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Mostrando postagens de 2013

“Fogo”

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Criança é foda. Lá estou eu com meus 7, 8 anos de idade, sozinho em casa, após ter chegado da escola. Já almocei, fiz os temas, e assim pude ligar a televisão para assistir os desenhos animados que passavam na década de 1970. E naquela tarde decidi brincar de cientista, não me perguntem porque. Pego uma bacia, encho de pedras e as banho com álcool. Logo em seguida pego um fósforo e acendo, para ouvir e ver uma explosão na bacia. Dou um pulo tentando me afastar das chamas, mas noto um calor se espalhando pelo meu corpo. Então vejo meu braço direito envolto em chamas. Minha nossa, estou pegando fogo! Corro para a pia, abro a torneira e deixo a água escorrer pelo meu braço, apagando o fogo. Fico ali tremendo, apavorado. Horas depois, o pai e a mãe chegam em casa, e perguntam se tudo correu bem durante a tarde. “Claro, claro”, respondo, sem muita convicção. “Por que tu está gaguejando?”, pergunta a mãe, desconfiada. “Nada, nada”, respondo, mas passo as duas próximas semanas achando que o...

“Demissão”

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Em 1991 consegui meu primeiro emprego na grande imprensa, como produtor na rádio Bandeirantes AM, nos programas do Paulo Solano e do Gilberto Gianuca. Eram programas essencialmente sobre política e eu tinha de preparar pautas e colocar no ar vereadores, deputados, senadores, todas as manhãs. Era uma doideira. Começava a correria lá pelas 6h45min e só terminava o trabalho por volta das 13h30min. Imaginem uma época em que não havia celulares. Então tinha de combinar com os políticos para eles estarem em suas casas ou gabinetes na hora que eu ligasse para irem ao ar, nas entrevistas com os dois apresentadores. Nos intervalos dos programas, eu atravessava o corredor e ia até a Ipanema FM para me meter na programação da rádio rock. Com quase três meses de casa, fui designado para ensinar uma estagiária, a Tânia, na produção. E lá fui eu dar uma de professor. Uma semana depois, chego na rádio e a guria está sentada em meu lugar no estúdio. E nem se dá ao trabalho de levantar. Fico ali de pé...

“Tombo”

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Pré-adolescente, ganhei uma bicicleta Caloi 10 de meu pai. E sim, o presente foi para missões suícidas pelas ruas de Porto Alegre e Viamão no início da década de 1980. Costumava descer as lombas sem segurar o guidom da bike, e incrivelmente nunca me estoporei nesta manobra. Mas dois tombos foram inesquecíveis e muito, muito doloridos. No primeiro, descia uma rua em obras na Santa Isabel, em Viamão, e do outro lado vem em minha direção uma outra bicicleta. E nos chocamos. Eu voo sobre um monte de pedras, levanto e o pai do garoto da outra bicicleta vem em minha direção. “Garoto, entra no carro, precisamos ir pro hospital”, diz ele. Mas eu não quero de jeito nenhum. Afinal estou bem, menos minha bicicleta, toda torta. Até que o carinha me fala: “Guri, tu não está bem, está sangrando”, alerta. Então olho pra baixo, e sai muito sangue de minha mão direita, que foi rasgada quando voei sobre as pedras. Acabo desmaiando ao ver a sangueira, e acordo no hospital. Meu pai do meu lado, e eu leva...

“Faca”

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Nesta quarta-feira de manhã bem cedinho irei pra faca, e pra quem não entende gírias oitentistas, passarei por uma cirurgia. Nada assustador, tireóide e amígdalas. Mesmo assim, estou meio assustado, né, afinal anestesia geral e o escambau. Orientação médica: jejum completo, ou seja, nem água posso tomar nas próximas horas. E depois algumas semanas de retiro completo, e a base de papinhas, sucos, iogurte e mingau. Como as últimas oito semanas têm sido praticamente na mesma base de alimentação, com a diferença que pude comer bergamotas e outras frutas, recebo uma ligação do hospital: Senhor Francisco, como o senhor passará as próximas semanas praticamente passando fome – não foi bem isso o que a moça disse, mas foi o que escutei -, antes de começar o jejum pré-cirurgia, por favor, está liberado para comer o que quiser. Aí lembro que a Olívia me disse na terça-feira à tarde: “Chico, como tu só vai ver comida sólida daqui a 15, 20 dias, vai pra casa e pede uma pizza e toma um vinho bem g...

“Quando brota o amor”

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Quando criança, lá pelos 7, 8 anos, chegava em casa após o colégio, e sozinho, só podia assistir televisão após almoçar e fazer os temas de casa. Obedecia só de medo no que poderia acontecer se a mãe e o pai chegassem em casa no começo da noite e descobrissem que eu não fizer o que eles haviam me determinado. A tevê era a minha babá eletrônica, e numa tarde de poucos deveres, estava sendo transmitido pela TV Difusora, atual Band, um filme que me marcou para sempre: “Quando brota o amor”, ou no original “Melody”, que também é o nome da música tema, dos BeeGees, antes da famigerada fase discoteca. O filme é de 1971. E a história é a seguinte: duas crianças de 10 anos, Melody e Daniel, se conhecem numa escola de Londres e apaixonam-se. Como os adultos não aceitam aquele romance infantil, os dois decidem fugir. E enquanto confabulam, sonham com o amor eterno. E viver juntos para todo o sempre, de terem filhos, de dividirem as alegrias e tristezas, de nunca magoar um ao outro. E sem querer...

"Dedo"

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No começo de 1988, fiquei desempregado e sem como me manter na república onde morava na Duque de Caxias e ainda por cima cursando o terceiro semestre da faculdade de jornalismo na Unisinos. Meu pai morreu no começo de março e a mesada que ele me dava, evidente, terminou. O jeito foi voltar a morar na casa da mãe, em Viamão, muito a contragosto. Era terrível ficar pedindo grana toda hora pra mãe. Então comecei a procurar emprego, e uma amiga me consegue uma entrevista na multinacional em que o irmão dela era diretor. “Vai ser só um teste datilográfico, apenas pela burocracia, mas você está contratado. A mana me passou excelentes referências suas”, me garante o irmão de minha amiga por telefone na sexta-feira à tarde. O celular era ainda algo impensável, eu estava ligando de um orelhão. A entrevista é marcada para a segunda-feira à tarde, depois que eu chegasse da Unisinos. E no sábado, final de tarde, já escureceu e eu e o Marcelo Sapão estamos na parada de ônibus próxima a casa de min...

"Doente"

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Em 2005 caí numa depressão terrível, que me custaram alguns meses afastado do Correio do Povo. Tratamento psiquiátrico, isolamento social e outras mazelas. Quando comecei a sair do buraco, faço uma visita a minha amiga Eliana Camejo, cujo escritório de sua assessoria de imprensa fica a uma quadra do consultório de meu psiquiatra. Toco a campainha, ela mesma abre a porta e fica me olhando, pensando quem será aquele refugiado da Etiópia. Sim, no auge da doença, perdi 40 quilos, e a Eliana não me reconhece. "Sou eu, o Chico", digo, e ela leva um susto, me abraçando na sequência. Nas horas seguintes, a Eliana quer saber o que houve comigo, e conto tudo, tim tim por tim tim. No final da história, ela me diz: "Tu vai escrever um livro sobre isto tudo". O meu psiquiatra acha a ideia ótima, pois vai ajudar muito na recuperação. E uma sala do escritório da Eliana passa a ser minha pelos próximos dois meses, para onde me dirijo após as sessões de terapia para digitar o texto...

"Zoado"

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Definitivamente, apesar de meu tamanho e de ser negrão, e sim, muita gente se assusta com isso, não costumo meter medo nas pessoas. Volta e meia sou zoado por estranhos, seja na rua, no serviço ou em estabelecimentos comerciais. Mesmo que fique sério, tentando não rir, as pessoas não estão nem aí. Outro dia fui pegar o T-7, fazia um friozão, ventava e chovia. Subo no ônibus ali em frente ao shopping Praia de Belas e a cobradora olha pra mim, e debocha: “Tá com friozinho, hein?”. Anteontem, caminhando pela Rua da Praia, escutando meu metal pesado no Ipod, um velhinho me para, pede pra eu tirar o fone e fala: “Meu rapaz, estou escutando daqui esta tua pauleira. É como um anestésico na tua cabeça, né”, brinca ele. Nem me dou ao trabalho de responder. E então entro no elevador do prédio onde fica o escritório do meu advogado, o Joel. Dois garotinhos, de uns nove, dez anos, ficam me olhando, olhos arregalados. “O que foi?”, pergunto. “Bah, moço, o tamanho da tua testa...tu é muito cabeçudo...

“Fidel”

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O grande assunto sem importância da semana é a Playboy com o ensaio da atriz Nanda Costa, que decidiu não depilar a bacurinha para posar. As fotos remetem ao ensaio de Claudia Ohana e Vera Fisher, que também foram fotografadas pela revista sem se preocupar com a quantidade de pelos na vagina. Mas aqueles eram outros tempos e outros costumes femininos. Hoje em dia, as mulheres passam a navalha em suas partes íntimas. Então a gente está acostumado com vaginas skinheads ou bigodinho de Hitler. Ai pouco tempo atrás estava saindo com uma mulher de seus 30 e poucos anos. Na primeira vez que fomos para a cama, ela para na minha frente, e começo a tirar peça por peça de suas roupas, e chego na calcinha. E o que vejo? Bom, a menina não devia se depilar há um longo tempo. Mas longo tempo mesmo. Os pelos pubianos, em grande volume, chegavam nas coxas. E ela pede que eu coloque a língua lá embaixo. Sério. Pelo bem da nação, vamos lá. E ela ainda aperta minha cabeça no local, enquanto geme, aliás,...

“Blumenau”

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Nunca consegui trabalhar na RBS, e olha que tentei. Definitivamente não sou a cara deles, e me conformei com isso. Não sei o motivo de ter sido recusado tantas vezes, sei lá, não sou bom o suficiente para a empresa, sou um péssimo jornalista, escrevo mal, ih...são várias as especulações. Mas a pior de todas ocorreu em 1993, quando respondi a um anúncio na Zero Hora oferecendo vaga para “O Jornal de Santa Catarina”, sediado em Blumenau. Envio meu currículo e começo a esperar o retorno deles. E sou convocado para uma entrevista ali na avenida Ipiranga, uma segunda-feira, 10h da manhã. Para prevenir qualquer atraso, chego bem cedinho, 45 minutos antes, me apresento pra secretária e sento na sala de espera da entrevistadora. Quietinho. Um pouco antes das 10h uma moça entra na sala, e fica por lá. Dez horas, 10h05, 10h10, 10h15 e nada de eu ser chamado. E a tal moça sai da sala e pergunta pra secretária: “O Francisco Izidro ainda não chegou?” Eu levanto os olhos. E a secretária aponta pra ...

“Castigo”

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Por causa do hipotireodismo e do colesterol, estou vivendo uma fase de alimentação sadia, muitas frutas, carne branca, pão integral, iogurte natural. E o mínimo de doces e nada, nada de frituras e cerveja. Pois outro dia me deu uma larica ao chegar na padaria. Vejo um pacotinho de rapaduras de amendoim, mas não posso comer a iguaria. Só que aquele pacote de pé de moleque fica na minha cabeça, e à noite em casa sonho com ele. No dia seguinte, volto lá e penso: “Foda-se. Não vou morrer se comer só um pé de moleque”, e pago R$ 4,60 pelo pacotinho com umas oito rapaduras. Em casa, fico olhando pros doces por dois dias. Não posso comer, não posso comer, mas a baba segue escorrendo da boca. Lá pelas onze da noite, um filme no TCM, e eu decido: “Ah, um docinho...”. Abro o pacote, e devoro um, dois, três. Deu, chega, penso. Mas não é o suficiente, Pego um quarto doce, mordo e o amendoim se aloja no vão de um dente. Passo a língua e nada de ele sair dali. PQP. Pego um fio dental e enfio no bur...

“Amantes”

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Às vezes não resisto a uma boa sacanagem. Lá por 1991, 1992, o Jaime me encontra, e todo feliz diz estar namorando. Conheceu a menina de seus sonhos e garante estar profundamente apaixonado. “Tu precisa conhecer ela. Ela é linda, acho que vou casar com ela”, jura ele, olhinhos brilhando. Combinamos de então na sexta-feira tomar um café no Rua da Praia Shopping lá pelas sete da noite, para ele me apresentar a menina dos sonhos. E no dia combinado, cai a maior água em Porto Alegre, mas não é isso que vai nos impedir. Estou lá, sentadinho no café e ele chega de mão dada com uma menina de cabelos bem curtinhos. “Chico, esta é a Cláudia”, apresenta o Jaime. Olho praquela guria e tenho a impressão de que a conheço. Mas daonde? Bem, pedimos capuccinos, e enquanto esperamos sermos servidos, vamos nos apresentando. E de repente recordo. “Tu por acaso não é a filha do seu Cizinho e da dona Cleci?”, pergunto. A Cláudia me olha: “Sim. Tu também não me é estranho”, diz ela, “É que tua mãe é a melh...

“Esmola”

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Estagiário no Juizado de Menores nos anos 1980, encontro um colega furioso ao entrar no prédio, que ficava na Coronel Vicente. “O que foi?”, pergunto. “Um rapaz pediu dinheiro para fazer um lanche, pois estava com fome”, me conta ele. “Mas como não dou dinheiro de jeito nenhum para pedintes, disse que lhe pagaria um lanche”, continua. Escuto atentamente. “E...” “Bem, vou ali na lancheria, peço que façam um xis, e entrego pro rapaz. Ele pega o lanche, caminha uns 10 metros e atira a comida numa lixeira, e sai correndo, me mandando tomar no cu”, completa. “Se já não dava dinheiro, agora nem comida darei mais”, garante meu antigo colega. Fico com aquilo na minha cabeça. Anos depois, eu e a Beth caminhamos no Centro quase vazio, é um domingo à tarde. Ela está me levando até o jornal. E na Borges de Medeiros dois mendigos deitados em frente a Loja Paquetá. Um deles estica o pescoço no meio de todas aquelas tralhas que costumam carregar, e pergunta, até de forma educada: “Com licença, descu...

“Bocaberta”

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Desço do ônibus, coloco a mão no bolso da calça para pegar minhas chaves, e elas não estão lá. Calma, calma, calma. Procuro nos bolsos do casaco, da camisa, e nada. Ponho a mochila no chão e começo a revirar cada centímetro dela, e nada. PQP. Perdi as chaves e não tenho como entrar em casa. Sim, o gênio não possui cópia. Nisso vem passando o carteiro e o pai da Carol, o Giba. “Giba, abre o portão pra mim que perdi minha chave”, digo. O carteiro me olha, e avisa: “O síndico estava com umas chaves aí no pátio”. Bah, será que serão as minhas chaves? Entro no prédio e vou procurar o seu Nelson. E lá vem ele. “Seu Nelson, o senhor por acaso não encontrou umas chaves?”. “Olha, achei, mas toquei fora”, sacaneia ele. “Já entendi, seu Nelson, é porque tem um chaveiro do Grêmio, né?”, digo. “Olha, não quis dizer nada, mas não queria ser encontrado com drogas”, continua sacaneando ele, me entregando as chaves. “Elas estavam no portão da entrada. Tu abriu o portão, deixou elas lá e se mandou, né?...

“Escapada”

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Há muito, muito tempo atrás consegui sair com uma loirinha linda, uns três anos mais velha do que eu. Ela tinha 19 e eu 16 anos, e fomos jantar no Chalé da Praça XV, antes da reforma que o modernizou. Sexta-feira à noite, e ela chega, elegante, cheirosa. É a terceira vez que nos encontramos, e as coisas estão começando a ficar sérias entre nós. Puxo a cadeira para ela sentar, tal qual meu pai me ensinou. Ela senta, pedimos o cardápio e começamos a estudar o que pedir. Antes de comermos algo, peço dois refris. Eles chegam, o garçom serve nossos copos, e a menina abre a bolsa e tira de lá uma carteira de Marlboro. “O que é isso?”, pergunto, já sabendo a resposta, né, dã. “Ué, meu cigarro”, responde ela, acendendo um, e soltando a fumaça na minha direção. “Mas desde quanto tu fuma?”, continuo. “Desde sempre, acho que desde os 13, 14 anos...” Eu não consigo disfarçar meu descontentamento. “A gente já saiu umas vezes e eu nem imaginava”, lamento. “Bah, Chico, é que no começo eu fiquei meio...

“Pão”

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Chovia torrencialmente naquela noite de sábado lá em meados dos anos 1970. A tia Marlene faz uns bolinhos de chuva e serve para mim e minha prima Maria do Carmo junto com chocolate quente. A Maria do Carmo, no entanto, recusa os bolinhos. Ela quer pão. “Maria, não tem pão, come um bolinho”, diz minha tia. “Não, eu quero pão”, insiste a menina. Naquela época o bairro Cristal não é como hoje, com padarias, shopping. A nossa rua, a Campos Velho, mal era asfaltada. O único mercadinho na rua já estava fechado, estava escuro, a chuva castigava, ventava. E a Maria do Carmo chorando, pois queria comer pão. O tio Vandir, sósia do Kadaffi, sai à rua para tentar encontrar o maldito pão. Passa meia-hora, uma hora, uma hora e meia, e aparece o tio, o guarda-chuva arrebentado, ele todo molhado, mas traz numa sacola o pão de meio-quilo. Coloca na mesa. A tia Marlene desembrulha o alimento e começa a cortá-lo. E a Maria do Carmo: “Não quero mais, perdi a vontade”. Eu nunca havia visto a minha tia Mar...

"Briga"

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Naquela época não muito distante, os fumantes ainda eram permitidos no Bar Opinião. Anos 1990. Uma guria de pé, toda arrumadinha, enfim uma Patricinha, está conversando com as amigas, todas próxima as mesas. Estou a alguns metros, tomando minha cervejinha, observando o ambiente, admirando o mulheril. E a guria mexe os braços, conta algo, entusiasmada e encosta perigosamente em uma mesa, onde outra menina, sentada, segura o cigarro com a mão direita acima da cabeça. E o cigarro acaba encostando na Patricinha, e começa a queimar um de seus braços. “Ui”, geme ela, olhando para ver o que lhe provocou a dor. E encara a fumante com raiva. “O que foi, minha filha? Ninguém mandou tu vir pra cima da minha mesa”, provoca a fumante. Na sua mesa, copos de cerveja e uma garrafa. A Patricinha não pensa duas vezes. Pega um dos copos, que está cheio de cerveja: “Vagabunda”, grita, jogando a cerveja na cara da guria que está sentada. E esta não perdoa: “Sua puta”. E no segundo seguinte, as duas estão ...

“Maratona”

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Nesta semana acompanhei a maratona da Maressah e da Aline na TV Ulbra, trabalhando direto mais de 30 horas. Nossa. Então recordo uma vez que decidi ver quanto tempo conseguiria me manter acordado, sem dormir um segundo. Eram os anos 1980 e eu estava na faculdade, passava as noites de sexta no Opinião, que ainda era um espaço tri-pequeno e aos sábados, quando sobrava uns trocados ia à Chuca comer pizza, dezenas de pedaços. Comecei a maratona na quinta-feira, logo após chegar das aulas na Unisinos. O destino foi um boteco na Osvaldo Aranha, os bares fechavam lá pelas seis, sete da manhã. De lá vou para a república onde morava na Duque de Caxias, banho, um gole de café preto, um pão com margarina, e de volta pra São Leopoldo. Na volta, direto pro Juizado de Menores, onde cumpria seis horas de trabalho no arquivo processual. Na saída, fui ao cinema assistir a um documentário do AC/DC no Cine Sesc, ali na Alberto Bins. O corpo ainda não reclamava cansaço, então fui ao Opinião. Para não que...

“Verdade”

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Recém vivendo meu primeiro relacionamento mais sério. Estamos em casa, eu e minha namorada, sábado à noite, e a ideia é sair para dançar numa danceteria que na Cidade Baixa. Estou pronto há “horas”, sentado no sofá, vendo alguma coisa na televisão e nada de a minha guria ficar pronta. Com a comodidade natural, acabamos ganhando alguns quilos a mais. E finalmente lá vem ela, saindo do banheiro, longos cabelos negros, batom vermelho e envolta naqueles vestidinhos pretos tão comuns naquele período, acho que chamavam de tubinho. “Amor, estou bem?”, pergunta ela. Os meus olhos apaixonados confirmam. Ela está muito bem. “Mas tu não acha que eu estou um pouquinho cheinha?”, pergunta inocentemente. Eu fico olhando, olhando e falo, sem meias palavras. “Ah, amor, tu está com uma barriguinha”, digo, olhando para uma leve pancinha sob o vestido preto dela. Deu. “Tu me chamou de gorda, eu estou gorda?”, grita. “Não, não, só disse que tu está com uma barriguinha”, repito, merecendo ser chicoteado. ...

“Torcedor”

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O Ribeiro era um operador de áudio da Rádio Guaíba sem muitos freios na língua. Falava o que estava pensando e que o mundo se danasse. Pois em meados da década de 1990 foi designado para cobrir um jogo do Inter contra o Goiás no Serra Dourada, em Goiânia. E naquela época o Verdão do Planalto Central costumava derrotar sem dó e piedade a Dupla Gre-Nal. Tanto que viraram um clássico as narrações do Marco Antônio Pereira quando o Tricolor ou o Colorado iam jogar lá. “É do Goiáaaaaaaaaaaaasssssss”, cansou de narrar o Papagaio naqueles anos. Pois é a vez de o Inter jogar em Goiânia, e o Ribeiro está lá atrás da goleira dos vermelhinhos, e eles levam um gol. O operador era gremista doente, e não se segura, pulando e socando o ar ao comemorar um gol dos goianos. Só que a partida está sendo transmitida para Porto Alegre, e o diretor-geral da Guaíba e do Correio do Povo é colorado doente, e está na sala do Telmo assistindo a derrota de seu time. E fica muito, mas muito furioso ao ver seu func...

“Traidor"

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Lá por 1997, 98, o Possas foi designado para cobrir um jogo de futsal em Pelotas, sua terra natal, pela Rádio Guaíba. Era um sábado à noite, e ele estava acompanhado do Pelotinha e do Orestes de Andrade. Um dos times era o Inter, que vivia o auge com a parceria com a Ulbra. E o Adinho atrás de uma das goleiras, encostado na rede de proteção da quadra, e o juiz dá pênalti para o time porto-alegrense. A torcida da casa protesta, vaia, xinga, e o Possas é chamado para dar seu depoimento. “Sem dúvida, foi pênalti. O árbitro foi correto”, garante. Deu. A torcida da casa começa a berrar contra o repórter da Guaíba. “Seu vendido, foi pra Capital e virou isso aí”. “Filho de uma égua”. “Burro”, berram os torcedores. O Possas, esquentadinho por natureza, manda um sinal com o dedo médio para eles, e só piora a situação. “Não retiro uma palavra do que disse”, enche a voz no microfone da Guaíba. “Filho da puta, filho da puta”, berram seus conterrâneos. “Traidor”, berra um carinha, atrás dele, enc...

“Te vira”

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Nos meus tempos de DJ, em que muitas vezes o pagamento que recebia era uma garrafa de Coca-Cola, uns negrinhos, uns cachorros-quente e um pedaço de torta, desde que não fosse de coco, um colega pediu que eu colocasse som em seu aniversário de 18 anos. Sem problema, disse. E como desde sempre fui um sem carro, eu necessitava de caronas para levar o equipamento de som e os discos, que tenho até hoje. O pessoal que solicitava meus trabalhos, e tinha gente de Gravataí, Viamão, Porto Alegre, Canoas, dava um jeito de pegar o material na minha casa. Pois bem, foi a única exigência que fiz ao aniversariante. E a resposta que recebo em troca: “Ah, cara, te vira. Só esteja no clube lá pelas oito da noite”. Ouvi aquilo como se levasse uma facada. Putz, nem um “ah, pago o táxi, peço pra alguém pegar o som e os discos na tua casa, nada. Só um te vira”. Tudo bem. Chega a data da festa. E eu me viro mesmo, na cama, de um lado para o outro. Fico vendo Primeira Exibição na Globo, bem tranquilo, nada d...

“Atração Fatal Parte II”

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“Esta tua colega não sabe que tu é uma pessoa comprometida? Que ela não pode ficar ligando pra cá assim, sem mais ou menos?”, dispara a Beth. “Amor, ela só ligou para saber como estou da gripe”. “Sei, sei”, encerra desconfiada a Beth. Quando volto pro jornal, peço pra guria parar de me seguir e ligar. E ela...não obedece. O telefone começa a tocar sempre depois das 11 da noite, a gente atende e a pessoa do outro lado fica em silêncio para desligar repentinamente. Eu sei quem é, e isso me deixa com os nervos à flor da pele. Pior que já aprontei muito na vida, mas daquela vez era totalmente inocente. Então acontece. Estou em casa, sozinho, à tarde, assistindo televisão. A Beth está na casa da mãe dela. E toca a campainha. Quem pode ser? Abro e dou de cara com a minha colega, ali parada. Putaqueopariu. Como ela descobriu? “Chico, preciso falar contigo”. “Mas como tu...”, digo, abrindo a porta em seguida, afinal tenho vizinhos, e imagino se um deles vê ela ali, parada. Deixo-a entrar. Ofe...

“Praga”

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O time do Correio do Povo, batizado de Inimigos da Bola, vai realizar um amistoso com os veteranos do São José no Passo D’Areia em 1998, domingo pela manhã. Chego em casa e aviso a Beth que vou jogar e depois tem um churrasco. A guria enlouquece. “Mas tu não vai”, determina. “Ah, impossível, eu e o Ilgo somos os organizadores da partida. Não tem como não ir”. “Mas no domingo o Jaime e a Claudia vem aqui em casa almoçar com a gente, já combinei com eles”, avisa ela. “Desmarca”. “Nem pensar”, diz ela. “Então faço o seguinte, vou só no jogo e não fico pro churrasco”. “Não, nem jogo e nem churrasco”, bate o pé a Beth. Aliás, nós dois batemos pé, e ficam aqueles beiços todo o sábado. Domingo pela manhã acordo, arrumo a mochila, e a Beth de pé na porta, só me encarando. “Tu vai teimar e ir mesmo?” “Sim, mas volto depois do jogo, lá pelo meio-dia. Tu combinou com eles que horas, meio-dia, meia-hora. Dá tempo”. “Eu queria que tu estivesse aqui quando eles chegarem”. “Volto logo”. “Tu vai volt...

“Desperdício”

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Recém separado de um relacionamento de seis anos, costumava reunir os amigos em casa para jantas, cafés coloniais, e vinho, muito vinho, sempre com trilha sonora bem rock’n’roll. Não havia depressão, era muita bagunça com a galera, ao contrário do que ocorreria no relacionamento seguinte. Bem, um dia o Roque Dalmut, diretor do Zequinha, deixa uma mensagem no meu celular: “Chicão, tá precisando de combustível, quando precisar é só me ligar. Um abraço!”. Eu não entendi, afinal de contas não tinha carro e nem pretendia possuir um. Falo com o Ilgo Winck e o Renato Gava. “Ah, Chico, combustível deve ser bebida”, me avisam. E era. O Roque era dono de uma importadora de bebidas. Então vamos lá na loja eu e o Gava buscar duas caixas cheias de bebidas. Vinhos, uísque, vodca, rum e por aí em diante. Distribuo algumas bebidas pra gurizada e mantenho comigo os vinhos chilenos e argentinos. No final da tarde de sábado recebo a visita do Jaime e da Cláudia, que ainda não eram pais do Pedrinho. Prep...

"Saudade"

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Uma namorada que tive reclamava de meus horários confusos no jornal. Sábados pela manhã, domingos tarde e noite, todas as noites da semana. Acabávamos nos vendo aos sábados, domingos pela manhã e nas minhas folgas, nas segundas. "Estou com saudades", dizia ela. "Eu também", garantia. "Então sai do trabalho e vem me ver", pedia ela, às seis da tarde. "Mas não posso simplesmente levantar e ir embora", dizia. "Tu não quer me ver", reclamava ela. "Quero sim, mas simplesmente não posso sair agora", jurava. E ela reclamando. Aos domingos, lá pelas 15h eu tinha de dar tchau e me mandar pra redação. "Por que tu não mata o serviço e fica aqui comigo?", pedia a guria. "Não posso. Quem vai pagar as minhas contas, colocar comida na mesa?", eu falava, indo embora e ela ficando de beiço. "Tu não gosta de mim". "Gosto, mas tu está desempregada e eu não posso ficar....", constatava. Então dois dias sem...

“Atração fatal – Parte I”

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Curtia minha vida ao lado da Beth, quando uma colega de jornal resolveu se encantar pelos meus belos olhos castanhos...e se declarou pra mim no corredor entre a entrada e a redação. “Sou casado”, digo. “Mas não tá morto, e eu te quero pra mim”, diz a guria, tentando me lascar um beijo. Eu desvio o rosto, e me cagando de medo que algum outro colega veja a cena, afinal a Beth trabalha lá no segundo andar, e as notícias se espalham rapidamente por aqueles corredores. A guria passa a ser uma sombra para mim, aparecendo quando estou no bebedouro, quando vou pra sacada tomar um cafezinho, quando estou na sala do telex. E começa a me mandar emails. Por um lado é legal ser desejado, admirado, levar cantada. Só que as coisas começam a fugir do controle. A menina liga pro meu ramal e me convida pra almoçar no dia seguinte, um sábado. Sou obrigado a recusar. “Mas por quê?”, pergunta ela. “Porque sou comprometido”, digo. “Só um almoço”, pede ela. “Amanhã não posso, pois eu e a Beth iremos visitar...

“Prefeito”

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O Possas era repórter de Geral na Rádio Guaíba, mas às vezes quebrava o galho no Esportes. E naquela tarde de quarta-feira chuvosa ele estava escalado para cobrir um jogo do Grêmio no Olímpico pelo Gauchão em meados da década de 1990. E feliz da vida por lembrar seus tempos de Band. Pois o Adinho chega na redação, e recebe uma notícia não muito agradável da chefe de reportagem Eliane do Canto: o prefeito de Gravataí acabara de falecer e ele teria de cobrir o velório ao invés do futebol. Reclamou, reclamou, deu aqueles pitis que só quem conhece o Adinho sabe, mas foi para Gravataí. O motorista era o Salgadinho. O Possas chega no local, entrevista o vice-prefeito, alguns familiares, e pelo rádio pergunta se pode voltar pro estúdio, e escuta uma negativa. Tem de ficar até o final. E começa o stress. Em frente ao caixão, começa um de seus tradicionais discursos de reclamação: “Que merda, este imbecil tinha de morrer logo hoje. O ano tem 365 dias, e ele morre agora que eu iria fazer um jo...

“Morcego”

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Estou entrando no Opinião para assistir ao show do Angra quando decido dar uma última checada no celular, e lá está uma mensagem da Simone: “Chico, antes de sair do jornal, me liga....”. Parece urgente, então ligo para a Simone. “O que foi?” “Chico, onde tu está? Já saiu do jornal?” “Sim”. “Tu não tem como vir aqui em casa?” “O que aconteceu?” “Entrou um morcego aqui. Ele tá enfiado num canto, me apavorando”, diz ela. “Putz, estou dentro do Opinião, não tem como ir aí agora”. “Seu puto, o que vou fazer, porque tu não viu a mensagem antes?” “Bah, Si, tu vai ter de chamar um vizinho”. Nada mais posso fazer. Começa o show e lembro de uma vez, 1998...Estamos em casa, eu e a Beth, domingo à noite, vendo um filme e jantando, quando algo passa voando pela sala e se dirige pro quarto. “Amor, o que foi aquilo?”, pergunta a Beth, assustada. “Acho que é um morcego”, deduzo. Às nove da noite não seria uma pomba. Levantamos e nos dirigimos pro quarto, a Beth segurando minha mão. Acendo a luz, e lá...

“Praça”

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Perto do Colégio Paula Soares tem uma pracinha, mais exatamente na Fernando Machado, não tenho passado por lá, mas havia um posto da Brigada Militar ao lado. Será que ainda está lá? Bem, na época da escola, o local servia para várias distrações. Matar aula era a menor delas. No primeiro grau a turma ia lá para andar de balanço. Um tempo depois a galera namorava por lá. E depois ia tomar vinho de garrafão comprado no Zaffari e claro...fumar um baseado, escondendo o cigarrinho do capeta quando via um brigadiano aproximando-se. Então estamos lá, eu, a Flávia, a Inês Valéria, o Ricardo, colegas que nunca mais encontrei na vida, matando aula, e sentados nos balanços. O garrafão de vinho no chão, aberto, e a gente bebia pelo gargalo mesmo, dando risada e falando do que pretendíamos fazer quando chegássemos à vida adulta. Nisso dois carinhas se aproximam, e gelamos. Sabemos que vamos nos incomodar...Eles vêm vindo, são mais velhos e maiores. Como falávamos naquela época, levaremos um atraque...

"Pés"

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Uma das principais características que me atrai em uma mulher são os pés dela. Já deixei de ficar com alguma menina por isso. Pegar na mão o pezinho, beijar, ih...se não me agrado, não tem jeito. Acabou ou melhor, nem começo. Alguns amigos até colecionam fotos dos pés das mulheres com quem ficam. Um, casado, tem várias fotos de pés de amantes em seu celular, ah, se a mulher dele descobre. Pois uma amiga me revela. Nunca, nunca, em seus 30 e poucos anos de vida, um namorado e até mesmo o ex-marido elogiaram, beijaram seus pés. E olha que ela tem os pés lindos, já vi. “Agora, quando vier te encontrar, só virei de sandálias ou chinelinho”, brincou ela. Então fui encontrar uma menina com quem vinha conversando no facebook. Nos encontramos para jantar num shopping. Está quente e ela chega de sapato aberto, mas escolheu pessimamente o modelo, ah, sim, isto para um podólatra também é importante, o sapato, as cores do esmalte. Olho para aqueles pés, e...fudeu. Não vai ter jeito. Até trocamos ...

"Dente"

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Algumas pessoas não gostam de perder. Crianças choram e talvez fiquem violentas. O Beto ficou violento. Jogávamos botão, e ganhei a terceira partida seguida, o que desagradou meu amigo. Irritado, ele virou a mesa e meus jogadores caíram no chão. Devolvi quase na mesma moeda, ou seja, peguei os botões dele e atirei no meio da rua. O Beto foi lá recolher seus craques, e um deles voou na minha direção, arremessado pelo perdedor. Não tive tempo de desviar, e o botão chocou-se com minha boca. O resultado foi um dente da frente quebrado. E ele ficaria assim 35 anos, até uma dentista colocar uma placa nele.

“Gente como a gente”

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Tenho uma amiga que é uma gata. Linda, por onde passa nunca é ignorada pelos olhares masculinos, que a cobiçam sedentamente. Eu mesmo já lhe lancei olhares cobiçosos. Às vezes ela vai a algum bar ou restaurante, afinal curte os momentos de solidão, e sempre tem um carinha pedindo para sentar com ela e lhe pagar uma cerveja. "Não, obrigada", agradece ela. Atualmente está curtindo mais seus felinos em casa, ao lado de uma garrafa de vinho tinto. E mesmo quando está namorando, não abre mão de sua independência. Tanto que em muitas oportunidades, saiu para jantar na Cidade Baixa. E era fatal, levava uma cantada. Dizia então: "Bah, cara, tenho namorado". E sempre ouvia de volta: "Mas o cara é muito trouxa de te deixar aqui sozinha" ou então: "Mas cadê o carinha que deixa uma baita gata assim sozinha na noite...". Ela nem se dignava a responder. Então a turma está reunida, e uma amiga pergunta à ela: "Na boa amiga, como é isso de ser desejada por...

“Paciência”

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O síndico do meu prédio não gosta nenhum pouco de crianças. Veta qualquer brincadeira mais animada da petizada nos dois parquinhos do condomínio. Pois a Sara, afilhada do Alex, está brincando no balanço, e lá vem o síndico, caminhando devagar. A menina, quatro anos de idade, para de se balançar, e cumprimenta o homem. “Oi!”, diz animadamente, vozinha fina de criança. Ele continua sua caminhada implacável, sem olhar para os lados, procurando alguma irregularidade para mostrar seus poderes ditatoriais. “Oi, como está o senhor?”, insiste a menina. E nada de resposta. “Véio, boa tarde”, berra, desesperada Sara, sedenta por atenção daquele senhor de cabelos brancos e semblante seríssimo. Silêncio. E então a doce menininha perde a paciência: “Então é assim? Não vai me dar oi, é? Então vai tomar no teu cu!”, grita, para desespero do Alex, que vê o síndico parar e fuzilar os dois, furiosamente. “Sara, é falta de educação ofender os adultos”, ensina ele. “Mas dindo, eu dei oi pro véio, e ele ...

"30 anos esta noite"

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Adolescente, morava com minha mãe e minha irmã adotiva na rua Vasco Alves, ali perto do Gasômetro. E não teve jeito de convencer a dona Flora para que me deixasse ir à final da Taça Libertadores da América entre o Grêmio e o Peñarol no Olímpico, na gelada noite de 28 de julho de 1983. "É perigoso", disse ela, mesmo eu com o ingresso no bolso, presente de meu pai. Os dois haviam se separado um ano antes. Então a torcida era de que a televisão transmitisse a partida ao vivo para Porto Alegre. Àquela época, era pré-pay per view e tevê a cabo, as emissoras só colocavam o jogo no ar caso os estádios lotassem. Bem, a previsão era de um Olímpico lotado. Em Montevidéu, uma semana antes, empate em 1 a 1 no mítico Estádio Centenário na partida de ida. O Grêmio saiu na frente com gol de Tita, e os uruguaios igualaram com o cracaço centroavante Fernando Morena. Então, chegou o grande dia no Olímpico. Frio de 5 graus na capital gaúcha, e público de 73.093 pessoas. A decisão, ufa, teria...

“The Wall”

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Quando The Wall, do Alan Parker, estreou em Porto Alegre, em 1983, não fui assistir. A Anamaria, o Alexandre, a Paula Cristina e a Alessandra mataram aula para ver o filme com as músicas do disco homônimo do Pink Floyd. No dia seguinte, contaram extasiados como havia sido a aventura. Apesar da ótima memória que tenha, não recordo desta vez o motivo de não ter ido assistir ao filme de minha banda preferida, que à época ainda não era a minha banda preferida. Era o Van Halen. E The Wall saí de cartaz. Quando conseguiria ver de novo? Nem ideia, afinal à época não existia DVD, video-cassete, nada. Teria de esperar que um dia alguma das seis emissoras existentes (Guaíba, Manchete, TVS, Cultura, Bandeirantes e Globo) se dignassem a passar a trama considerada psicodélica. Então em 1985, eu já fã inexorável, possuidor de todos os discos do Pink Floyd, fico sabendo que o Cinema Imperial passaria uma semana completa de The Wall, sempre às 20h e às 22h, entre a segunda e a sexta-feira. Mas catzo,...

“Agora?”

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Os pais do Marco Antônio já tinham quase sessenta anos, e a gente imaginava que eles nem transassem mais. Um sábado de inverno, frio, chuva, a turma decide ir dançar no Partenon Tênis Clube. Cada integrante da turma vai passando na casa de outro, e assim por diante, aumentando o quórum. Depois de oito casas e oito pessoas arregimentadas, resta o Marco Antônio, que está jantando pela terceira vez em duas horas. “Cara, vamos lá, tá pronto?” “Tou acabando aqui”, diz ele, limpando o resto da sopa com uma fatia de pão, e correndo pra escovar os dentes. “Deu, pronto”. “Mas tu vai sair assim? Tá frio e chovendo lá fora”, avisa o Fernando. “Esperem, que vou pegar meu casaco”. E nada de achar o casaco. “Mana, viu meu casaco”, pergunta ele pra Gorete. “Acho que vi na cadeira no quarto do pai”, informa a guria. “Bah, é mesmo”. São onze da noite, e a porta dos pais dele está fechada. Devem estar dormindo. O Marco Antônio bate na porta e nada. Bate de novo. Nada. “Pai, mãe”. Nada. Então ele gira a...

“Amarelos”

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Uma das saias justas mais terríveis que assisti ocorreu no Cinema 1-Sala Vogue, na Independência. Sábado à noite, estreia do oscarizado Gritos do Silêncio, sobre o Khmer Vermelho e a Guerra no Camboja no começo dos anos 1970. O filme vai terminando, após mais de duas horas de assassinatos, explosões, tentativas frustradas de fuga. Entra a música Imagine, do Lennon, quando os personagens principais se reencontram e se abraçam. Choradeira no cinema, as luzes se acendem, e um carinha sentado perto de mim berra: “Bah, finalmente acabou esta porcaria. Não aguentava mais ver este monte de gente amarela na tela. Ainda bem que mataram metade deles...” Eu me viro, outras pessoas se viram, e o carinha racista se vira, e na fila de trás, uma família de asiáticos, sete, oito pessoas, entre homens e mulheres, rapazes e moças. Todos olham desconsolados para o cara, nada de mágoa nos olhares, apenas tristeza. O carinha tenta se desculpar: “Não quis dizer vocês, quis dizer lá do filme, sabe, aquela g...

"Haley"

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Aniversário de 15 anos da Hellen, no Clube dos Funcionários do Tribunal de Contas, no Cristal. O Denilson passa uma descompostura no resto da turma, pois segundo ele, a galera não sabia se comportar e fazia fiasco. Deveriam ser como ele, ou seja, não beber e nem atacar as guriazinhas. A turma escuta o sermão, se olha de canto e prepara a vingança. Enquanto tomam um gole de cerveja, oferecem dois copos cheios para o Denilson. Ele acha poder se controlar, e acaba perdendo a conta. Após o corte do bolo, a aniversariante vai distribuindo souvenires de seus 15 anos, na mesma noite em que o cometa Halley cruzaria os céus. A Hellen oferece uma lembrancinha, um cartãozinho com os dados da festa e um pequeno boton, para o Denilson. “Não, obrigado, estou satisfeito”, diz ele, vomitando em seguida. Quando vê, aliás, não vê, está sendo expulso do salão pelo segurança. Completamente alcoolizado, cai na frente do clube, e continua a devolver ao mundo as bebidas e comidas que ingeriu naquela noite. ...

"Casal"

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Estou lá sentadinho em meu lugar preferido no restaurante ao lado do Tribunal de Justiça, na Praça da Matriz, comendo minha salada forçada da semana. Na mesa ao lado, um casal jovem, cerca de 30 anos. A guria, loirinha, olhos castanhos, olha apaixonada para o carinha, que tem em sua frente um prato transbordando de arroz, feijão e vários bifes. Ele come, bebe um guaraná, tudo de boca aberta. O prato dela tem saladinha, frango, arroz e feijão. E ela toda educadinha, tomando água mineral. Ai acaba e levanta para pegar mais comida, e o cara não perdoa. “Onde vai a gorda? Pegar mais comida? Não é a toa que está deste tamanho, enorme...” E a guria não tem nada de gorda. Deve ter uns 1,70m e uns 60, 63, 64 quilos no máximo. E fica vermelha. Pensa em desistir de voltar ao bufê. “Amor, tu acha?”, pergunta ao sei lá se namorado, noivo, marido. “Saudade do tempo que tu era magrinha, agora tá isso aí, estourando...” “Só vou pegar um pedacinho de peixe...” “Não sei como ainda te aguento, vai lá, ...