Guaibadas é uma homenagem a Porto Alegre e o rio/lago que o circunda, cidade em que se passa a maioria das histórias que vou contar aqui. Histórias que aconteceram comigo, com amigos e amigas, com conhecidos e desconhecidos. Alguns causos são hilários, outros apenas divertidos, muitos são tristes, outros não tem nada de especial, mas mesmo assim devem ganhar a luz do dia. Enfim, um olhar sobre o porto-alegrense e suas loucuras.
quinta-feira, 20 de agosto de 2026
MACUMBEIRO
Sábado à tarde, caminhando em Gramado, em direção ao Palácio dos Festivais para assistir ao filme do dia, cruzo com uma senhorinha. E ela me olha com raiva e dispara: “então é isso, a macumba chegou em Gramado”. Espantado, não tive reação. Mas foi um ato racista isolado em uma cidade que sempre me tratou bem. Só que não deveria ter acontecido.
segunda-feira, 7 de abril de 2025
A TIA CAROLA
Eu tinha uma tia, católica das mais carolas...pois estava saindo de casa em um domingo pela manhã e dei de cara com ela na calçada em frente ao prédio onde moro.
E ela: “Meu sobrinho, estou voltando da missa. Não falto um domingo sequer.”
Eu só olhando, quieto, pensando qual bomba ela iria largar, e ela arrematou: “E eu sento lá, converso com deus e ele nunca me responde. Será que estou fazendo algo de errado?”
E eu, colocando a mão no ombro dela:
“Pois então, tia, quer que eu lhe fale a verdade ou quer continuar delirando?”
Deu, ali perdi a minha tia pra todo o sempre...
quarta-feira, 19 de março de 2025
CREMAÇÃO
Hoje fui ao centro buscar meus remédios controlados e que me são entregues pela Farmácia Popular. E na Rua da Praia, acabei encontrando antigas colegas da minha mãe do Tribunal de Justiça.
E elas queriam saber como eu estava sem a mãe. “Chiquinho, como tu está? E como tu tá fazendo sem a Florinha?” (explicando que Chiquinho é porque elas me conheceram ainda piá, pois a mãe começou a trabalhar no TJ quando eu tinha 4 anos, e quando não ia pra creche, acompanhava ela no serviço).
Eu disse que ainda sentia a perda, que às vezes dói muito a ausência dela.
E na sequência, perguntaram do meu trabalho, e eu disse que havia sido demitido. Uma delas, então, perguntou de um ex-colega meu, conterrâneo dela em Rio Pardo, o Renato Panatieri.
E eu: “Bah, a mãe também era natural de Rio Pardo. E emendei: onde, aliás, estão as cinzas dela, na praça defronte à igreja”.
As duas: “Cinzas? mas ela foi cremada?”
Eu me segurei pra não responder “não, ela foi afogada”, mas me segurei e disse sim.
E elas: “A gente não quer ser cremada...tua mãe não sentiu dor quando foi cremada?”
Eu: “Não, né, ela estava morta...”
E as duas: “Ah, não, a gente não quer ser cremada, vai doer muito...”.
Depois dessa, acabei recusando o convite pra almoçar com elas.
terça-feira, 23 de julho de 2024
PROMOÇÃO DE VINHO
PROMOÇÃO NO ZAFFARI: leve dois vinhos e pague R$ 34,80 ao invés de R$ 49,80. Pego duas garrafas do vinho. Chego no caixa e a guria: “Deu R$ 99,60”. E eu: “não, está em promoção”. E a guria: “não senhor, não tem promoção para este produto”. Eu insisto que sim, e ela se mostra irredutível. “O senhor vai levar?”.
“Sim, mas quero a promoção”.
“Senhor, não tem promoção”, insiste ela.
Eu saio correndo, vou na sessão dos vinhos e tiro a foto da promoção. Retorno ao caixa, e mostro para ela, que continua teimando. “Isto não vale. O que vale é o que está mostrando na caixa registradora”.
Eu bato pé. “Não, não. O que vale é o cartaz”.
Ela acaba chamando o gerente.
Ele chega, escuta as duas versões. E passa de novo as garrafas pelo leitor. E aparece lá o valor – R$ 99,60.
“É, senhor, ela (a caixa) tem razão”.
Em outros tempos eu iria ficar quieto e pagar o valor ou ir embora sem meu vinho.
Mas agora não tenho mais medo de exigir meus direitos.
“Olha só, amigo, de acordo com o código do consumidor, vocês têm que me cobrar o valor que está no cartaz da promoção. Ou vamos pro Procon?”
“Mas senhor, o vinho não está na promoção...”
“Então vocês estão enganando os clientes. O erro é de vocês, tiraram o vinho da promoção, mas deixaram o cartaz e ele é que vale. Vamos pro Procon, então”.
“Vou lhe pedir, então, que o senhor vá na administração para resolver”.
Ou seja, os dois funcionários continuaram teimando. Mas fui na administração, levei a foto tirada minutos antes, expliquei o ocorrido. E lá foi o responsável verificar num caixa e o erro persistia. Porém, acabou tendo de seguir a lei e me dar o desconto. Pela cara que fez, contrariado.
“Olha só, vocês tiraram o vinho da promoção, mas mantiveram o cartaz. Aí tem de cobrar o que está no cartaz. É lei”, repeti.
Feito o pagamento, agradeci. E o administrador não disse nada, só virou a cara. Hei, seu Zaffari, olho nos seus funcionários...
quinta-feira, 14 de janeiro de 2021
"O CAGAÇO"
A equipe do Correio do Povo que veio para o litoral norte nesta segunda semana de janeiro foi excepcional. E tivemos momentos engraçados. Uma noite dessas, a gente foi para a janta – eu, o Mauro Schaefer e o motora Celso Azevedo. O Maurinho terminou de comer antes, e disse que voltaria para o quarto. Eu disse: “pô, a gente é uma equipe. Assim temos de ficar na mesa até todo mundo finalizar”. Mas ele estava impaciente, querendo fumar e se mandou. Só que ao chegar no quarto que divide com o Celso encontrou a porta chaveada – e já havia pedido para o motora nunca trancá-la. Desesperado, ele deu a volta pelos fundos, e conseguiu entrar no quarto, depois de quase arrombar a janela. E então pensou em se vingar. Bom, eu e o Celso viemos conversando pelo corredor, e o Celso para na frente da porta do quarto deles, e abre a porta. Nisso, um vulto de branco salta do escuro e dá o maior cagaço no motora, que dá um pulo para trás, solta um “ai, meu coração”, e quase desmaia de pavor. Então a figura se revela: o Maurinho colocou um lençol sobre o corpo e decidiu assustar o cara que deixou ele para fora, sem poder pegar o cigarro. Bem, verificou-se que o coração do Celso está em bom estado. (www.guaibadas.blogspot.com)
domingo, 29 de março de 2020
"Álcool Gel"
Chego no Zaffari e fico sabendo que para comprar álcool gel basta pedir no caixa. Duas unidades por cliente. Aí a menina pergunta quantas eu quero. "Duas", respondo. "Grande ou pequena?". "Grande". A guria chama o gerente, que vai buscar os produtos. Então pergunto: "Quanto?". Ela me olha e dispara: "460". Dou um pulo para trás. Nossa, o valor! Não tenho esta grana e digo que não quero mais. "Mas por quê?", questiona a caixa. "Pô, tá muito caro. Isso é um roubo", digo, bem na hora que o gerente chega carregando os dois potes. "O senhor tem certeza?". "Mas claro, vocês estão roubando", digo. Ela fica me olhando com uma cara assustada, não mais do que a minha. E então se dá conta. "Não, não, agora entendi. 460 são os gramas, não o preço, que é 8,25 cada", explica a moça. "Pô, se não morro do vírus, iria morrer do coração", brinco. Como o supermercado está quase vazio, os presentes escutaram a conversa doida e caiu todo mundo na risada.
"Derrame"
Estava na cobertura da Expodireto em Não Me Toque no começo de março. E uma das pautas que recebi no primeiro dia: "ver como estava o atendimento no departamento médico da feira". E lá fui eu entrevistar médicos e enfermeiros. Ao perguntar sobre serviços prestados, um deles era o da aferição da pressão. Pô, eu como hipertenso, tenho de fazer isso diariamente. Aí solicitei o atendimento. Preenchi a ficha e um minuto depois, me chamam. E a minha pressão: 200 por 110. Ou seja, altíssima. O médico diz que desse jeito não posso ser liberado, e terei de ficar um tempo em observação, e tomando um remédio. Tento argumentar que tenho outras pautas e não posso ficar detido. Mas não tem jeito. "Eu te libero, tu sai, caminha dois metros e cai duro aí na frente. Quem é o responsável?, questiona o médico. Depois de um tempo repousando, sou liberado, mas convocado a retornar no dia seguinte.
E chega o dia seguinte e lá vou eu de novo ao departamento médico. A enfermeira vem, coloca o esfigmomanômetro no meu braço. E de repente sai correndo da sala, voltando com duas médicas e mais uma outra enfermeira. A médica pega o aparelho, e pede que a enfermeira afira novamente minha pressão. Então pergunta: "Francisco, tu está te sentindo bem?". Eu digo que sim. "Tem certeza? Nada de formigamento, tontura, visão turva?". "Olha doutora, tudo isso junto e reunido", brinco. "O que está acontecendo?", finalmente pergunto. "Rapaz, tu está quase tendo um derrame...". Putz, que cagaço eu tomei. Sou cercado pela equipe médica, e me fazem uma análise completa, com direito a remédio preventivo e isolamento em uma sala até que meu organismo volte as atividades normais. Após um tempo, sou liberado, mas passo o resto da semana sendo monitorado. Sobrevivi.
domingo, 15 de março de 2020
"Choque"
Fui entrevistar o prefeito de Imbé, Pierre Emerim da Rosa, agora em fevereiro passado. Como era feriadão de carnaval, ele pediu para a entrevista ocorrer na casa dele. E lá se foi eu e o Mauro Schaefer para a empreitada numa quente segunda-feira pela manhã. Quando chegamos em frente à casa, descemos do carro do jornal. Eu na frente fui em direção ao portão de entrada. E de repente paraliso, e fico tomando um choque de sei lá quantos volts - explico, havia uma cerca elétrica acima do portão, mas com apenas uns 1,85 de altura - e como tenho 1,90m, o fio pegou bem no meio da minha testa, e fiquei lá fritando, até o prefeito desligar a energia e pedir desculpas pelo acidente. O Mauro vinha atrás e disparou: "Agora ele acorda".
segunda-feira, 2 de setembro de 2019
"Segurança Parte 10"
Mas claro que não podia faltar a estereotipada. Fui entrevistar o diretor da administração do Parque de Exposições, e estou na sala de espera, aguardando. Aí entra uma mulher, olha para mim e dispara para a secretária: "Ele é o segurança chamado para cuidar do evento?". Putaquepariu. Nada contra os seguranças, mas que coisa chata isso. "Minha senhora, se a senhora soubesse como fico puto quando dizem isso...". A secretária do diretor, rapidamente: "Não, ele é o jornalista do Correio do Povo que vai entrevistar o diretor". Mas a cagada já estava feita. "Ah, mas grandão assim...", continou a mulher. "E preto", completei. Ela evaporou da sala.
"Fã"
Estou na Expointer cobrindo o julgamento de uns touros, de pé ao lado da mesa do narrador da prova. E ele chama para a pista a Cabanha Santo Izidro. Não resisto a fazer piada: "Bah, depois vou lá exigir minha parte na herança". O cara e as outras pessoas ao lado dele ficam me olhando e o narrador pergunta: "Por que tua herança?". "Ah, o meu sobrenome é Izidro", respondo. Então o cara arregala os olhos, larga o microfone e solta: "Tu tá brincando que tu é o Chico Izidro, do Correio do Povo?". "Sou". "Putz, sou teu fã, há anos que leio as tuas matérias no jornal. E agora tu aqui. Mas tu faz de tudo naquele jornal, né. Até Expointer. Que legal". Bah, ganhei a semana.
terça-feira, 25 de junho de 2019
Eu, um árabe...falso
Acabou o jogo da Argentina com o Qatar, no domingo, na Arena do Grêmio, pela Copa América 2019, e a pessoa aqui está na Tribuna de Imprensa terminando a crônica do jogo. E se aproxima uam daquelas meninas que fica auxiliando os jornalistas. E ela me pergunta em inglês se vou demorar muito, pois o setor será fechado em alguns minutos. Olho para ela, e respondo em português: "Oi, sou daqui mesmo de Porto Alegre". A guria dá uma risada e diz ter achado que eu fosse árabe. Termino o material e vou em direção ao elevador, quando aparece uma fotógrafa catar, com lenço na cabeça e tudo, e fala em árabe comigo. Olho para ela e digo "Do not understand". E a fotógrafa: "I'm lost and I thought you were arabic" (estou perdida e achei que você fosse árabe). I want to go to the collective (quero ir na coletiva). "Follow me", digo para a moça. E entramos no corredor da Arena que levaria às coletivas de imprensa. E o guia me olha e me diz em inglês: "Journalist from Qatar over there" (jornalista do Qatar por ali). Aií solto em português: "Sou brasileiro". "Bah, me desculpa, esta barba", responde ele. Uma tarde de árabe pela Arena.
terça-feira, 27 de novembro de 2018
"Incomodada"
Nesta semana fiz uma interessante e importante entrevista com o pesquisador Marcelo Carvalho, idealizador do site Observatório da Discriminação Racial no Futebol, onde ele se dedica a monitorar casos de racismo, homofobia, misoginia e xenofobia no chamado esporte bretão, desde 2014 no Brasil e no mundo. Marcamos de nos encontrar em um café no Guion Sol, na zona sul de Porto Alegre, no meio da tarde. Comigo vai o fotógrafo Ricardo Giusti. Chegamos ao local combinado, e mal sentamos para iniciar a entrevista, uma senhora com sua filha pequena na mesa ao lado, já passou a nos olhar de forma incomodada, nervosa até. Afinal, dois negros sentaram bem do lado dela. Até que ao ouvir o conteúdo de nossa conversa, não aguentou mais e disparou: "Eu fico furiosa. Não aguento este papo de vocês. Vitimização. Por que o dia do negro? Por que o branco também não pode ter o seu dia? Vocês só fazem reclamar, ah, o negro, o negro. Como se só vocês existissem", disparou ela. Nem tentamos argumentar, não adiantaria, pois o racismo, infelizmente, está inserido na sociedade brasileira. Depois de nos xingar bastante, ela pegou a menina e foi embora. Triste.
"Fiz parte daquela rádio, e isso até hoje me orgulha"
Em 1990, trabalhava na rádio Bandeirantes, e numa bela manhã de sol, fui chamado à sala do diretor Edson Camarão, que me dá uma notícia não muito legal. "Os teus serviços não são mais necessários aqui", disse, de forma seca, alegando ter sido um pedido do apresentador Paulo Solano. Que confrontado, negou, dizendo que a minha demissão era ideia mesmo do Camarão. Bem, fazer o quê? Cabisbaixo, estava me dirigindo à redação para pegar meus pertences, quando deparo com o Nilton Fernando, que era o diretor da Ipanema FM, que ficava ali, no mesmo corredor da Band. "Chico, que cara é esta?", perguntou. Digo: "Acabei de ser demitido". Sem se abalar, o Nilton me dá um abraço e diz: "Fica tranquilo. Tu não foi o primeiro, e nem será o último". Aquele consolo não adiantou muito, confesso. Mas ele prosseguiu. "Vai para casa, descansa, que vamos pensar em algo", ressaltou. Pois duas semanas depois ele me liga e pede para ir vê-lo na rádio. Ao chegar lá, o Nilton me fala: "Topa trabalhar conosco, na Ipanema?". Quase cai para trás. "Claro, que pergunta", respondo. "Bom, o horário é meio estranho, você será uma espécie de curinga, substituindo os redatores nas folgas e férias deles. Uns dias das 20h às 24h, em outros das 7h às 12h, outros, das 13h às 19h. Quer?", perguntou. Assim comecei a trabalhar na Ipanema, a rádio dos meus sonhos, que eu escutava desde o início, em 1983, em todos os horários, dias. Aqueles locutores pareciam ser meus amigos mais íntimos. O Mauro Borba (que um dia me deu bronca porque ele se atrasou e o operador Marcelo pediu para eu abrir o horário, aí fui ao ar, e não contente em apenas falar no microfone, ainda coloquei para rodar Dead Embryonic Cells, do Sepultura, Wherever I May Roam, do Metallica, e Holy Wars, do Megadeth, e ele não tocava metal no horário dele), a Katia Suman, o Alemão Vitor Hugo, a Nara Sarmento (com quem eu tinha tetras sobre a dupla Gre-Nal), o Jimi Joe, a Mary Mezzari (que brigava muito comigo quando eu pegava antes dela os jornais do centro do país, ou sentava na mesa dela e usava a máquina de escrever dela para redigir o noticiário, o KG (que colocava discos com músicas de 20 e poucos minutos para a gente ir ao bar tomar o café da manhã e falar sobre o Grêmio). A Katia foi a primeira a me aguentar. Eu escrevia os noticiários para ela, entre às 20h e às 24h. E viajava nos textos - uma vez ela me deu uma lição quando ironizei o Sylvester Stallone e ela me mostrou que ele não era um ator só brucutu como demonstrava, e curtia aquele silêncio pelos corredores. Fiquei na rádio entre 1990 e 1991, em 1992 fui morar em São Paulo, e em 1993 voltei, ficando mais uns seis meses por lá, até vir parar no Correio do Povo em fevereiro de 1994. Fiz parte da história daquela rádio, e agora ao ler o livro da Katia voltei no tempo, relembrando fatos e histórias e pessoas que tiveram grande importância em meu jeito de ser e pensar.
quarta-feira, 28 de março de 2018
"Ateu"
Não é fácil ser ateu. Por muito tempo falei que era agnóstico para não ser crucificado em praça pública. Uma vez estava eu e um amigo (não vou identificá-lo pois não sei mais se ele ainda mantém a convicção de três décadas) almoçando na casa da avó de uma amiga de infância. Nós éramos tratados como filhos pela doce velhinha. Mas aí ela resolve perguntar: "Chico, teu pai vivia na igreja, tão religioso. Mas nunca te vejo lá? Por que você não aparece para ouvir a palavra de deus?". Ih, ferrou, pensei. Olhei para todos à mesa, e confessei: "Dona Olga, sou ateu". Bum, foi como tivesse caído uma bomba atômica. Ficaram todos me olhando. E ela: "Aí, então você anda com o demônio, você é uma pessoa má". Nossa, que percepção! Até então eu era um queridão que podia sentar e almoçar com todos e do nada virei o filho do capeta. Aí ela se vira para o meu amigo e pergunta: "Mas você não, né? Você crê no nosso senhor?". E ele: "Não". Até hoje não sei como não fomos expulsos naquele momento. Mas nunca mais fomos convidados para almoços, jantas ou cafés. Exilados. Bem, quase 30 anos depois, estou na beira da praia, Atlântida, cobrindo o litoral pelo jornal e cai a maior chuva. Mas eu e o fotógrafo (que também pediu para não ter o nome citado) temos de entrevistar algumas pessoas para o ambiental - mostrar como estava a praia naquele dia. O tempo não ajuda, mas eis que de repente aparece um senhor lá na beira do mar, segurando um balde. Ufa, um case. Corremos até ele. "Bom dia, senhor. Tudo bem? Somos da reportagem do Correio do Povo. Pode nos dar uma entrevista?". Todo simpático, ele diz que sim, está ali pegando mariscos, enquanto espera a mulher, doméstica, sair do trabalho e que a chuva e os trovões não o assustam. Fomos para baixo de uma barraca e começo a lhe fazer perguntas. E ele respondendo, até que não recordo qual motivo ele solta: "Graças a deus, não tenho dinheiro, mas saúde e disposição". E olha para mim. "E que bom poder compartilhar a minha fé com vocês. O amigo, claro, reza muito, né?". Olho para ele, e digo: "Não, não rezo". "Mas por quê?". "Não tenho religião", respondo. "Mas claro que crê em deus?", insiste ele. "Não". Nossa, parece que o chão tremeu. Aí ele olha para o fotógrafo e faz a mesma pergunta e escuta a mesma resposta. "Não, não acredito". "Mas como isso é possível, não acreditar no criador do universo?". "Meu senhor, o senhor quer que eu acredite que um velhinho de barba branca apareceu lá no céu, fez uma mágica e apareceu o mundo?". "Sim". "Não". "Ele criou Adão e Eva". "Há controvérsias", respondo. "Não, ele criou Adão e Eva, que foi o nosso início". "Ih, a cronologia não fecha. Se ele criou Adão e Eva, o homem apareceu então antes dos dinossauros, e a história mostra o contrário...", ironizo, confesso. Aí ele me solta: "Os dinossauros nunca existiram, foram uma invenção. Pura bobagem". Ah, não estou afim de discutir religião, só quero terminar minha pauta e sair da chuva. "Os ateus só são piores que os judeus, que são uma raça triste, pois mataram Jesus". O jeito é deixar ele ficar xingando e bufando. Saímos em disparada, e o senhorzinho gritando: "deus vai castigar vocês, vocês arderão no inferno...
terça-feira, 20 de março de 2018
"Segurança 2"
Massss....oiiii, não é que aconteceu de novo? Estou eu indo levar o lixo para a lixeira do prédio, que fica ao lado do estacionamento, e passa por um mim uma senhorinha de seus 70 anos. Dou boa tarde e sou completamente ignorado. Tudo bem. Coloco os sacos de lixo na lixeira e retorno para a entrada do prédio, e esta mesma senhorinha está lá parada na porta, com uma cara atônita. Vou em sua direção e digo: "A senhora não consegue abrir a porta? Eu abro", já pegando a chave e colocando na fechadura. Ela nem me olha. E então alguém fala com ela pelo interfone: "Já vou abrir para a senhora". E a velhinha: "Não precisa mais, o segurança vai abrir para mim". O quê? Segurança? Mas como? "Minha senhora, não sou segurança, nem guarda, sou um dos moradores do prédio", afirmo. Então ela finalmente me olha, e me diz: "Bah, meu filho, me desculpe, é que não prestei atenção, só vi um rapaz....". Vamos, vamos, vamos, fico pensando, diz de uma vez..."Sim, a senhora viu um rapaz negro, foi isso, né? E negro só pode ser porteiro, guarda, segurança...", digo, irritado. Ela estica a mão e pega o meu braço. "Me desculpe, me desculpe. Aí, que vergonha", fica ela repetindo, enquanto termino de abrir a porta e abrindo espaço para ela entrar.
domingo, 28 de janeiro de 2018
"Segurança"
Só pode ser sacanagem. Há alguns anos estava saindo de um show no Opinião
usando uma das minhas tradicionais camisetas pretas de banda de metal. Aí uma
guria para do meu lado, e me chama: “Por favor, seu segurança, dá para dar uma
ajudinha aqui, que minha amiga está tonta”. “Olha, até posso ajudar, mas não sou segurança. Estava lá curtindo o show”, digo.
Não recordo mais qual era a banda que tocou aquela noite. A guria olha pra mim,
abaixa a cabeça, vê o logo da camiseta, e: “Putz, me desculpa. Jurei que tu era
segurança”, completa. “Claro, negão, alto, conclusão: segurança. Imagina se eu estaria aqui não fosse
isso”, disparo. Ela não nega. Bem, agora estou na beira da praia, cobrindo o litoral pelo jornal. Tenho de achar
um case para a matéria e fico observando os veranistas. Meus trajes? Bermuda e
camiseta preta de banda. Aí uma senhora sai da água e vem em minha direção.
“Moço, moço”, grita ela. “Sim?”, digo. “O senhor é segurança aqui na praia?”,
dispara ela. “Ah, claro, um negão de 1,90m de preto só pode ser segurança”,
reclamo. Ela fica vermelha, e tenta consertar: “Não, não quis dizer isso”, garante.
“Quis sim, não vou bater na senhora”, afirmo. “É, achei sim”, reconhece ela,
pedindo mil desculpas e saindo às pressas. Horas depois estou no saguão do hotel
em que a equipe do Correio do Povo se hospeda, esperando que a galera se
organize para a gente sair pruma pauta. Vem um casal na minha direção: “Ei
rapaz", diz o cara. “Sim?”, devolvo. “Você é o segurança aqui?”, pergunta. Mas que
porra é essa? De novo? Ao invés de responder, me dirijo para o carro do CP, com
aquele logo gigante. E abro a porta. Aí sim: “Não senhor. Sou jornalista”,
entrando no carro. O casal fica vermelho e sai bem rapidinho, com a moça
puxando o braço do marido. Para bom entendedor, meia palavra ou gesto bastam.
"Sambista"
Estamos eu, a fotógrafa Alina e o motorista Válter no restaurante do Hotel Figueiras, se preparando para jantar, depois de um dia corrido na cobertura de praia. Aí me sirvo, e o Valtinho está lá, no buffet, quando chega um garçom nele: "E aí, tudo bem? E cadê o Mr. Catra?", pergunta, apontando para mim. De longe eu escuto e protesto: "Pô, Mr. Catra não". Aí o garçom me ouve e se dirige para a mesa em que estou jantando. "Meu véio, fiz um elogio para ti". "Não, para mim é uma ofensa. Me chamar de Mr. Catra", reclamo. O Valtinho chega e diz: "Logo o Chicão, que não gosta de funk e rap". "Ah, então ele gosta de samba, né?", tenta deduzir o garçom. "Não, ele é do rock", ensina o Valtinho. "Mas como, tem de ser samba, ele é negro!", prossegue a pessoa. "Não, meu amigo, não gosto de samba, pagode, funk, rap, hip-hop, sertanejo", vou informando. "Mas está no sangue do negro ser sambista", insiste o garçom. "Quem te deu essa informação?", pergunto. "Ah, tenho um filho negro que é sambista, e todo o negro tem o samba no sangue", continua insistindo o cara. "Puxa, tu ouviu falar em estereótipos?", reclamo. O cara fica me olhando com uma cara de quem não está entendendo nada. "Vim da África, moro em uma cabana, caço animais com uma lança e flecha e ando de tanga e ainda como carne humana", vou enumerando. "Ah, e ainda faço música num tambor", continuo. "Não conheço nenhum negro que não goste de samba", constata o garçom. "Prazer, então sou o primeiro. E deu pra mim, fui", digo, me levantando e deixando o restaurante antes de mandar a figura tomar no cu.
quinta-feira, 25 de agosto de 2016
"Psii, psi..."
Estava no cinema assistindo o novo filme do Woody Allen, "Café Society" e numas fileiras próximas um casal já idoso, e dê-lhe conversar. O homem falava baixinho e a mulher achando estar na sala de casa. Até que de repente ele se indignou e soltou: "Pô, não precisa berrar. Fala baixinho que estamos no cinema. Ou fica quieta"...
Aí me lembrei de uma vez que fui ao cinema com uma amiga minha. No mesmo local, o Espaço Itaú, que então se chamava Arteplex. E o filme, de suspense, rolando na tela. E a minha amiga, em voz alta: "Será que o fulano matou mesmo a mulher?". "Quem estará atrás da porta?". "Acho que a mulher não deveria entrar na sala", e por aí...ela ia narrando o filme e perguntando. E eu comecei a me irritar, soltando um "cala a boca, fica quieta, por favor". Bah, a guria deu um pulo na poltrona e se encolheu toda. Mas pelo menos ficou quieta. Até depois da sessão quando não quis mais falar comigo.
segunda-feira, 1 de agosto de 2016
"Pacaembu"
Era 1992 e eu morava em São Paulo. E numa bela manhã de sábado, sol forte, acordo e decido dar uma volta pela cidade. Ponho uma bermuda e uma camisa preta, de uma banda de metal, se não me falhe a memória Scorpions. E lá vou eu caminhando, caminhando. E de repente me deparo com o estádio Pacaembu à minha frente, aberto e vejo pessoas entrando nele. Vou atrás e quando passo pelos portões, enxergo um povo, as arquibancadas lotadas. E dou mais um passo, quando sou cercado por uns quatro seguranças, dois negros e dois brancos, de ternos pretos e com os rostos fechados. "O que você quer aqui?", me pergunta um deles, me segurando pelo braço. Tento me desvencilhar e outro me segura o pescoço. "Me larga", peço. Nada. "Quero conhecer o estádio", continuo. "Aqui não é o seu lugar. Por favor, se retire", me diz o cara. E eles já vão me puxando para fora do Pacaembu. "Por que não posso ficar?". "É um evento da Igreja Universal e você não é um dos nossos. Saia", me explica o segurança. Ah, tá, eu estava invadindo um evento de IURD e vestido como um pecador ou sei lá como eles classificam um roqueiro. Sou empurrado até o portão principal, sob os olhares de curiosos. Pelo menos não me jogaram no chão. Só me expulsaram por ser "diferente".
"Cinema Cacique"
Eta povinho ignorante. Estou indo ao supermercado Zaffari que abriu em frente ao Correio do Povo na Rua da Praia. E na entrada vejo dois caras conversando, e pego o papo já no meio. Um deles: "Como aqui era um cinema?". O outro: "Cara, aqui era o Cacique e o Scala". "Cacique? Scala? Nunca ouvi falar, não". "Como não? Quantos anos você tem?" "35". "Ah, mas então deveria conhecer sim", insiste o outro. "Bah, veio, não sei mesmo". "Cara, logo ali na porta tem umas fotos dos cinemas", aponta o cara para as fotos na entrada do súper. O pior que a besta quadrada insiste na burrice. "Tu está é inventando isso de cinema aqui..." Eu me seguro para não entrar no meio da conversa, desisto de ficar escutando o débil mental negar a existência de dois grandes cinemas de rua de Porto Alegre e vou às compras.
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