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Mostrando postagens de 2014

"Porquinho"

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Segunda série, 1974. Aprovado de ano, ao lado de coleguinhas que também haviam passado, ganhei uma tarde num parque de diversões perto do Beira-Rio. Quem nos levaria seriam as professoras da Escola Estadual Paula Soares, onde passei boa parte da minha vida. Que festa para a gurizada. Satisfeita com meu desempenho escolar, a mãe me deu uma mesada em dobro naquela semana. Acho que pela moeda da época, eram uns dez cruzeiros. Uma fortuna, que desta vez eu não gastaria em revistinhas em quadrinhos. Nossos olhinhos brilharam quando chegamos ao parque e vimos aquele montão de brinquedos e mais stands de comida, muita comida. Me atraquei no cachorro-quente, passei para a pipoca doce, o algodão doce, coca-cola. Enchi a pança de comida e ainda tinha dinheiro sobrando. Era a hora de embarcar na roda-gigante. Depois passei para a montanha-russa, e nesse momento meu estômago começou a fazer estranhos barulhos. Desci da montanha-russa e estava verde, azul, lilás, roxo...um colega, o Marco Aurélio...

"Sinal verde"

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Sábado, começo da tarde, saio do supermercado em frente ao prédio onde moro, no Cristal, atravesso uma faixa da rua. A outra está fechada para transeuntes, sinal vermelho. Paro e espero a minha vez de avançar. Seguro as sacolas de compras e a mochila nas costas. Olho para a rua, e nada de carro. Nadica de nada. Mesmo assim espero o sinal ficar verde. Quando aparece o bonequinho caminhando, lá me vou em frente. E segundos depois, quase sou atropelado por um carro, que passa veloz o sinal verde, como se não houvesse amanhã. Putz. No reflexo, dou uma voadora e acerto a parte traseira do carro com o pé direito. O carro segue alguns metros e o motorista freia. Puta que pariu, penso. O cara vai voltar e me dar um tiro nas fuças. E lá vem o carro, de ré, em minha direção. O motorista para do meu lado e o gordinho que está no volante põe a cara para fora. "Ô magrão, tu tá louco? Chutou o meu carro!", berra ele. Aí eu desperto do susto. "Louco, eu? Velho, tu passou o sinal verd...

"Pedra"

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Chove para caramba, e estou na parada de ônibus, me protegendo da água, que cai em diagonal. Nisto olho pro lado e vejo uma senhora caminhando em minha direção, a mão esquerda fechada. Ela segura algo, que não consigo visualizar de longe. Já próxima de mim, ela vai falando algo e vejo que carrega uma enorme pedra. Puta que pariu, serei agredido pela mulher. Tiro os fones de ouvido e me preparando pro golpe, quando ela diz: "Meu rapaz, tu viu o que estou carregando?" "Sim, uma pedra". "Pois é, com esta chuva decidi pegar esta pedra para me defender destes carros que passam e fazem questão de jogar água na gente", diz ela. "Aí quando eles vem vindo, já mostro a pedra e eles desaceleram. Claro que não jogarei uma pedra no vidro, mas dá uma vontade enorme". Olho pra ela e confesso que já pensei em fazer isso, mas eu jogaria a pedra. Não ficaria só na ameaça, mas nunca cheguei a pegar uma pedra no chão para me proteger. "Bem, meu filho, um bom ...

"Eleições"

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Em 1994 trabalhei nas eleições para governador e presidente. Bem, sempre fui da ideia de que não se pode dar poder a quem não sabe lidar com ela. E foi o que aconteceu com a presidente de mesa onde fui mesário. Logo ao chegar na sessão eleitoral às seis e meia da manhã, veio uma pirralha cagando ordens. "Fulano, você senta lá", "sicrano, você fica ali", "etc, etc". "O que eu faço?", pergunto. "Ah, tu pode sentar ali", disse a guria, apontando uma mesinha, sem nada em cima. Sentei e fiquei ali esperando começarem os trabalhos. Às oito horas começaram a votação e nada de eu ser chamado para fazer algo. Duas horas depois, lá estava eu, na minha mesinha, e nada, nada. E ela berrando com os outros mesários, cagando regras e ordens. "Então, no que posso ajudar?", pergunto. "Fica aí", ordenou a guria. Meio-dia, ela me olha, e diz: "Cara, tu pode ir almoçar agora. Mas volta em uma hora, viu?", ordena. "Ah, ...

"Mesário"

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Estamos em 2002. Estou em casa numa terça-feira, por volta das 22h, quando toca o interfone. Atendo e do outro lado da linha, escuto: "É o carteiro". Ué, o que desejaria um carteiro àquela hora da noite? Um golpe, seria assalto? Não libero a entrada do cara no prédio e desço a portaria. E quando chego no térreo, vejo mesmo um carteiro do lado de fora. Abro a porta para ele. "Sim?", pergunto. Ele me passa um envelope e a prancheta com um papel para assinar. "O que é?", questiono. "É do TRE". Então verifico que estou sendo convocado para trabalhar de mesário nas eleições. E simplesmente me recuso a assinar o papel e devolvo o envelope. Ah, não, brincadeira. Mais uma vez. Desde 1990 me pegavam para trabalhar de mesário e eu estava de saco cheio. "Mas o senhor tem de assinar", insiste o carteiro. "Não, não", digo. Ele pega os papéis, coloca na bolsa e escreve algo no papel que me recusei a assinar. E vai embora. Duas semanas de...

"Prêmio"

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Recebo um torpedo da Vivo, informando que eu ganhei R$ 45 mil pela recarga premiada. Então devo ligar para o número indicado na mensagem ou mandar um torpedo com a senha informada. Mando um torpedo com a senha e dois minutos depois recebo uma ligação. "Bom dia, senhor", diz a voz do outro lado da linha. "Bom dia", respondo. "Meu nome é Marcelo Monte Novaes e sou gerente da Vivo. Estou entrando em contato com o senhor, informando que o senhor é o ganhador de R$ 45 mil. Parabéns", diz o interlocutor. "Ah, tá", respondo, sem entusiasmo. "Para receber o valor, vamos fazer alguns procedimentos. Tudo bem?", avisa o Marcelo. "Tudo bem", respondo. Então ele pergunta meu nome completo, e logo em seguida diz "que é uma mensagem séria. Isso não é um trote, viu, senhor Francisco. O senhor pode agora anotar alguns dados?". Digo que sim e anoto o que ele vai falando. Seu nome completo, seu cargo na Vivo, o endereço da loja, em Sã...

Grávida

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Venho pela Rua da Praia em direção ao jornal, quando em frente a Livraria Saraiva vejo uma mulher fumando. Até aí tudo bem, só que ao chegar mais perto noto que ela está grávida. Então paro e fico olhando para ela, com certo olhar de reprovação. A mulher vê a minha cara de espanto e dispara: “O que foi?”. “Tu está grávida e está fumando”, respondo. “E o que tu tem a ver com isto?”, replica a mulher. “Ora, tu está grávida...”, repito. “Cara, vai cuidar da tua vida. Não te mete”, grita ela, e os passantes olham, meio que indignados, aquela cena às três da tarde de um dia de semana. “Baita consciência a tua, hein...”, digo. Sem ter mais o que falar, ela apenas põe a língua para fora e depois aponta o dedo médio, me mandando tomar naquele lugar. Só consigo dizer: “Beleza, belo exemplo de mãe”, e retomo a minha caminhada pro Correio do Povo.

“Estereótipo”

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Estou eu e meu amigo Jaime Martins na fila do crediário da Paquetá, lá por 1992, 93, esperando pelo atendimento. No alto-falante está tocando Fágner, e a gente fica tirando sarro da letra da música, “de corno”, dizemos. Na nossa frente, três carinhas, loiros, conversam sobre futebol. E um deles solta a pérola: “Gente, vocês já viram gremista negro? Eu nunca vi, isso não existe, e se existir, está errado”, diz. Os outros dois concordam. “Realmente, negros devem ser colorados”. O alemão Jaime me olha com olhos arregalados. Eu dou um tapinha no cara que fez a pergunta. Ele me encara. “Sim?”. “Cara, eu sou negro e sou gremista. Aliás, toda a minha família”, digo. Ele me olha com uma cara de desaprovação, mas não por eu ser negro e gremista, descobrirei em seguida. “Tsc, tsc...cara, tu não é negro, tsc, tsc, tu é café com leite, pardo, mas negro tu não é”, fala o carinha. “Não, cara, sou negro!”, repito. “Bah, cara, tu não é”, reafirma ele. “Mas pelo menos eu posso ser gremista?”, pergunt...

“Cigarro”

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Nunca gostei de cigarro, já contei isso aqui. Até deixei uma namorada sozinha num bar uma vez, ao vê-la acender um cigarro. Então há uns 30 anos estava em Gramado, desci o Caracol, subi, almocei e me estirei no gramado em frente ao restaurante. Do meu lado um rádio-gravador daqueles grandões, emprestado pelo Alemão Sérgio, e no toca-fitas rolando um heavy metal. Eu pus os fones, fechei os olhos e estou lá curtindo o Accept. De repente sinto um forte cheiro de cigarro vindo em minha direção. Abro os olhos e tem um carinha sentado bem do meu lado, fumando. “Pô, cara, tu poderia fazer o favor de fumar noutro lugar?”, peço, educadamente. O carinha me olha, e solta uma baforada na minha cara. “Não!”, responde ele. “Bah, na boa, olha o espaço livre para tu fumar, e tu vem fazer isso do meu lado. Sacanagem, né!”, digo. “Véio, tá te incomodando? Sai fora”, dispara. “Porra, cara, eu cheguei antes e tou de paz aqui”, retruco. E o que faz o fumante? Levanta e chuta o rádio, que voa longe, solta...

“Assalto”

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Saio de um show no Opinião, lá pela uma e meia da manhã, isso em 2004, e vou caminhando em direção a Perimetral pegar qualquer ônibus ou lotação que venha para a zona sul. Chego na parada, bem em frente a Praça Zumbi dos Palmares. Comigo mais umas seis ou sete pessoas que também estavam no show. Duas delas sentam no cordão da calçada, e ficamos tentando adivinhar quando vai aparecer uma condução. Nisso chegam três carinhas vindo dos Açorianos, e cada um fica numa ponta da parada. Acho tudo aquilo muito estranho. Eles se olham, e eu observando, e fazem sinais com a cabeça. Então um deles põe a mão dentro da mochila. Putz, eu saco. Eles vão assaltar a galera. Mas como avisar o pessoal sem criar tumulto? Acabo fazendo uma coisa meio egoísta, simplesmente saio correndo em direção ao outro lado da rua. Quando chego na praça, olho para trás e vejo o carinha que tinha colocado a mão na mochila puxar uma arma e apontar para o pessoal. Em segundos, os três limpam todo mundo. Carteiras, celula...

“Vaga”

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1994. Eu estava no Correio do Povo há uns três, quatro meses, e quase todos os dias subia na rádio Guaíba para trocar figurinhas com o pessoal do esporte, o Haroldinho, o Vidarte, o Denis Olinto. Então numa sexta-feira, lá vou eu escalando as escadas, atravessando o corredor para chegar na sala no fundo do corredor, onde a galera ficava à época. E ao passar pela redação de jornalismo, a Eliane do Canto me chama. “Rapaz, preciso falar contigo”. Eu paro. “Sim?”. “Tu trabalha no jornal, né?”, pergunta a então chefe de jornalismo da rádio. “Sim”. “Bem, tu queres trabalhar aqui na rádio?”. Puxa, ela leu meus pensamentos. Eu queria mesmo uma vaga na rádio. Se não fosse no esporte, tudo bem, topava o jornalismo. “Claro que quero. Puxa, legal. Qual a vaga?”, questiono. “É para redator, do meio-dia às cinco da tarde”. Topo na hora. Só preciso fazer os exames médicos necessários e começo e seguida. Feliz da vida, volto pra redação do CP e encontro um colega que trabalhava também na rádio, igual...