terça-feira, 2 de junho de 2015

“Bono, Bolo”

Está passando na tevê um comercial dos postos Ipiranga, onde um matuto tenta fazer o Cebolinha dizer Ipiranga, e o Cebolinha não consegue, falando “Ipilanga”. Aí me lembrei de uma vez em que estava no aeroporto de Salvador esperando a hora de meu voo. Sei lá, de repente deu vontade de comer umas bolachas recheadas. Levantei da cadeira, fechei o livro que estava lendo e fui procurar as tais bolachas. Lá de longe enxerguei um quiosque com várias guloseimas. “Boa tarde”, disse. A guria que estava no balcão me olhou e perguntou, com aquele sotaque cantado baiano: “Cê não é daqui não, né?”. “Não, sou do Sul. Gaúcho”. “Ah, tá, que cê quer?”. “Eu queria um Bono”, falei, citando as famosas bolachas, que antigamente eram conhecidas como São Luiz Extra. “Bolo?”, retrucou ela. “Não, Bono”, respondi. “Bolo?”. “Não, Bono”. “Bolo?”, insistiu a baiana. Eu achei que ela estava tirando sarro de minha dicção, que não é das melhores. “Não, quero Bono”. “Bolo não tem”. “Não, Bono, Bono”. “Ué, não temos bolo”. PQP. Pensei melhor. “Não, querida, Bono, bolachas recheadas”. “Ah, biscoitos recheados. Como é mesmo? Bolo?”. “Não, Bono, com ene, não é bolo, o que você não está entendendo?”. “Bono não conheço não”, finalmente me disse a guria. “Pensei que tinha em todo o Brasil”, falei para ela. Acabei me contentando com uma barra de chocolate e balas de goma.

terça-feira, 19 de maio de 2015

“Músico”

Sou um músico frustrado. Aliás, nem músico sou, mas amo música e sempre quis saber tocar um instrumento. Pois aos seis anos de idade, tive a chance de receber aulas particulares, todos os sábados, lá pelas 18h. O problema é que meu professor era uma pessoa tri problemática, tanto que em 1982 simplesmente enfiou uma bala na cabeça, depois de um final de semana deprê. Pois bem, lá estou eu, um piá querendo tocar violão. E o meu professor, Antônio Augusto, filho de um desembargador padrinho de minha mãe, decidiu me dar aulas. E sem a mínima didática e paciência. Ele ia me ensinando a maneira de segurar o violão, as notas e eu ali, extasiado, querendo tocar o tema dos documentários do Jacques Costeau, que passava na tevê nos sábados, antes das aulas, na antiga Difusora, hoje Bandeirantes, ou então o tema dos Banana Splits, lá, lá, lá, lá, lá, lá...eu ainda não conhecia o rock’n’roll. E eu errava as notas, ele tirava o violão das minhas mãos, me mostrava como fazer as notas e me devolvia o instrumento e eu errava, errava de novo, de nervoso. Mas persistia. Até que num certo dia, o Antônio Augusto perdeu a paciência depois de eu errar novamente uma nota. E o que ele fez? Arrancou o violão de minhas mãos e o jogou na minha cabeça. Coloquei as mãos como defesa e o instrumento caiu no chão, se arrebentando. “Guri burro, guri burro. É tão simples”, berrou o professor, e o meu choro tomou conta da sala. Nunca mais voltei a tentar aprender a tocar qualquer coisa.

“Escada Rolante”

Vocês vão pensar que é sacanagem, mania de perseguição, mas realmente aconteceu com uma senhora. Foi lá por 2003, 2004, lá no Bourbon Country. Eu saí do cinema por volta das 20h e pensando em pegar o ônibus e retornar para casa de uma vez. Pois chego na escada rolante e vou descendo e na minha frente uma senhorinha de seus 70 anos. Como a escada tem espaço para mais de uma pessoa de uma só vez, passo por ela. E de repente escuto: “Você não tem educação. Socorro, socorro”, berra ela. Olho para trás e a vejo apontando o dedo para mim. “Você não pode passar por mim. Não pode, não pode”, repete ela. “É comigo?”, pergunto. “Tu é muito cara de pau, rapaz”, me diz ela. “Mas o que eu fiz?”, questiono. “Eu estava na frente e tu não pode passar por mim”, diz a senhorinha, já chamando o segurança, que corre em minha direção e vai pegando o meu braço. “Este rapaz passou por mim na escada rolante”, denuncia ela. “Mas tem espaço suficiente para umas três pessoas passarem ali”, digo. “Tu não pode passar por mim”, berra a velha. “Por favor, dá para me soltar”, peço ao segurança, que não sabe o que fazer. Ele acaba soltando meu braço e eu explico que ia descendo a escada rolante e só tinha essa senhora na minha frente e dava tranquilamente para passar. Não fiz nenhuma contravenção. Porém ela se sentiu ofendida e armou um miniescândalo. “Tu é muito mal-educado”, diz a velha. Eu vou me afastando e ela não se dá por satisfeita, agora gritando com o segurança. “Faça alguma coisa”, pede ela. “Mas minha senhora, ele não fez nada errado”, fala o guardinha. Me mando dali.

“Afogado”

Em 2013 passei as férias no litoral paranaense. Um belo hotel e uma piscina só pra mim durante a semana. Era abril e não tinham outros hóspedes durante a semana. Só eu. Mas no final de semana o local ficava lotado. Tanto que um dia cheguei para tomar café e não havia cacetinhos. A senhora do restaurante disse que como só eu estava por lá, eles não haviam providenciado o “pãozinho francês”, mas poderia pedir pro boy buscar na padaria mais próxima. Só que havia pão feito em casa. Então tudo bem. Pois num final de tarde decido entrar na piscina, por volta das 17h30min. Ninguém mais por perto. Só eu. Ponho os pés na água, gelada. Aí vou entrando aos poucos, até o corpo se acostumar com a temperatura. Então com o corpo bem ambientado, dou umas braçadas e vou da parte rasa para a parte mais funda, cerca de três metros de profundidade. É quando ocorre o problema. Sinto câimbras e vou afundando. Tento voltar, mas não consigo. Vou sendo puxado para baixo. E é quando penso: “então é assim? Vou morrer afogado e mais tarde, quando um funcionário vir limpar a piscina, vai dar de cara com meu corpo boiando na água...”. Bato os braços e nada, nada, nada. Me fudi. Então penso: “ Nada de desespero. Respire fundo e tente chegar na beira da piscina”. Começo a me mexer, bater os braços e enfim, depois de engolir um bocado de água, consigo chegar na beirada da piscina, onde me seguro na borda, ofegante, apavorado, mas vivo. Que cagaço.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

“Assalto”

Lá por 2009, 2010, todos os sábados eu ia ao cinema no GNC Moinhos na sessão das 19h, 20h. Na volta, por volta das 23h, 23h30min, sempre pegava o T3 ali no Parcão, e quando chegava na parada da Icaraí quase esquina Campos Velho eu descia do ônibus. E várias vezes eu vi o veículo, vazio, entrar na Campos Velho ao invés de ir para o final da linha, no BarraShopping. Então num sábado, o T3 está na Icaraí, e apenas eu, a cobradora e o motorista lá dentro. Pô, então eu penso, bem que poderia pedir para ficar no ônibus e descer em frente ao prédio onde moro, e não precisar caminhar quatro quadras se ele entrasse na Campos Velho, onde moro. Como estou lá atrás, nos últimos bancos, me levanto e vou em direção a cobradora. “Moça”, chamo. No mesmo momento ela dá um berro: “Não, não, por favor, hoje não, não nos assalte”. Eu paro no meio do corredor, assustado. “O que foi, o que foi?”, olhando para trás, talvez houvesse mais alguém no ônibus, um ladrão, mas não, apenas eu de passageiro. Ela está de braços levantados e o motorista vai freando o ônibus. Aí entendi. Ela viu aquele negão levantando e indo em sua direção e pensou em assalto. “Não, não, só iria perguntar para vocês se o ônibus vai entrar na Campos Velho e se eu poderia ficar nele até descer em frente ao meu prédio...”, digo. “Menino, que susto”, diz a cobradora. “Pô, tu vê um negão e já pensa em assalto”, falo. “Não, não foi isso. É que nesta semana um cara ficou sozinho no ônibus, levantou, veio até aqui e colocou uma arma na minha cara. E era loiro”, conta a cobradora, aliviada e já dando risada. O motorista também entra no papo e poucos minutos depois me deixam bem em frente ao meu prédio, são e salvo.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

“Calote”

Recém-formado e desempregado, o jeito era à época, idos de 1991, pegar os classificados dominicais e procurar ofertas de emprego. Na segunda-feira ir ao correio e enviar o currículo, quase nulo, já que a experiência praticamente era zero, para as empresas que colocavam seus anúncios, procurando jornalistas. Até que um dia apareceu uma resposta de uma revista que estava sendo lançada no sul do país. Vibrei e fui na entrevista, cuja vaga era para repórter da “Revista do Nativismo”. Eu, roqueiro e sem nenhum gosto pelo assunto, aceitei por desespero. Tinha de passar os dias visitando CTG’s, conversando e entrevistando patrões, prendas. Em suma, um saco. A revista tinha sede perto da UFRGS, na rua Avaí. Passou um mês e nada de salário, dois meses e nada de salário, três meses e nada, nada, nenhum centavo, mas os donos da revista dizendo que logo os anunciantes fariam os pagamentos e eu receberia meu dindim, acumulado. E dê-lhe passar os finais de semana escutando as pessoas dizendo que rock era coisa de débil mental, que mulher deveria ficar na cozinha e que não deveria usar calça comprida, entre outras bobagens. Pois começou o quarto mês, saio de casa e me dirijo para a redação. Na entrada, o zelador do prédio me vê, e pergunta: “Guri, onde tu vai?”. “Ué, na revista”. Aí escuto o absurdo: “Rapaz, os donos vieram ontem aqui, e esvaziaram tudo. Não ficou nada”. “Mas como?”. “Ora, eles fecharam a revista”. Putaqueopariu, penso, me sentindo o maior trouxa. Na época não existiam celulares e os telefones que tenho não são atendidos. Então descubro que um dos donos também trabalhava na rádio Liberdade, que ficava na Protásio Alves. Me mandei para lá, tomei um chá de cadeira, até achar o pilantra. Ele me viu, arregalou os olhos e tentou sair por outra porta. Fui atrás. “Cara, minha grana”, berrei. Ele teve de parar e me encarar, já pedindo desculpas. “Puxa, não conseguimos os anunciantes necessários”, foi dizendo. “Não me interessa, trabalhei três meses e quero minha grana, inclusive as passagens que gastei”, falei, nem acreditando ter tido coragem. O cara me pediu uns dias para levantar o dinheiro e me pagar. Acreditei e levei mais três meses para receber. Toda a semana era a mesma desculpa, até que ele me passou três cheques pré-datados, que claro estavam sem fundos. O jeito era ligar para o trabalho e até para a casa dele, e falar com a mulher dele, que no mínimo se encheu das minhas ligações a qualquer hora do dia, feitas de orelhão, e deve ter pedido para ele pagar aquele cara chato que não parava de ligar. Dez anos depois, tomei outro tufo em um frila, mas esta história fica para outro dia.

terça-feira, 28 de abril de 2015

“No Escurinho do Cinema”

Ninguém tem paciência comigo, parafraseando o Chaves. Véspera de feriado de Tiradentes e decido ir ao cinema, lá no Espaço Itaú, no Bourbon Country. Chego e a fila para comprar os ingressos é enorme, uma piazada berrando e correndo. Torço para que não seja na sessão que pretendo ver, mas não, pois iria assistir a comédia-romântica “Um Fim de Semana em Paris”, e a criançada estava lá para ver “Cada Um Na Sua Casa”. Pego o meu ingresso e como ainda tem uns 30 minutos para começar o filme, vou dar uma volta na Livraria Cultura. Erro, pois acabo encontrando amigos e conhecidos e papo vai, papo vem, acabo me atrasando para entrar na sala 8. E quando o faço. o cinema está lotado. Como os lugares são marcados, vou na minha fila e ao chegar na minha poltrona, tem uma senhora sentada nela. A do lado está vazia. Bem, não vou brigar por um lugar. Aí peço com licença e ao passar pela senhorinha, acabo pisando no pé dela, já que o espaço para caminhar é mínimo. Levanto as mãos e peço desculpas, mas não adianta. Ela começa a berrar, me xingar: “Seu idiota, pisou no meu pé, imbecil, tu não enxerga”. “Minha senhora, me desculpe, foi sem querer”, digo. “Idiota, idiota, você fez por gosto”, berra a mulher dentro da sala. Eu quero que um buraco abra e eu possa entrar nele. E ela berrando. Eu sento na poltrona livre, ao lado dela. E a mulher me olha com uma raiva inacreditável e diz: “Do teu lado eu não fico, imbecil”, grita e levantando, trocando de lugar com um senhor que estava em outra poltrona. Deu, ali a sessão de cinema foi pro espaço pra mim. Passei as quase duas horas, encolhido, não achando graça de nada, por causa de uma atitude destemperada de uma pessoa, que além de tudo, estava sentada em meu lugar. Não sei o quanto teve de intolerância, racismo e outras coisas mais ali.

MACUMBEIRO

Sábado à tarde, caminhando em Gramado, em direção ao Palácio dos Festivais para assistir ao filme do dia, cruzo com uma senhorinha. E ela m...