, e com a movimentação, as luzes piscando, começo a ficar tonto. Sinto que vai dar porquinho, e corro pro banheiro, onde me tra...

“Consultório”

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Um certo tempo atrás, por causa da depressão, vivia entupido de antidepressivos. E todo mundo sabe que estes remédios causam alguns terríveis efeitos colaterais. E um deles eu teria a constatação de modo nada agradável. Fiquei com uma guria linda numa festa e a sequência foi irmos pra casa dela. Os beijos eram intensos, os amassos, mas eu não conseguia sentir nada lá embaixo. Nada. O bichinho estava mortinho. Quando ficamos nus, a guria tentou de tudo para acordá-lo. Zero, zero. E eu querendo me atirar lá do sétimo andar. Ela passa a mão na minha cabeça. “Tudo bem, tudo bem. Vamos dormir”, diz ela. Claro que não dormi, pois passei as duas horas seguintes tentando explicar o que poderia ter ocorrido. Só parei quando notei que ela já estava no mundo de Morfeu há muito tempo. E pensei que não teria outra chance com a guria, até que ela me ligou na semana seguinte, e disse que queria me ver. Fui vê-la e de novo nada...tentamos mais umas duas vezes nas semanas seguintes, e sempre aconteci...

"Parede"

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A dona Irene é a mãe de um amigo meu de escola, o Carlos Alberto. E uma vez fui na casa dele fazer um trabalho escolar, e ela preparou um cafezão pra gente. Tímido e com aquela ordem de minha mãe na cabeça: “Nunca aceite nada na casa dos outros”, recusei. Para quê? A dona Irene ficou num misto de tristeza e indignação, parando de falar comigo em todas as outras vezes que apareci por lá. O Carlos, notando o meu desconforto e o silêncio da mãe dele, resolveu checar para ver o que havia acontecido. A dona Irene revelou pra ele sua mágoa, e ele me contou. “Tá bom”, disse eu, passando a aceitar os cafés, bolos, pães caseiros que ela orgulhosamente punha a mesa. E quase perdi o privilégio, quando um dos gatos da dona Irene decidiu pegar no meu pé. Eu chegava lá, ficava escutando Black Sabbath, Deep Purple e Led Zeppelin com a Eliane e o Julinho, irmãos do Carlos, enquanto esperávamos o café. E o gato me olhava, olhava. E um dia decidiu agir. A dona Irene vinha da cozinha com a bandeja carre...

“Épocas”

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Acho o Justin Bieber um tremendo mal para a música. Por mim ele poderia ter ficado escondido lá no Canadá por toda a vida. Mas já teve coisa pior...e uma amiga de infância me fez lembrar isso. Outro dia ela me liga, e reclama: “Chico, não aguento mais a minha filha, é o dia todo Justin Bieber prá cá, Justin Bieber prá lá...como uma guriazinha pode gostar destas porcarias? O que faço?”, desespera-se. “Olha, quando ela crescer, com certeza vai descobrir música de verdade”, filosofo. “Mas como ela pode gostar desta coisa?”, insiste minha amiga. “Fala alguém que encheu os cadernos com fotos e desenhos do Menudo...minha filha, não se reprima, que passa”, sacaneio. Ela desliga o telefone, furiosa, para me ligar no dia seguinte. “É, eu tinha o Menudo na minha vida...”

“Morangos”

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Uma época, já formado e desempregado e sem grana para pagar o aluguel, tive de voltar a morar com a mãe. E na casa dela a lei é a seguinte: “Sob o meu teto, minhas leis”. E não se discutia isso. Aí levar uma namorada lá era praticamente impossível, já que a dona Flora é rigorosamente religiosa. Mas uma vez eu comecei a sair com uma menina, que mesmo ela não conhecendo, acabou simpatizando, devido ao meu entusiasmo pela guria. “Meu filho, traz ela aqui para almoçar”, pede. Eu fico meio assim, a dona Flora deve estar delirando. Como ela repete o pedido mais umas três vezes em dois dias, acabo cedendo, e aviso a menina. Que treme na base, mas acaba aceitando o convite. E a mãe faz um banquete delicioso. Comemos até não poder mais, mas o que queríamos era ir pro quarto. Ou seja, missão impossível. Porém parece que naquele dia os deuses estavam do nosso lado. “Crianças, fiquem à vontade”, diz a dona Flora, após nos servir um café. “A gente vai pro quarto ouvir música”, aviso. “Vão com Deus...

“O jogo”

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Final da Libertadores de 2008. A partida entre Fluminense e LDU no Maracanã está indo para os pênaltis, quando toca o telefone. Atirado no sofá, penso em não atender, mas vejo o número no bina, e quem liga é uma menina que eu estava saindo à época. O que será que ela quer àquela hora da noite e logo naquele momento? Conversar sobre o nosso relacionamento meio enrolado...não poderia ser outra hora? Não, tinha de ser naquele momento. Mas e os pênaltis? “Ah, mas homem é tudo igual, só quer saber de futilidades”, decreta ela, antes de desatar a falar. Mas teve outro momento mais tenso relacionando mulher e futebol. Copa do Mundo de 1986, no México, sábado à tarde, e jogam Brasil e França pelas quartas de final. Quem acompanhou, recorda a tensão daquela partida. Pênalti que o Zico perdeu, prorrogação...estou na sala da casa da mãe, a partida começou faz uns cinco minutos, quando toca a campainha. Mas não vou atender mesmo. A mãe, que estava na cozinha, vai lá e atende a porta. “Filho, é p...