Existe um ditado que decreta: "azar no amor, sorte no jogo". Pois às vezes isto é muito verdadeiro. Em 2005, tomei um violento chute na bunda de uma namorada, que me deixou completamente fora de área por mais de um ano. Como não fiz nada durante um tempo, de licença médica, ou ficava em casa, dormindo, ou saia a caminhar pelas ruas da zona sul, sem rumo. Uma tarde caminhando, meto a mão nos bolsos, e descubro umas notas de um real amassadas. Bem na hora passava em frente a uma lotérica. Então decido entrar e fazer uma fezinha. Afinal, não tinha nada a perder. Entro na fila, que vai andando devagar, e de repente olho para o chão, e o que vejo? Uma pilha de notas de dez reais. Abaixo e as pego. Uns cem reais. Pergunto, ingenuamente, se era de alguém, mas ninguém se apresenta. Tudo bem, coloco a grana no bolso, e faço uma aposta simples. No dia seguinte, vou verificar o jogo. E quase tenho um ataque cardíaco. Acerto o primeiro número, acerto o segundo, acerto o terceiro...começo a suar frio, e acerto o quarto...meu deus, faltam só dois números e já me vejo milionário, e esfregando a grana na cara de minha ex-namorada. Só que não passo da quadra. Mas já dava uma graninha. Ao invés de gastar comigo os 500 reais, compro presentes pra guria...um coração de chocolate de 200 reais da Kopenhagen, um imenso buquê de rosas vermelhas e uma camisa preta do Nightwish. Ela nem agradece os mimos. Aliás, deve ter jogado no lixo depois que entreguei os presentes pessoalmente para ela.
Guaibadas é uma homenagem a Porto Alegre e o rio/lago que o circunda, cidade em que se passa a maioria das histórias que vou contar aqui. Histórias que aconteceram comigo, com amigos e amigas, com conhecidos e desconhecidos. Alguns causos são hilários, outros apenas divertidos, muitos são tristes, outros não tem nada de especial, mas mesmo assim devem ganhar a luz do dia. Enfim, um olhar sobre o porto-alegrense e suas loucuras.
sábado, 1 de junho de 2013
"Mega-Sena"
Existe um ditado que decreta: "azar no amor, sorte no jogo". Pois às vezes isto é muito verdadeiro. Em 2005, tomei um violento chute na bunda de uma namorada, que me deixou completamente fora de área por mais de um ano. Como não fiz nada durante um tempo, de licença médica, ou ficava em casa, dormindo, ou saia a caminhar pelas ruas da zona sul, sem rumo. Uma tarde caminhando, meto a mão nos bolsos, e descubro umas notas de um real amassadas. Bem na hora passava em frente a uma lotérica. Então decido entrar e fazer uma fezinha. Afinal, não tinha nada a perder. Entro na fila, que vai andando devagar, e de repente olho para o chão, e o que vejo? Uma pilha de notas de dez reais. Abaixo e as pego. Uns cem reais. Pergunto, ingenuamente, se era de alguém, mas ninguém se apresenta. Tudo bem, coloco a grana no bolso, e faço uma aposta simples. No dia seguinte, vou verificar o jogo. E quase tenho um ataque cardíaco. Acerto o primeiro número, acerto o segundo, acerto o terceiro...começo a suar frio, e acerto o quarto...meu deus, faltam só dois números e já me vejo milionário, e esfregando a grana na cara de minha ex-namorada. Só que não passo da quadra. Mas já dava uma graninha. Ao invés de gastar comigo os 500 reais, compro presentes pra guria...um coração de chocolate de 200 reais da Kopenhagen, um imenso buquê de rosas vermelhas e uma camisa preta do Nightwish. Ela nem agradece os mimos. Aliás, deve ter jogado no lixo depois que entreguei os presentes pessoalmente para ela.
"Tattoo"
Carrego comigo sete tatuagens, e tomando coragem e juntando grana pra fazer mais umas duas. O desejo de marcar o corpo era antigo, mas o perigo de não conseguir emprego e ser estigmatizado foram impedindo. Além do que, desde criança eu escutava os meus pais falando que tatuagem era coisa de marginal. A coragem veio numa noite fria de inverno em 2000, junto com uma amiga, que meses depois viraria namorada. Estávamos na casa de uma amiga em comum, tomando um vinho, quando uma das gurias disse: “Vamos fazer uma tatuagem?”. E não foi coisa de bêbados, não. Foi bem pensado. Era sábado, dez da noite. Onde encontrar um tatuador àquela hora? Fomos procurar no guia telefônico, aqueles grossos, amarelos, hoje uma coisa anacrônica. Encontramos e ligamos prum tal de Elias Tattoo. Ele nos atenderia dentro de uma danceteria lá perto da 24 de Outubro. Nos tocamos prá lá. Minha ex-namorada fez uma tribal no cóccix, e eu homenageei a banda que me iniciou no rock’n’roll, os Rolling Stones, com a língua desenhada no ombro direito. Engraçada foi a reação de minha mãe, dona Flora. Claro que não contei para ela que agora era um “marginal”, “ex-presidiário”. Ela estava em minha casa, e saio do banheiro sem camisa e sento no sofá, quando noto o olhar dela para mim. “Mãe, o que foi?”. “Filho, o que é isto no teu ombro?”, pergunta ela, apontando pra língua dos Stones. “Ah, é a tatuagem dos Stones”. “Estô o quê?”, continua ela, passando a língua no dedo indicador, e deslizando ele na tatuagem. “Filho, isto sai, né?”, diz, esfregando com força minha pele, começando a se desesperar. “Não, mãe, não sairá nunca mais”, aviso. Ela leva a mão direita à testa, e exclama: “Meu filho, não acredito, que vergonha, que vergonha. Tu, um jornalista...o que as pessoas vão pensar? Tu parece um presidiário”, afirma. “Mas a tua namorada não fez isto, né?”. Quando digo que a minha namorada também tatuou-se, ela decreta: “Ah, meu Deus do Céu, a guria vai parecer uma prostituta”, conclui.
"Macaco"
Aula do Jornalismo Aplicado da Zero Hora/RBS, em 1995. A jornalista e professora Eunice Jacques nos informa que em uma semana iremos começar a preparar o jornal experimental do curso, e vai perguntado a cada aluno como ele irá assinar seu nome dali em diante. À época eu já tinha uns quatro anos trabalhando na Imprensa, entre Band AM, Ipanema FM, Rádio Guaíba, Correio do Povo, Placar, e já era conhecido como Chico Izidro. Mas claro que iria sobrar pra mim, né? Ao meu lado a Alessandra Corrêa e o Jaime Silva. Chega a minha vez. E a Eunice: “Como tu vai assinar tuas matérias?”. “Bem, eu já assino como Chico Izidro nos outros veículos que trabalhei”. “Bom, apaga tudo o que você viveu. Agora é uma coisa séria”, ataca ela. “Além do mais, Chico é nome de macaco”, agride. A sala fica em silêncio. Por aquela eu não esperava, e nem tenho tempo de reagir. Se fosse hoje, eu pulava no pescoço dela, e depois metia um processo. Nem consegui lembrar do Xico Sá, do Chico Pinheiro, Chico Lang...a minha reação foi a de simplesmente abandonar o curso por duas semanas, frustrado com aquela atitude. Só voltei e finalizar mal e porcamente o curso porque o Jaime foi lá em casa – na época eu morava na João Alfredo – e me convenceu a voltar e terminar as aulas pra pegar o diploma.
"Braço"
O Rogério Grilo guardava o carro numa garagem na Independência. O guardador não tinha o braço esquerdo, mas mesmo assim era um exímio motorista. O Grilo dava as chaves pro carinha, que conseguia fazer as manobras somente com a mão direita e uma parte do cotoco esquerdo. Rapidamente, o velhinho estacionava o veículo no box, sem nenhum arranhão. Aliás, sem nenhuma dificuldade. E isso deixava o Grilo encucado e enciumado. E ele decidiu que não perderia pro guardador. Um dia, quando chegou para guardar seu possante, recusou a ajuda do guardador, que deu de ombros. “Eu também consigo manobrar”, garantiu o Grilo, acelerando e na maior dificuldade, conseguiu colocar o carro de primeira no box. Vitorioso, saiu do veículo, e esbravejou: “Viu, não precisava, pois aqui tem braço”, batendo com o punho esquerdo na batata do antebraço direito. Na hora se tocou da gafe. O Grilo não quis dizer dizer que ele não era maneta como o outro, mas que também tinha tanta força quanto o guardador. Não adiantou. Passou a ser visto como o cara mais grosseiro e antipático do pedaço.
sexta-feira, 31 de maio de 2013
“Coleguinha”
Estou na redação do Correio do Povo, quatro da tarde, levanto a cabeça e vejo uma coleguinha me encarar pela quinta vez em dois dias. Ela abre um sorriso tímido. Baixo de novo a cabeça. Uns dez minutos depois, a cena se repete. Não tenho dúvidas. Pego o telefone e ligo pro ramal dela. “Me encontre lá na Casa de Cultura em dez minutos. Vamos tomar um café”. Na mesma hora, a guria levanta e sai...para meu espanto. Ela passa por mim, dá uma piscada e sai da redação. Eu espero uns minutos e vou atrás. Quando chego ali em frente à Casa de Cultura, a guria já está me esperando. Em silêncio pegamos o elevador e vamos ao Café Concerto, no sétimo andar. O silêncio continua imperando, até fazermos o pedido. O garçom sai para buscar os cafés. “E então?”, digo. “Então”, repete ela. “Aqueles olhares...”, continuo, para um segundo depois, a guria enfiar a língua na minha garganta. “Eu tenho namorada...”, tento dizer, antes de me entregar ao desejo. Pelo menos conseguimos tomar o café, antes de descer os sete andares pelas escadas, num violento amasso, que só terminaria seis meses depois, quando decidi focar apenas na minha namorada oficial, e passar mais seis meses sendo jurado de morte.
"As coxas"
Indico uma namorada para trabalhar na redação da Rádio Guaíba, mas para evitar comentários desnecessários dos colegas, a gente combina de não revelar que somos um casal. A guria entra no mesmo turno em que estou, e a gente nem se fala. Esperamos acabar o serviço, e se encontra na Casa de Cultura pra trocar uns beijos e amassos, antes que eu volte pro turno no Correio do Povo. À época, as meninas usavam aqueles vestidinhos pretos, que mal chegavam nos joelhos, acho que chamavam de tubinho, e ela tinha umas coxas deliciosas. Aí o que acontece? Estou no corredor da rádio tomando um café, quando o Ricardo Vidarte, então repórter do esporte, me pega pelo braço. “Tu já viu a gostosa que tá trabalhando ali no jornalismo?”, pergunta ele. “Não, cara”, respondo. “Então vem cá”, manda ele, me puxando. A gente chega na sala, ele aponta discretamente a minha namorada, e sussurra baixinho no meu ouvido. “Olha só, que coxas, que bunda, eu até batia uma punheta praquela gostosa”, diz. Não poderia perder aquele momento. “Vidarte, o quê?”, peço pra ele repetir. E ele repete. “Vidarte, aquela guria é a minha namorada”. O Vidarte, ao invés de ficar constrangido, só diz: “Cara, me desculpe, mas parabéns”, antes de se mandar. Quando conto a história pra minha namorada, ela fica furiosa. “Como assim, o cara fala isso e tu não faz nada?”. “Amor, ele te elogiou. Pior se ele chega e me pergunta quem é aquele dragão...fiquei orgulhoso”, analiso, para ver a guria ficar de beiço por uns dois dias.
“Toc”
Todo mundo tem algum tipo de toc, todo mundo. Mesmo que seja mínimo. Fica nervoso ao ver um armário aberto, não sossega enquanto não tira aquele fio de cabelo no ombro do casaco de alguém, olha mil vezes se desligou o gás ou apagou a luz, lava a mão mil vezes por dia. Então lá estou eu, sentado na redação, plantãozinho, a Folha de S. Paulo de domingo do meu lado, intocada. Então um colega chega do nada, pega o jornal, separa a Ilustríssima, e diz que já me devolve...não tenho tempo de dizer não. E quase tenho um ataque cardíaco, pois não gosto de pegar jornal e revistas folheados, a menos que EU tenha folheado eles. Só deixo passar porque é um colega querido, e fico com vergonha de revelar meu toc. O colega se afasta, senta no lugar dele e fica folheando o jornal, e eu ali, bisoiando, torcendo para que a FSP não seja amassada. Dez minutos depois, o colega devolve o caderno, e o pego nervoso, torcendo para estarem pelo menos com as folhas alinhadas. Em vão, para aumentar minha taquicardia, e descartar o jornal sem ler. Cada um com suas manias. Como os que têm mania de dar palpite em tudo na vida dos outros.
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