Uma coisa que detesto é a estereotipagem. Outro dia conversando com uma amiga, ela soltou que os “homens não conseguem fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo”. “Ora, eu consigo”, rebati. “Não, não, impossível”, teimou ela. Insisti que sim. Consigo escrever, ouvir música, ver TV, cozinhar, e por aí vai, simultaneamente. “Então tu é o único”, atesta ela. “Não, conheço muitas pessoas, tanto homens quanto mulheres, que fazem isso. “Mas o meu namorado não consegue”, constata ela. “Bem, cada caso é um caso, é uma característica de cada pessoa”, finalizo, mas ela continua achando que sou um caso a ser estudado pela ciência. E aí me vem a lembrança da vez que morava em São Paulo e saí algumas vezes com uma japonesinha que conheci no Masp. Íamos ao cinema, à livrarias, uma vez fomos a um show do Viper. Até que ela conseguiu estragar tudo numa tarde de domingo enquanto caminhávamos pela Paulista. “Francisco, tu é diferente”. “Mas por quê, tenho dois olhos, um nariz, duas orelhas”, brinco. “Não, não, tu é diferente do teu povo”. “Como assim, meu povo?”, me espanto. “Que povo, que povo?”. “Ah, Francisco, tu é um rapaz negro que gosta de ler, ir ao cinema, de trabalhar...”. Como assim, rapaz negro? Meu deus do céu, o “povo negro” para aquela guria era visto como preguiçoso, inculto. Parei ali na imensa avenida, olhei pra ela, e disse: “Olha, foi bom te conhecer, mas depois dessa, fui. Tu precisa aprender muito ainda”, e me mandei de volta pra república onde morava.
Guaibadas é uma homenagem a Porto Alegre e o rio/lago que o circunda, cidade em que se passa a maioria das histórias que vou contar aqui. Histórias que aconteceram comigo, com amigos e amigas, com conhecidos e desconhecidos. Alguns causos são hilários, outros apenas divertidos, muitos são tristes, outros não tem nada de especial, mas mesmo assim devem ganhar a luz do dia. Enfim, um olhar sobre o porto-alegrense e suas loucuras.
quarta-feira, 5 de junho de 2013
“Estereótipo”
Uma coisa que detesto é a estereotipagem. Outro dia conversando com uma amiga, ela soltou que os “homens não conseguem fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo”. “Ora, eu consigo”, rebati. “Não, não, impossível”, teimou ela. Insisti que sim. Consigo escrever, ouvir música, ver TV, cozinhar, e por aí vai, simultaneamente. “Então tu é o único”, atesta ela. “Não, conheço muitas pessoas, tanto homens quanto mulheres, que fazem isso. “Mas o meu namorado não consegue”, constata ela. “Bem, cada caso é um caso, é uma característica de cada pessoa”, finalizo, mas ela continua achando que sou um caso a ser estudado pela ciência. E aí me vem a lembrança da vez que morava em São Paulo e saí algumas vezes com uma japonesinha que conheci no Masp. Íamos ao cinema, à livrarias, uma vez fomos a um show do Viper. Até que ela conseguiu estragar tudo numa tarde de domingo enquanto caminhávamos pela Paulista. “Francisco, tu é diferente”. “Mas por quê, tenho dois olhos, um nariz, duas orelhas”, brinco. “Não, não, tu é diferente do teu povo”. “Como assim, meu povo?”, me espanto. “Que povo, que povo?”. “Ah, Francisco, tu é um rapaz negro que gosta de ler, ir ao cinema, de trabalhar...”. Como assim, rapaz negro? Meu deus do céu, o “povo negro” para aquela guria era visto como preguiçoso, inculto. Parei ali na imensa avenida, olhei pra ela, e disse: “Olha, foi bom te conhecer, mas depois dessa, fui. Tu precisa aprender muito ainda”, e me mandei de volta pra república onde morava.
“Judeu”
Na quinta série, lá no Paula Soares, eu tinha um colega que nunca aparecia no colégio aos sábados pela manhã, e era dispensado das aulas de religião. Eu não entendia porque o Victor Hugo tinha aquele privilégio, e ao lado de meus outros colegas “azarados”, imaginávamos que o guri ficava num clube jogando botão ou ping-pong ou jogando bola. Morríamos de inveja. Que acabaria de modo brusco. Dias depois da Páscoa, escutamos uma gritaria no corredor, e fomos todos para lá. O Victor Hugo, que era meio franzino, estava sendo surrado por uns caras mais velhos. Ele tomava um sopapo, caia, tentava levantar, levava uma rasteira, caia de novo. Uma colega, Cristina Mocellin, tentou apartar. “Parem, parem, ele não fez nada para vocês”, disse, colocando-se no meio do bolo. “Sai, sai”, ameaçou um dos grandões. “Eu não fiz nada”, disse o Victor Hugo. Até hoje escuto a resposta de um dos espancadores. “Tu é judeu. Tua raça matou Jesus Cristo”, e vapt-vupt, mais uma porrada no Victor Hugo. “O quê? O quê? Como assim?”, perguntou outro colega. “Ele é judeu”, e vapt-vupt. E eu sem entender o que era aquele negócio de judeu. Em casa perguntei pro pai sobre judeus, morte de Jesus Cristo. Ah, tá...mas o que o Victor Hugo tinha a ver com tudo aquilo? Bem, nem ele entendia, e volta e meia era espancado nos corredores, no pátio. O guri só terminou com o bullying nazista quando começou a fazer karatê. Um dia, quando tomou a rasteira, levantou rápido e deu uma surra num daqueles skinheads mirins. No final do ano, ele saiu da escola, e nunca mais o vi.
“Coincidência”
Já escrevi sobre a Simone Berthier, menina que fez com que eu decidisse não deixar de falar com alguém quando tivesse vontade. Então estou no T-4 e vejo uma loira linda, grandes olhos verdes, lembrando a Brigite Bardot, sentada à minha frente. Admiro a guria e deu. E ela desce na mesma parada. No dia seguinte, a vejo de novo no supermercado. O seu andar é fascinante. Fico ali, babando e deu. E o que acontece no terceiro dia? Cruzo com a guria na Rua da Praia. Quem está seguindo quem? Aí terminam os encontros. Não a vejo por uns três meses. Março chega e a guria volta a cruzar comigo nos horários e lugares mais variados. Na décima vez em que esbarro nela, fico pensando: porra, tenho de conhecer esta guria. Claro que a minha timidez vai me impedir de chegar perto dela. No dia seguinte, estou chegando em casa e cruzo com ela. Penso em falar com ela, mas não consigo. No outro dia, de novo. PQP...prometo para mim mesmo que se no dia seguinte esbarrar com ela, me apresento. E o que acontece? Desço do ônibus, e a menina está na parada. Fico ali, observando, respirando fundo, mas não dou um passo para me aproximar dela. Chega, penso. É muita tortura. Até que 24 horas depois, pego o ônibus e quem sobe nela e senta bem no banco em frente ao meu? Ah, é o destino. Hoje eu perco a vergonha e falo com a menina bonita. O ônibus passa pelo Barra Shopping, Beira-Rio, Praia de Belas e começa a se aproximar perigosamente do Centro. Quando passa no Açorianos, respiro e digo: “É agora”. Dou um leve tapinha no ombro dela, que se vira. “O QUE FOI, O QUE TU QUER?”, berra a BB cover. Putz. “Eu só queria falar contigo, saber teu nome...”, falo tremendo. “Meu nome é CRISTIANE, TÁ BOM, CRISTIANE, O QUE MAIS TU QUER SABER?”, continua berrando. Eu não sei aonde enfiar a cabeça naquela hora. O ônibus entra na Salgado Filho. “Já conheci, me desculpe”, peço. “Foi mal”, encerro. A loira Cristiane sai do ônibus batendo violentamente os pés...que medo...
terça-feira, 4 de junho de 2013
“Foguete”
Separado após relacionamento de seis anos, e alguns meses de “luto”, comecei a sair de novo. Um dos points no começo dos anos 2000 era o Dr. Jeckill, ali na Cidade Baixa. Foi lá, onde batia o ponto todos os finais de semana, que conheci um grande amor em minha vida, e também protagonizei um fiasco homérico. Estava uma galera na casa da Anne Coutinho, ali na República, fazendo a concentração para ir à danceteria lá pelas 23h30min, meia-noite. Começamos com cerveja, partimos pro vinho, e eu havia ganhado de presente no final do ano anterior uma champagne. Decidimos deixar o espumante para beber mais tarde, lá dentro do Dr. Jeckill. O problema era como entrar no local com a garrafa...resolvido, escondo dentro do casaco, já que fazia frio. Entramos, e vamos pra pista de dança, no segundo andar. Já meio entupido de outras bebidas, começo a tomar a champagne no bico, e com a movimentação, as luzes piscando, começo a ficar tonto. Sinto que vai dar porquinho, e corro pro banheiro, onde me tranco, e começo a vomitar sem parar. É como uma cachoeira, incessante. Começo a ficar fraco e sem força para me mexer. Eu levanto a cabeça, abaixo e ...hugoooo...as pessoas do lado de fora se assustam e tentam arrombar a porta, mas não conseguem. Será que morrerei ali, afogado? Nisto, o Iberê com a ajuda de um segurança, pula a porta e para dentro do banheiro, abrindo a porta. Estou quase desmaiando, e ele, com pouco mais de 1 metro e meio, consegue me carregar para fora. As gurias se assustam, mas não, não vou morrer. Mas não posso mais ficar lá, preciso descansar. A Anne decide que vou ficar na casa dela, até ter condições de voltar pra minha. E o Iberê, consegue não sei daonde uma força e sai me carregando duas quadras e meia. Em todo o trajeto, eu só consigo dizer: “cadê a Sandra, cadê a Sandra”, que não havia ido à festa àquela noite. Ao chegar no apartamento, as forças do Iberê acabam, e acabo ficando no chão mesmo. Não quero o café, o chã que me são oferecidos. Apenas apago, e o Iberê e a Anne me tapam. Como estou dormindo, e são pouco mais de 3 da manhã, eles voltam pro Dr. Jeckill, e eu fico ali, pregado no sono, só acordando, quando a turma toda retorna, às seis da manhã.
“Consultório”
Um certo tempo atrás, por causa da depressão, vivia entupido de antidepressivos. E todo mundo sabe que estes remédios causam alguns terríveis efeitos colaterais. E um deles eu teria a constatação de modo nada agradável. Fiquei com uma guria linda numa festa e a sequência foi irmos pra casa dela. Os beijos eram intensos, os amassos, mas eu não conseguia sentir nada lá embaixo. Nada. O bichinho estava mortinho. Quando ficamos nus, a guria tentou de tudo para acordá-lo. Zero, zero. E eu querendo me atirar lá do sétimo andar. Ela passa a mão na minha cabeça. “Tudo bem, tudo bem. Vamos dormir”, diz ela. Claro que não dormi, pois passei as duas horas seguintes tentando explicar o que poderia ter ocorrido. Só parei quando notei que ela já estava no mundo de Morfeu há muito tempo. E pensei que não teria outra chance com a guria, até que ela me ligou na semana seguinte, e disse que queria me ver. Fui vê-la e de novo nada...tentamos mais umas duas vezes nas semanas seguintes, e sempre acontecia o nada, e eu já pensava em meter uma bala na cabeça, se tivesse uma arma. Não teria jeito, precisava procurar um urologista. Fui nas páginas amarelas, catei e fiquei ligando. “Aceita Unimed, aceita Unimed?”. Marquei a consulta, e me fui pro consultório. Chego lá, e quando olho, tem uns seis velhinhos na sala de espera. Ficam me olhando, um misto de espanto, e outro de satisfação por ver alguém mais jovem “se foder direitinho”. Eles sabem porque estou ali. Sento e abro um livro. Sou avisado pela secretária que serei atendido logo. “Ok, mas e estes senhores?”, pergunto pra ela. “Ah, eles chegaram muitooooo cedo à consulta. É sempre assim”, ela me informa. Afinal, eles não têm o que fazer mesmo no resto do dia, então vão pro consultório zoar da cara do pessoal mais novo que anda brochando, fico imaginando. Nisso, abre a porta da sala do médico e...dela sai uma ex-colega minha do tempo do colégio com uma daquelas maletas de amostras médicas. A guria me olha bem nos olhos, feliz por me rever depois de tantos anos. “Izidroooooo”. Engulo em seco. PQP. Merda de mundo pequeno. “O que tu faz aqui?”, pergunta ela, que virou representante de produtos médicos, antes de completar. “Ih, não precisa explicar. Entendi”, me dando um tapa no ombro, daqueles que significam “sou solidário no seu sofrimento”, e sai porta fora. Deu, agora todo o Paula Soares vai saber que o Izidro foi procurar um médico especializado em disfunção erétil. “Sr. Francisco”, chama o médico. (continua)
segunda-feira, 3 de junho de 2013
"Parede"
A dona Irene é a mãe de um amigo meu de escola, o Carlos Alberto. E uma vez fui na casa dele fazer um trabalho escolar, e ela preparou um cafezão pra gente. Tímido e com aquela ordem de minha mãe na cabeça: “Nunca aceite nada na casa dos outros”, recusei. Para quê? A dona Irene ficou num misto de tristeza e indignação, parando de falar comigo em todas as outras vezes que apareci por lá. O Carlos, notando o meu desconforto e o silêncio da mãe dele, resolveu checar para ver o que havia acontecido. A dona Irene revelou pra ele sua mágoa, e ele me contou. “Tá bom”, disse eu, passando a aceitar os cafés, bolos, pães caseiros que ela orgulhosamente punha a mesa. E quase perdi o privilégio, quando um dos gatos da dona Irene decidiu pegar no meu pé. Eu chegava lá, ficava escutando Black Sabbath, Deep Purple e Led Zeppelin com a Eliane e o Julinho, irmãos do Carlos, enquanto esperávamos o café. E o gato me olhava, olhava. E um dia decidiu agir. A dona Irene vinha da cozinha com a bandeja carregada de bolos e um café fumegante, quando o bichano me olha e salta no meu colo, cravando as unhas nas minhas pernas, que mesmo protegidas pela calça jeans, ficaram arranhadas. Na mesma hora, eu pego o bicho pelo pescoço, grito NÃO, e o jogo na parede, bem no momento em que a dona Irene passava, não sendo atingida por milímetros. O gato bate na parede, escorrega pro chão, miando e sai correndo porta afora A dona Irene me olha, os olhos se enchem de lágrimas...”Me desculpe, me desculpe”, peço repetidamente, sem sucesso, enquanto penso numa forma de me matar. Sou obrigado a me retirar. Seria perdoado uma semana depois, mas sempre que o gato chegava perto, eu dizia: “Não vemmmmmmmmmmm”, para delírio do pessoal da casa.
“Épocas”
Acho o Justin Bieber um tremendo mal para a música. Por mim ele poderia ter ficado escondido lá no Canadá por toda a vida. Mas já teve coisa pior...e uma amiga de infância me fez lembrar isso. Outro dia ela me liga, e reclama: “Chico, não aguento mais a minha filha, é o dia todo Justin Bieber prá cá, Justin Bieber prá lá...como uma guriazinha pode gostar destas porcarias? O que faço?”, desespera-se. “Olha, quando ela crescer, com certeza vai descobrir música de verdade”, filosofo. “Mas como ela pode gostar desta coisa?”, insiste minha amiga. “Fala alguém que encheu os cadernos com fotos e desenhos do Menudo...minha filha, não se reprima, que passa”, sacaneio. Ela desliga o telefone, furiosa, para me ligar no dia seguinte. “É, eu tinha o Menudo na minha vida...”
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