Volto das férias, chego na redação do CP, e ganho o carinho da Lu Winck e da Karina, beijo no rosto. O Claudio Isaias ganha um aperto de mão e reclama: “Puxa, as gurias ganharam beijo”. “Tá bom”, respondo, dando um beijo na bochecha dele. “O Chico me deu um beijo”, espanta-se ele. “Tu pediu”, continuo. Aí o Nildo sai do canto dele e fala: “Pô, depois de velho tu ficou viado”. Nem dou bola, um colega e amigo de priscas eras pediu um beijo e ganhou, qual o problema? Aí lembrei de algo ocorrido há mais de duas décadas. Estava ainda no Colégio Paula Soares, sentado nas escadarias com minha turma, quando aparece o Luís Antônio, que já nos anos 1980 assumira ser gay. Não recordo quem falou, mas disseram para ele não entender como um homem podia beijar outro homem. O Luís nos olha, e retruca: “Normal”. “Não, homem não pode beijar homem”, respondemos. “Ora, vocês nunca beijaram o pai de vocês, o irmão, um tio?”, pergunta o Luís. “Claro que não”, digo, e isso me lembro. “Como vou beijar meu pai, ele é homem”, ressalto. “Bem, eu beijo meu namorado e meu pai”, garante o guri. A gente só falta cuspir no chão, de nojo. Quatro anos depois, me vejo na UTI do Hospital Vila Nova, na zona sul, onde o pai está internado após sofrer um derrame. Barbudo, recém saído da entubação, ele consegue falar: “Filho, pede pra me fazerem a barba”, ele que era todo vaidoso. Chamo o enfermeiro e relato o pedido do pai. “Pode deixar”, me garante o enfermeiro. “Ainda mais que amanhã o seu Francisco vai pro quarto, e deve ganhar alta em dois, três dias”, informa. Vibro, comunico as informações pro pai, que esboça um sorriso. Me inclino e o beijo na testa. Ele deixa escapar uma lágrima, e com dificuldade, me beija na bochecha. Vou pra casa, feliz. No dia seguinte, chego no hospital e vou direto pro quarto que me informaram onde ele estaria. Chego lá e não o encontro. Um segundo depois o médico entra no quarto e entendo. O pai teve um ataque cardíaco cerca de uma hora antes e não resistiu. O chão sob os meus pés some e desabo, num choro convulsivo. Mas pelo menos dei um beijo, que não doeu, em meu pai. Um beijo numa pessoa amada, uma demonstração de carinho. Simples assim.
Guaibadas é uma homenagem a Porto Alegre e o rio/lago que o circunda, cidade em que se passa a maioria das histórias que vou contar aqui. Histórias que aconteceram comigo, com amigos e amigas, com conhecidos e desconhecidos. Alguns causos são hilários, outros apenas divertidos, muitos são tristes, outros não tem nada de especial, mas mesmo assim devem ganhar a luz do dia. Enfim, um olhar sobre o porto-alegrense e suas loucuras.
domingo, 5 de maio de 2013
O beijo
Volto das férias, chego na redação do CP, e ganho o carinho da Lu Winck e da Karina, beijo no rosto. O Claudio Isaias ganha um aperto de mão e reclama: “Puxa, as gurias ganharam beijo”. “Tá bom”, respondo, dando um beijo na bochecha dele. “O Chico me deu um beijo”, espanta-se ele. “Tu pediu”, continuo. Aí o Nildo sai do canto dele e fala: “Pô, depois de velho tu ficou viado”. Nem dou bola, um colega e amigo de priscas eras pediu um beijo e ganhou, qual o problema? Aí lembrei de algo ocorrido há mais de duas décadas. Estava ainda no Colégio Paula Soares, sentado nas escadarias com minha turma, quando aparece o Luís Antônio, que já nos anos 1980 assumira ser gay. Não recordo quem falou, mas disseram para ele não entender como um homem podia beijar outro homem. O Luís nos olha, e retruca: “Normal”. “Não, homem não pode beijar homem”, respondemos. “Ora, vocês nunca beijaram o pai de vocês, o irmão, um tio?”, pergunta o Luís. “Claro que não”, digo, e isso me lembro. “Como vou beijar meu pai, ele é homem”, ressalto. “Bem, eu beijo meu namorado e meu pai”, garante o guri. A gente só falta cuspir no chão, de nojo. Quatro anos depois, me vejo na UTI do Hospital Vila Nova, na zona sul, onde o pai está internado após sofrer um derrame. Barbudo, recém saído da entubação, ele consegue falar: “Filho, pede pra me fazerem a barba”, ele que era todo vaidoso. Chamo o enfermeiro e relato o pedido do pai. “Pode deixar”, me garante o enfermeiro. “Ainda mais que amanhã o seu Francisco vai pro quarto, e deve ganhar alta em dois, três dias”, informa. Vibro, comunico as informações pro pai, que esboça um sorriso. Me inclino e o beijo na testa. Ele deixa escapar uma lágrima, e com dificuldade, me beija na bochecha. Vou pra casa, feliz. No dia seguinte, chego no hospital e vou direto pro quarto que me informaram onde ele estaria. Chego lá e não o encontro. Um segundo depois o médico entra no quarto e entendo. O pai teve um ataque cardíaco cerca de uma hora antes e não resistiu. O chão sob os meus pés some e desabo, num choro convulsivo. Mas pelo menos dei um beijo, que não doeu, em meu pai. Um beijo numa pessoa amada, uma demonstração de carinho. Simples assim.
sábado, 4 de maio de 2013
Kevin
Eu sofri muito bullying no colégio. Hoje é muito, muito difícil, praticamente impossível eu ser vítima, mas já fui lá na sexta série. Nunca esqueci o Kevin, putz, como eu odiava o Kevin. Ele roubava o dinheiro do meu lanche, quebrava meus óculos, me passava rasteira no corredor, entre outras maldades. A maior foi quando eu ganhei da mãe uma caixa de lápis de cera, novinha, brilhando. E eu que sempre gostei de desenhar, fui todo alegre pro Paula Soares. Tou lá na aula de Moral e Cívica, da professora Rose, que era bem, mas bem pequenininha, esperando começar a aula de Artes, olhando admirado meus lápis novos. E noto que o Kevin viu eles, e vem vindo. “Izidro, me empresta teus lápis?”. A vontade é dizer não, mas sei o que aconteceria. Eu seria espancado no recreio. Então cedo. Passo eles pro Kevin. Minutos depois ele volta, e me entrega a caixa. Ufa, nada aconteceu, penso. Engano. Quando abro a caixa, estão lá todos os meus lápis novos e ainda não usados totalmente quebrados, e o Kevin sai rindo. “Trouxa, tu é muito trouxa”, grita ele. Não choro. Mas o palavrão sai forte da garganta. “Kevin, pega eles e enfia no teu cu”. Penso que serei triturado, mas não. O cara chama a professora. “ Professora, o Izidro falou um palavrão”. A professora Rose me chama e pergunta. “Francisco, o que tu falou?”. “Eu falei pra ele enfiar os lápis no cu”, respondo. A professora não quis saber o motivo de minha raiva, não perguntou o que havia ocorrido. E nem deixou eu explicar o ocorrido. Fui levado para a diretoria, e peguei 3 dias de suspensão. Putz, eu odiava o Kevin. E acabei repetindo de ano por não conseguir me enturmar naquela turma em que era alvo de zombaria. Na sétima série, cresci uns 20 centímetros, fiz amizade com os roqueiros como eu, os punks, enfim, os desajustados, e nunca mais sofri bullying, pois a gente era considerado muito mais estranhos, mas ao mesmo tempo meio perigosos, para sermos alvo de chacota.
sexta-feira, 3 de maio de 2013
Cenoura
Minha linda tia Vani, gaúcha de Livramento, fazia um bolo de chocolate maravilhoso para mim quando eu a visitava, lá nos meus 7, 8 anos de idade. Eu chegava na casa dela, sentava na sala, ficava vendo tevê e lendo alguma revistinha em quadrinhos. Então a tia Vani ia para a cozinha e voltava com aquele bolo fumegante, e um copão de Toddy, e ficava fazendo cafuné na minha cabeleira black-power, enquanto eu devorava o quitute. Não é que um dia eu chego lá na casa dela e vou direto na cozinha, onde vejo ela ralando uma cenoura. “Tia, o que tu tá fazendo?”. “Ora, Chiquinho, teu bolo”. “Mas por que a cenoura?”. A tia Vani me olha surpresa, e fala tranquilamente: “Porque sim”. “Mas tia, eu não gosto de cenoura”. “Guri, tu sempre comeu o bolo e nunca reclamou”. “Mas ele não tinha cenoura”, respondo. “O bolo sempre levou cenoura”. “Bom, então não quero mais”, retruco, indo para a sala para ver algum desenho na televisão. A tia Vani, quieta lá na cozinha, até que aparece com a fatia do bolo e o meu copo de achocolatado. “Tia, eu não quero o bolo”, teimo. “Tu sempre gostou dele”, diz ela, me oferecendo o lanche, que ponho de lado. A tia Vani não falou nada, simplesmente voltou para a cozinha, pegou o resto do bolo, voltou pra sala, e disse: “Agora tu vai comer todo ele”. Faço beiço, e é um erro. Ela segura minhas bochechas, me faz abrir a boca, e me empurra todo o bolo goela abaixo, pedaço por pedaço. Choro, esperneio, e ela não sossega enquanto não dou a última mordida, para nunca mais comer bolo de cenoura na vida. “Viu, bobalhão, o gosto é o mesmo. Tu só não quer porque viu eu fazendo, descobriu os ingredientes”. E nunca mais ganhei bolo da tia Vani.
quinta-feira, 2 de maio de 2013
Minhas bolachas
Militando no PT lá por 1986, 87. Recém estava começando a faculdade na Unisinos, e um dia tinha uma reunião ali no centro, perto da Rua da Praia, e combinei de ir com o Valmor Guedes, até hoje envolvido com política. Passei nas Americanas, comprei um pacote de bolacha recheada São Luiz, hoje conhecida como Bono, e encontrei o Valmor em frente ao serviço dele, ali na Ladeira, onde hoje é o HSBC. Fazíamos hora para ir pra reunião, conversando com o porteiro do prédio. Nisso, um carinha parou do outro lado da rua e começou a mijar na parede. O segurança xingou o cara, que retrucou. Aí o segurança puxou uma arma da cintura e disse pro cara sair fora, senão levava chumbo. Em seguida, entrou no prédio, e fechou a porta, enquanto que o mijão foi embora. Mas voltou dois minutos depois acompanhado de dois brigadianos, que já chegaram berrando. “Os dois vagabundos na parede, pernas abertas”, ordenaram. Eu larguei minha pastinha da Unisinos, que trazia a inscrição Jornalismo, e fiquei naquela posição de quem já tomou atraque bem conhece. “Eles me apontaram uma arma”, disse o mijão. Negamos, dissemos que havia sido o segurança do prédio, que sumira, claro. “Onde tá a arma?”, perguntaram. Eu e o Valmor com a cara e mãos na parece, pernas abertas. Aí um dos brigadianos olha minha pasta e vê um volume. Não tem dúvida. Pega o cacetete e dá uma porrada nela. “Minhas bolachas”, grito eu, vendo a minha janta ser esmigalhada. O Valmor começa a rir, deixa a posição de atraque e leva uma cacetada nas pernas, para deixar de ser bobo. “Não mandei tu sair da posição”, berrou o brigadiano. O outro: “O que tem aí nesta pasta?”. “Eu disse, minhas bolachas”. Ele me alcança a pasta, eu abro e mostro o pacote destruído, os farelos espalhados junto com os cadernos, livros, canetas. Então eles se dão conta que pegaram dois guris inocentes, que estavam no lugar errado, na hora errada. E incrível, mandão o mijão embora e pedem desculpas para nós dois. Claro que eles não sabiam que íamos pruma reunião política.
quarta-feira, 1 de maio de 2013
Pega na Ipiranga
Eu na carona do fusquinha do Gilson, fotógrafo que trabalhava comigo na assessoria de imprensa da prefeitura de Viamão. Saímos do serviço no começo de noite de sexta-feira e, porras loucas, vamos pra Ipiranga, participar de pegas com outros doidos suicidas. E ninguém usava cinto de segurança. Coisas inexplicáveis, como sobrevivemos a tais loucuras? A gente ficava num posto bebendo, esperando o trânsito acalmar, lá pela meia-noite, e iniciávamos as corridas. Pois numa delas para do nosso lado um outro carro, que eu como total ignorante para isto, não sei qual era. Do lado do motorista, uma gata linda, loirinha, seus 17 anos, olhos azuis. Eu e o Gilson ficamos babando, e começa a corrida. E a gente chega antes ali um pouco depois da PUC. E o Gilson olha pro cara do carro perdedor, e solta a brincadeira: “Ô Mané, tu perdeu a corrida, a gata vem agora com a gente”, diz. O cara dá um sorrisinho cínico e um segundo depois, surge na mão dele um 38. “Como é magrão, tu quer levar minha guria? Vai levar chumbo junto“, apontando o revólver pra nossa cara. Nunca vi alguém acelerar tão rápido quanto o Gilson, eu quase voei parabrisa à frente. Ali acabava minha carreira de copiloto de fusca em pegas na Ipiranga.
Sete dias
Algumas coincidências assustadoras da vida. Segunda-feira, dia de folga, cai o maior temporal, e assim decido ficar em casa do que me aventurar pelas ruas engarrafadas e alagadas de Porto Alegre. Em algum canal a cabo começa a passar O Chamado, aquele do “seven days”. Atirado no sofá, tomando um vinhozinho, chega a cena famosa. Toca o telefone na tela, e o que acontece? O meu telefone também toca. Putaqueopariu, tomo o maior cagaço, pulo do sofá...mas atendo e do outro lado da linha, minha mãe. “E aí filho, tá tudo bem?”. “Agora, após o cagaço, tá”, digo para ela, que não entendeu nada do que aconteceu do lado de cá da linha.
segunda-feira, 29 de abril de 2013
Cartório
Estava apaixonado pela Gabriela, fazia de tudo para conquistá-la, mas ela não cedia aos meus apelos, as mensagens, aos presentes. Mas mesmo se mantendo impassível às minhas investidas, parecia estar gostando do assédio, tanto que me recebia sempre, aparecia correndo quando a chamava para sair, pois estava fazendo bem pro ego dela. Isso mantinha minhas esperanças. Uma tarde, vamos tomar um café, e passados dois minutos começo minha ladainha romântica, a Gabriela ri muito. Esperançoso, seguro as mãos dela. Ela sopra um fio de cabelo longo e loiro que escorreu sobre seu olho. “Gabi, eu estou louco por ti. Tanto que caso contigo agora mesmo, sem pensar duas vezes”, blefo. E qual a resposta da Gabi? “Tudo bem, tá vendo ali na frente? Um cartório, vamos agora lá mesmo para casar, mas tu paga a certidão”, responde ela. Ali ela me matou. Olhei e realmente tinha um cartório do outro lado da rua. Engoli seco, e disse que também não era para tanto. “Ah, Chico, tu não é de nada, tu não tá apaixonado por mim, só tá encantado pelos meus olhos lindos”, decreta ela. E a minha “paixão” morre.
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