Cheguei na portaria do prédio onde moro, na zona sil de Porto Alegre, e uma senhora, elegante, falava com alguém pelo interfone.
Eu peguei a minha chave tag, coloquei no sensor e a porta se abriu. Na hora, ela disse para a pessoa do outro lado da linha:
- Minha filha, não precisa mais. O porteiro abriu a porta para mim.
Eu, de calça jeans e camisa preta de banda de heavy metal, fiquei olhando, dei passagem para ela, que se dirigiu ao elevador. Eu fui atrás. Abri a porta para ela entrar, e entrei em seguida.
Aí ela disse: - Obrigado, moço. Mas não precisa me acompanhar. Estou indo na minha filha, e sei o andar. Muito obrigado – repetiu, apertando o botão do andar em que desceria. Eu apertei o botão do meu andar.
Acho que ela nem viu, pois falou: - Moço, não precisa me acompanhar. O senhor já fez a sua parte, muito gentil.
Então simplesmente disse: - Senhora, eu moro aqui. Estou indo pra minha casa.
Ela: - Você não é o porteiro? Pensei que tu era o porteiro.
- Não, eu sou morador.
- Ah...
- Eu sei o que a senhora está pensando. Pode dizer em voz alta porque achou que eu sou o porteiro. Não vou ficar brabo.
Ela ficou com o rosto completamente vermelho. E ela abaixou a cabeça.
- Por favor, senhora, fale. Não vou brigar – garanti.
Ela: - Não vou falar, não vou falar!
- Por favor!
- Não.
- Então eu vou dizer. A senhora viu um cara preto, e concluiu imediatamente que deveria ser um serviçal, nunca um morador do condomínio, né?
Então ela se rendeu. – Sim, tu é negro. Pra mim, é apenas um funcionário.
- Viu só, não doeu.
- Moço, estou morrendo de vergonha. Me desculpa.
- Eu não vou brigar com a senhora, mas perdoar, eu não perdoo. Espero que a senhora mude seu jeito de ver o mundo.
O elevador chegou no andar da filha dela. A senhora desceu rapidamente, mas pedindo desculpas sem parar.

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