"Doente"

Em 2005 caí numa depressão terrível, que me custaram alguns meses afastado do Correio do Povo. Tratamento psiquiátrico, isolamento social e outras mazelas. Quando comecei a sair do buraco, faço uma visita a minha amiga Eliana Camejo, cujo escritório de sua assessoria de imprensa fica a uma quadra do consultório de meu psiquiatra. Toco a campainha, ela mesma abre a porta e fica me olhando, pensando quem será aquele refugiado da Etiópia. Sim, no auge da doença, perdi 40 quilos, e a Eliana não me reconhece. "Sou eu, o Chico", digo, e ela leva um susto, me abraçando na sequência. Nas horas seguintes, a Eliana quer saber o que houve comigo, e conto tudo, tim tim por tim tim. No final da história, ela me diz: "Tu vai escrever um livro sobre isto tudo". O meu psiquiatra acha a ideia ótima, pois vai ajudar muito na recuperação. E uma sala do escritório da Eliana passa a ser minha pelos próximos dois meses, para onde me dirijo após as sessões de terapia para digitar o texto que rabisco num caderno que a Eliana me dera naquela primeira tarde. Quando termino o trabalho, mostro o texto pro David Coimbra, que vibra e diz: "Temos de publicar". E no domingo seguinte, toca o meu telefone. Já passei da fase do total isolamento e atendo. Do outro lado da linha a Larissa Rosso: "Chico, tu já viu a Zero hoje?". Não, eu não havia visto. Pego o jornal e lá está na coluna do David uma apresentação do meu livro, que nem fora publicado ainda, mas seria meses depois. Pois bem, quando o livro sai do prelo, ganho resenhas em alguns jornais e revistas e mais colunas do David. E chega a vez de o Correio do Povo, minha casa, fazer uma página sobre ele. E o que acontece? A página está pronta, e o então diretor-geral do jornal olha, olha e pergunta: "Cadê o rapaz?". "Olha, está afastado por problema de saúde", avisa um editor. "Como assim, doente e escrevendo livrinho? Não tem de sair nada aqui no jornal. Pode mudar esta página", determina ele, sem pensar que o livro serviu como terapia. Aliás, pensar é uma palavra muito forte para a cabecinha dele. Apesar do boicote da casa, o livro vai bem e acaba esgotando duas edições, ganhando até três páginas de uma matéria do caderno Donna, escrita pela Patrícia Rocha.

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