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Mostrando postagens de abril, 2013

Cartório

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Estava apaixonado pela Gabriela, fazia de tudo para conquistá-la, mas ela não cedia aos meus apelos, as mensagens, aos presentes. Mas mesmo se mantendo impassível às minhas investidas, parecia estar gostando do assédio, tanto que me recebia sempre, aparecia correndo quando a chamava para sair, pois estava fazendo bem pro ego dela. Isso mantinha minhas esperanças. Uma tarde, vamos tomar um café, e passados dois minutos começo minha ladainha romântica, a Gabriela ri muito. Esperançoso, seguro as mãos dela. Ela sopra um fio de cabelo longo e loiro que escorreu sobre seu olho. “Gabi, eu estou louco por ti. Tanto que caso contigo agora mesmo, sem pensar duas vezes”, blefo. E qual a resposta da Gabi? “Tudo bem, tá vendo ali na frente? Um cartório, vamos agora lá mesmo para casar, mas tu paga a certidão”, responde ela. Ali ela me matou. Olhei e realmente tinha um cartório do outro lado da rua. Engoli seco, e disse que também não era para tanto. “Ah, Chico, tu não é de nada, tu não tá apaixo...

A gordinha

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A Daniela era uma gordinha hippie que ficava me seguindo lá no Paula Soares. Onde quer que eu fosse, lá aparecia a guria, com uma calça boca de sino rasgada, bolsa de pano à tiracolo. Mas como boa parte dos adolescentes, medo de se aproximar do alvo. Um dia estava no Marinha, jogando bola no campo de areião, sim, naquela época era de areião, e olho pro lado e lá está ela, com uma amiga. E me abana. Quase morri de vergonha. E a amiga me entrega uma carta da Daniela, se declarando. E se meus amigos vissem? Comento o caso com meu pai. “Bah, pai, tem uma guria assim, assado, que fica me seguindo, e que se declarou pra mim”. “E qual o problema? Fala com ela”, orienta o seu Chicão. “Ela é gorda”, disparo. “Sim, e qual o problema?”, continua ele, impassível. “Pai, ela é gorda”. “Bom, vamos por parte. Tu tem a cara cheia de espinhas, tem um dente acavalado (aquele que ficava sobre os outros), usa óculos, é magro que nem um bambu, né? E outra coisa, se tu prestar atenção, toda gordinha é boni...

Dupla de estudos

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A Thais era uma lourinha linda, com o rosto cheio de sardas, e na sétima série a gente decidiu fazer uma dupla de estudos para acabar de uma vez o ano, sem precisar de recuperação. No último bimestre a gente se encontrava todos os dias para estudar, inclusive nos finais de semana. Eu manjava as matérias humanas, mas não as relações humanas, e ela era boa nas exatas. Evidente que tanto grude acabou fazendo com que a gente se apaixonasse, mas eu era muito abobado para abrir meu coração para aquela mini-deusa, mesmo que a gente começasse a andar de mãos dadas, e nada de beijo. Véspera de prova de história, ela decidiu que iriamos estudar na casa dela, à noite, depois da janta. Lá apareço, os pais dela na sala, vendo novela, e ela me leva pro quarto, se deita na cama e eu sento no chão. “Chico, deita aqui do meu lado”, manda ela. Eu começo a suar, aquilo não está acontecendo. Será? O que faço, beijo ela? E se estiver errado? Afinal, sou feio, óculos fundo de garrafa, cara carregada de esp...

Amiga Punk

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Em 1984, o Camisa de Vênus fez uma apresentação no Araújo Viana, no rastro do sucesso “Eu não matei Joana D’Arc”. Lá fomos eu e minha amiga punk Márcia. No dia seguinte, nos encontramos ali na Praça da Bronze, ainda roucos, para comentar o show e claro, ficar cantando as músicas – a gente sabia todas de cor e salteado. Aí vem vindo o Lula, um guri que amava Michael Jackson e estava sempre com o disco Thriller embaixo do braço. “Que vocês estão falando aí”, quis saber ele. “Do show de ontem do Camisa de Vênus”, respondo, e ele faz uma cara de nojo. “Por quê vocês escutam estas barulheiras, estas músicas de louco?”, pergunta ele. Wrong, wrong, pergunta errada. Na mesma hora a Márcia olha para ele e mete uma cusparada, mas uma senhora cusparada na cara do guri. “Porque sou punk”, grita ela, imitando o gesto do ídolo Sid Vicious. O que resta ao Lula? Ora, sair chorando. A Márcia era tão punk, tão punk, que anos depois fez concurso público, passou, começou a trabalhar, para um pouco depo...

Olhos vermelhos

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Eu morava na Vasco Alves, ali perto da Praça da Bronze, com meus 15, 16 anos, e fiz amizade com uma menina judia, Márcia, que era punk. A gente ia pra casa dela escutar música, eu levava meus Lps de heavy metal e ela punha pra rodar os dela, Clash, Sex Pistols, Siouxie and the Banshees, entre outras bandas, mas também curtia vários estilos. Ela que me apresentou Tina Turner, por exemplo. E eu míope desde sempre, usava uns óculos fundo de garrafa, que odiava. Então às vezes deixava-os em casa, mas para enxergar alguma coisa eu tinha de “forçar a vista”. Numa noite eu e a Márcia estamos lá na casa dela, e bom, tá na hora de ir embora, antes que os pais dela me pedissem educadamente, sabe como é, a gente tinha de respeitar os horários na casa dos outros, e tínhamos um alarme simancol próprio – a gente sabia a hora de dar no pé, uma coisa quase automática. Aí tou saindo, indo em direção ao elevador, quando a Márcia sai correndo do apartamento, e me pega pelo braço. E se segurando para não...

O vendedor

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Trabalhando na redação da Ipanema FM, lá no Morro Santo Antônio, entra um gordinho engravatado, acompanhado de uma guria grávida. Era vendedor de assinatura da revista IstoÉ. Pede uma força, já que a esposa está grávida, e ele precisa vender um determinado número de assinaturas, para ganhar uma graninha extra, afinal será pai. Comovido pela esforço dos dois, faço uma assinatura da IstoÉ, mesmo comprometendo um dinheiro que estava juntando para adquirir meu apartamento. Exato um ano depois, o mesmo gordinho entra na redação da rádio, senta na cadeira dos visitantes, e se anuncia vendedor de assinaturas, como se eu fosse esquecer. E pergunto: “E aí, cara, como tá a mulher e o filho?”. O gordinho me olha com uma cara de que não está entendendo nada. “Como assim, que mulher, que filho?”, replica ele. “Ora, no ano passado você esteve aqui com...” Não preciso terminar a frase. O carinha se entregou, estava mentindo. A guria grávida era a irmã dele, que ele usava como isca para comover os tr...

A carona

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Churrasco da turma da Ipanema FM na casa do Fernando Sorriso no Jardim Botânico. Inverno, fazia uns 8 graus. Eu fui direto, mas combinei com o Ernani Campelo que voltaria com ele, já que ambos morávamos na zona sul. Só que apareço com a camisa do Grêmio, e o Naninho é um cruzeirista fanático. “Assim tu não vai entrar no meu carro”, diz ele. “Tudo bem, eu me viro”, respondo. Lá pelas 3h da manhã está mais frio ainda, chovendo, e acabou a bagunça. Achando que o Montanha não falou sério, vou entrando no fusquinha dele. “Sai”, fala ele. “O que é, Naninho?”, retruco. “No meu carro tu não entra com esta camisa”, ameaça ele. Me faço de louco e me aninho no carro. O Naninho começa a me socar e repete que se eu quiser carona, só se tirar a camisa tricolor, o que me nego. Ele tem um acesso de fúria, sai do carro, e começa a chutar a porta do meu lado. Histérico. A galera tenta acalmá-lo, mas o Naninho não cede, começa a ficar vermelho. Saio do carro e pergunto. “É assim?”. “Sim, sim”, berra el...

A máquina de escrever

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No Correio do Povo, trabalho com um cara que enfurece quando usam o mesmo computador que ele acha ser dele, ou sentam em sua cadeira. Mas já tinha passado por experiência semelhante na Ipanema FM. Eu tinha uma colega que não aceitava que eu lesse os jornais antes que ela, mesmo que eu tivesse de redigir o noticiário pela manhã, ou usasse a mesma máquina de escrever, mesmo que ela não estivesse na redação. E se me flagrasse quebrando as suas regras, abria o berreiro. Pois uma vez, estava usando a máquina, faltava uma notícia para redigir, quando ela apareceu. “Sai daí”, ordenou ela. “Estou quase acabando, falta só esta lauda e já saio”, aviso. “Sai agora, agora”, manda ela. Teimoso, eu ponho o dedo em mais uma tecla, que toca o papel. Neste momento, ela corre pra máquina, pega ela e a joga na minha direção. “Eu disse agora, tu é surdo”, berra a guria. Eu dou um pulo, graças ao bom reflexo, e escapo de ser machucado, enquanto que ela cai no choro convulsivo. Eu pensei que nunca mais enc...

Porã

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Meu sonho de ser locutor na Ipanema FM não decolou, por timidez, gagueira, medo, pânico, falta de ousadia. Tive uma nova chance de apresentar um programa meses depois do apagão das 13h. Por volta das 9h45min de um dia de semana, o operador chega na redação da rádio e diz que o apresentador das 10h, que era o Nilton Fernando, iria se atrasar, e pede que eu abra o horário. Quase me borro nas calças e me nego, temendo novo fiasco. Na mesa do lado sentava um estagiário chamado Iglênio, irmão de Carlinhos, um atacante do Grêmio. Pois o guri, que estava ali aprendendo comigo a redigir o noticiário, aceita o desafio e vai lá apresentar o programa. E se sai tri bem, tanto que poucos meses depois ganhou um horário só dele. Ah, o apelido do Iglênio: Porã.

Pânico

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Um de meus sonhos era apresentar um programa na Ipanema FM, se fosse de heavy metal melhor. Mas ficava lá, quietinho, na redação, escrevendo o noticiário, onde viajava no texto, pois tinha total liberdade para colocar nas laudas o que desse na telha. E uma bela tarde, terminei de redigir o noticiário das 13h, coloquei o material na mesa do apresentador e voltei pro meu cantinho. De repente, o operador eterno Genésio de Souza entra na sala, e diz que o locutor não apareceu. Entro em pânico. “Calma”, pede ele. “Vai tu lá e abre o horário”. Vou pro estúdio, sento e espero o sinal do Genésio. A luz vermelha aparece: “No ar”. E o que acontece? Eu simplesmente fico mudo. Não consigo soltar um ai...o Genésio faz gestos, implora que eu fale, e me sinto no filme Os Filhos do Silêncio. Ele é obrigado a colocar uma vinheta, entra no estúdio e pergunta o que houve. “Deu tchuchu”, falo. “Vamos de novo, respira fundo, dá as horas e o tempo, que eu meto música”, ensina ele. Aí consigo fazer o simpl...

O Montanha

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O Ernani Campelo, vulgo Montanha, é meu brother desde que trabalhei na Ipanema FM, lá no começo dos anos 1990. Ele apresentava o Surf About, enquanto que eu redigia o noticiário, que era lido pelo Nilton Fernando, Cagê, Kátia Suman, Victor Hugo, Nara Sarmento, Mauro Borba e Jimi Joe. Esqueci alguém? Ah, a Mary Mezzari. Bem, um dia estamos na redação da rádio maldita, 93.9, e entra um carinha querendo falar com o Montanha. E vem direto em mim. “Não, não sou o Montanha, o Montanha é ele”, aponto pro Ernani, esquálido, com seus 1,65m e pesando seus 50 quilos, em contraste com meus 1,90m e à época, uns 90 quilos. “Sério, pessoal, não posso perder tempo. Montanha, deixa de brincadeira”, diz ele pra mim. “Cara, sério, ele que é o Montanha”, repito. Bah, levou um tempão pro cara acreditar. Acho que o Cagê entrou na sala e desfez o mal entendido.

Pega na Ipiranga

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Eu na carona do fusquinha do Gilson, fotógrafo que trabalhava comigo na assessoria de imprensa da prefeitura de Viamão. Saímos do serviço no começo de noite de sexta-feira e, porras loucas, vamos pra Ipiranga, participar de pegas com outros doidos suicidas. E ninguém usava cinto de segurança. Coisas inexplicáveis, como sobrevivemos a tais loucuras? A gente ficava num posto bebendo e esperava o trânsito acalmar, lá pela meia-noite, e iniciávamos as corridas. Pois numa delas para do nosso lado um outro carro, que eu como total ignorante para isto, não sei qual era. Do lado do motorista, uma gata linda, loirinha, seus 17 anos, olhos azuis. Eu e o Gilson ficamos babando, e começa a corrida. E a gente chega antes ali na frente da PUC. E o Gilson olha pra guria e pro cara do carro perdedor, e solta o desafio: “Ô Mané, tu perdeu a corrida, a gata vem agora com a gente”, diz. O cara dá um sorrisinho cínico e um segundo depois, surge na mão dele um 38. “Como é magrão, tu quer levar minha gur...

O ladrão

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Eu confesso. Já roubei na vida. Com meus 17 anos, entrava nos supermercados e metia nos bolsos embalagens de pilhas alcalinas, que custavam e custam ainda hoje uma fortuna, mas imagina nos anos 1980, com inflação? E eu gastava várias delas por semana no meu walkman, ainda mais quando acionava o toca-fitas. Pois o idiota aqui entrou no supermercado uma bela tarde, e enfiou na mochila uns pacotes de pilhas. Repeti o ato mais algumas vezes naquela semana, sempre saindo ileso. Pois não é que achando estar imune, fui ao mesmo local mais uma vez, enfiei dois pacotes na mochila, comprei pão, presunto e queijo, e paguei estes últimos itens. Quando me dirigia para a porta, dois carinhas vem na minha direção, e um deles pega o meu braço direito. “O rapazinho pode nos acompanhar, por favor!”. Tomei o maior cagaço de minha vida. PQP, estava sendo pego. Uma senhorinha, da limpeza, aponta o dedão pra mim, ali na frente de várias pessoas. “É este guri, ele vem roubando pilhas há vários dias. Hoje, q...

Opinião

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Sentadinho em minha poltrona no ônibus, esperando começar a viagem de volta a Porto Alegre, 12 horas...e claro, não querendo ninguém do meu lado, afinal, devido ao meu tamanho, necessito de todo o espaço possível. E eis que aparece uma morenaça, e ela vem vindo. Aí penso, “senta do meu lado, senta do meu lado”, mas aí penso no aperto, “não senta aqui, não senta aqui”. E ela senta do meu lado, e a viagem começa. Estou lendo meu livrinho, e ela pega o celular e começa a falar com a mãe, depois o filho. “Mamãe te ama, mamãe tá indo pra casa”, diz ela. Em seguida, faz uma ligação, e começa a conversar com uma amiga. Duas horas depois, ela continua falando, sem parar. “Cinco anos, cinco anos eu perdi com ele”, lamenta a morena. E a ligação cai. Finalmente um pouco de silêncio. Não satisfeita, ela começa a mandar mensagens de sms. E a resposta vem rápida. “Vou me incomodar com este cara”, bufa ela. Manda outra mensagem. Vem a resposta. “Não acredito, por que ele faz isto?”, diz ela, batend...

A cabeleira

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Quando eu tinha uns 8, 9 anos, usava uma cabeleira black-power, aquela eternizada pelo Michael Jackson e os Jackson Five. E era cabelo, que quem tem cabeleira sabe os cuidados necessários. Cremezinho, xampuzinho, entre outras frescuras. E não é que numa sexta-feira a mãe chega com um creme, diziam, era especial, deixaria mais macia e brilhosa minha cabeleira. Aplicado o produto, fui dormir, pois sábado pela manhã tinha prova no colégio, de português. Pois acordo às 6h30min e vou ao banheiro tomar banho, quando tomo um susto. Mas foi um susto, pois o meu cabelo, preto, havia amanhecido vermelho. Resultado do produto mágico de minha mãe. Passo água, desesperado, tentando tirar a cor, mas evidente que não iria sair assim. Chamo a mãe, peço para ela fazer algo, mas não há o que fazer. Bem, então nada de ir ao colégio, digo. “Nananã, você vai”, decreta a dona Flora, “ainda mais que tem prova”. Choro, esperneio e perco. Mas como chegar na aula com aquele cabelo rubro? Uma touquinha. Mas ao...

O enfermeiro

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O Rubens tem fama de galã, tanto com as meninas quanto com as senhoras já chegando na terceira idade. E diz a lenda que não costuma perdoar ninguém. Pois bem, ele tinha um problema de sudorese, ou seja, suava sem parar, principalmente pelas mãos, e aquilo afetava muito sua confiança. O rapaz decidiu então fazer uma cirurgia corretiva, e nela é feita uma incisão embaixo das axilas. Lá foi ele pro hospital, onde permaneceu por dois dias após a cirurgia. E ele não conseguia mexer os braços, por causa dos pontos e da cicatrização. A mãe dele serviu comidinha na boca, deu bainho. E no dia da alta, ela foi conversar com o médico, para assinar a papelada, enquanto que o Rubens ficou no quarto para se arrumar, quando deu-se conta que não conseguia. Nisso entra o enfermeiro. “Tudo bem aí, lindo?”. O Rubens arregalou os olhos, de medo. “Sim, sim, estou esperando a minha mãe para me ajudar a vestir”, disse. “Não, eu faço isso”, se ofereceu o enfermeiro. “Não, não, a minha mãe...”. O enfermeiro f...

A promessa

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O Tiaguinho, filho do Gilson, é uma figura. Para o bem e o mal. O guri de 8 anos está jogando videogame com a Paula, filha do Lauro. De repente, a Paulinha dá um grito: “Paeeeee, o Titi cuspiu em mim!”. Brabo por ter sido derrotado por uma guriazinha, o Tiago não teve dúvidas, meteu uma cusparada na cara da guria, e não saiu impune, pois sua mãe, a Tati, lhe deu uma bronca. Chorando, o Titi promete que não vai mais repetir o ato. “Mãeeee, eu não vou mais fazer isso, juro, juro”. Testemunhando os acontecimentos, ocorridos num churrasco na casa do Gilson, começo a rir. “Ih, parece o pai”, recordo. É que há uns tempos atrás, o Gilson andou aprontando algumas, e foi flagrado pela esposa. Sem ter como negar, ele só repetia: “Tati, eu não vou mais fazer isso, te prometo”, para meses depois, repetir as cagadas. A Tati me fuzila com os olhos. Meia-hora depois, o Tiago volta do castigo e vai jogar de novo com a Paulinha. Dois minutos depois, cospe de novo na cara da guria, que dá um berro. E...

Troca letra

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Eu tinha uns 8 anos de idade e comecei a andar com dois irmãos que pronunciavam erradas algumas palavras. A minha mãe notou que comecei a trocar algumas letras, e às vezes falava um travesseiro, bicicreta. “Chiquinho, para de andar com aqueles guris, eles não sabem falar e tu vai desaprender”, alertou a dona Flora. Claro que como não entrei de castigo, não dei bola, e continuei a amizade com os irmãos. E não é que numa aula de português, a professora me manda ler o trecho de um livro. E eu tasco lá: “então o garotinho pegou a bicicreta e...”. Não consegui terminar a frase, de tão zoado que fui pela turma. Sabe aquela coisa que a gente vê em filme, quando focam a cara do personagem principal, com os olhos arregalados, e todos apontando o dedo e rindo da cara do infeliz? É como lembro da cena. E sim, nunca mais andei com os dois irmãos.

Eu não podia adivinhar

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Coisas que com o tempo aprendemos a fazer: não perguntar como está o cônjuge de alguém conhecido. Lá vou eu na Rua da Praia me dirigindo pro Correio do Povo, quando encontro o marido da Soninha, uma amiga de infância. E o cara é meu xará. Nos cumprimentamos e eu, que estou sempre rindo, pergunto da mulher dele. “E aí xará, e a Soninha, hein?”. O Chico me fuzila com os olhos, e não poupa ofensas. “Tu é um filho da puta, mau caráter, filho da puta, filho da puta!”, berra o carinha, saindo furioso pela Rua da Praia, e eu sem entender nada. O que será que fiz? Só vou entender dias depois quando encontro outro amigo em comum, o Gilson. Conto a história, e ele me esclarece. “Cara, ele foi expulso de casa pela Sônia, ficou só com a roupa do corpo, e acho que ele pensa que tu sabia da história e estava tirando sarro dele, ainda mais que tu tá sempre rindo”, explica o Gilson. Aí cai a ficha. O meu xará achou que eu estava zoando dele. Mas como eu iria adivinhar? Então é o seguinte, não se per...

O pedinte

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Eu tinha um amigo que não podia ver comida que atacava. O guri almoçava na casa dele, depois se dirigia para a casa dos amigos, sempre na hora em que sabia iria encontrar as pessoas comendo. Era um esfomeado o Marco Antônio. Pois um dia fomos jogar futsal no Colégio das Dores, e depois da partida, corremos para o Bob’s, ali na Rua da Praia, época em que ainda não havia o McDonald’s. Pedimos o “big mac” do Bob’s, refri, batata frita, e enquanto analisamos a partida, vamos devorando aquela delícia de comida – que hoje eu acho horrível. Na mesa ao lado, um carinha de terno e gravata, e lendo um jornal. Ele não comeu todo o lanche, e os restos estavam ali, na mesa. O Marco Antônio se inclina em direção ao carinha, e pergunta, na maior inocência: “Moço, o senhor vai comer o resto?”. Então pressentimos a nojeira que viria a seguir. “Não”, responde o engravatado. "Posso pegar para mim?”. O cara não diz nem sim, nem não, pois como a gente, e éramos uns seis à mesa, não acreditamos no que...

No escurinho do cinema

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Assistir Caligula no Lido foi uma experiência incrível, mas não era um pornô total. A gurizada queria porque queria ver um filme sem história. E num sábado à noite, um bando de 10 adolescentes se dirigiu para o famoso e famigerado cinema Carlos Gomes, lá na Vigário José Inácio, numa das piores e má afamadas regiões do Centro. Ao chegar no caixa, tem uma senhora que parece ter saído de um filme de Fellini, gorda, fumando, atendendo. Ela olha aqueles pirralhos, caras limpas, e tremendo. “Sim?”. “Quanto é o ingresso?”. Nem recordo o valor e muito menos a moeda da época, anos 1980, deveria ser cruzeiro. “Tem algum menor no grupo?”. Todos éramos menores, um tinha só 12 anos. Mentimos. “Não”. Ela nos vende o ingresso, e entramos numa sala fétida, quente. Sentamos quase lá na frente, achando a maior graça naquela aventura. As luzes se apagam e começa o filme. Sem história, que era o que desejávamos ver. De repente, um dos guris berra um “filho da puta”, e quando olhamos pro lado, um tiozinh...

Ver um pornô

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Nos anos 1980 ver um pornô não era como hoje, ao alcance de um clique no computador. Então a gurizada ficava imaginando como seriam aqueles filmes de mulheres sedentas por sexo. Havia um grupo de guris, imberbes, que se reuniam para almoçar uma vez por semana em algum restaurante “coma tudo o que conseguir por apenas tantos pilas” ali pelo Centro de Porto Alegre. Um dia, levei o pai. E estamos lá, disputando quem come mais vezes, quando um dos guris comenta ter sido barrado num cinema pornô. Me apavoro, pois o pai era todo religioso, ministro da Igreja Católica. Ele olha pro meu amigo, e pergunta: “Tá aí gurizada, acabem de comer, e vamos ao cinema ver um pornô”. Ninguém acreditou na promessa. Mas ela foi concretizada. Saimos às pressas do restaurante e nos dirigimos ao Cinema Lido, ali quase no final do viaduto da Borges de Medeiros. E com a presença de um adulto, conseguimos entrar, nem pediram identidade. O filme: Caligula, de Tinto Brass. Ora, um semi-pornô, mas já saciou a curi...

Atropelado

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Alguém aí já foi atropelado? Com seis anos de idade, estava na casa de minha vó paterna, sentado no muro, quando vejo o meu tio Raul do outro lado da rua. Ele costumava sempre trazer um doce, um refri para mim. Ao invés de esperá-lo atravessar a movimentada rua, ansioso, decidi ir ao seu encontro. Erro crasso. Ao colocar o pé na rua, um caminhão me pega. A sorte que o veículo vinha devagar, e o impacto me fez voltar, voando, em direção ao cordão da calçada, onde bati a cabeça. Apaguei. Acordo horas depois no HPS, com um braço quebrado e aquela altura, já todo engessado, e a cabeça enfaixada. Ao ver na minha frente meu tio, minha vó e meus pais, desmaio de novo, acordando somente em casa. Fui colocado no sofá e na tevê, preto e branco, passava Jeanne é um gênio. Pô, parece que foi ontem.

O fanático

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Nunca me dei bem com fanáticos religiosos. Aliás, com qualquer tipo de fanático. Há alguns anos, na comemoração de um Ano Novo, dividindo o teto e os lençóis, ou seja, morando junto com uma namorada, apaixonadíssimo, comprei presentes para todos os familiares meus e dela. Bem, chego num tio de que gostava muito, um dos preferidos entre os nove irmãos de minha mãe, e entrego o presente dele. “Não quero”, diz ele. “Mas tio, pega, não me custou nada”, preocupado com o fato de repente ele estar achando eu ter gastado muito, já que naquele momento tinha outras prioridades. Ledo engano. “Pega tuas coisas e sai daqui”, fala meu tio. Continuo sem entender e pergunto o que houve. “Eu não aceito o modo pecaminoso com que você vive com esta menina”, revela ele. Minha reação é ficar olhando, pasmo para ele, que se converteu evangélico após durante anos beber, fumar, cheirar, trair a esposa, abandonar os filhos. Minha resposta: “Vai tomar no teu cu”, digo, perdendo a compostura, me virando e desd...

O inferno

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Uma tia minha, religiosa ao extremo, me liga num daqueles dias que nada está dando certo. Solidão, falta de grana, entre outras coisas. “Francisco, é a tia”, com aquela voz inconfundível de senhoras negras, idosas e gordas. “Ah, não estou bem”. “É porque tu não quer aceitar Jesus no teu coração”, constata ela. “Pô, não começa”, protesto. “Deste jeito tu vai morrer se esvaindo em sangue”, apela minha tia. Indignado, desligo o telefone. Ela volta a me ligar um minuto depois. “Menino, o teu destino será o inferno”, roga a tia. Querendo terminar o assunto, me volta um pouco de humor. “Ah, o inferno é melhor, tem rock’n’roll, festas, bebidas...no céu aqueles anjinhos tocando harpa, uma chatice...”, brinco. Foi a vez de ela desligar o telefone, e nunca mais me ligar.

Eles gostam de uma morena

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Outro dia o meu amigo Dario Di Martino lembrou do livro “Holocausto, Judeu ou Alemão”, do gaúcho S. E. Castan. Um livro que negava o que ocorreu com os judeus na II Guerra e vitimizava os alemães. Foi uma polêmica tremenda no começo dos anos 1990 e o livro acabou proibido. Bem, na época ele era vendido na editora Revisão, e o nome diz tudo, né! Sim, era neonazista. E numa Feira do Livro, eles colocaram uma banca na Alfândega. Deu uma confusão dos diabos. O cara que atendia era um loiro mal-humorado. E o que acontece? Um dia, eu leitor de tudo o que se refere ao período nazista, decido comprar o livro – que é uma verdadeira patuscada. Me dirijo à banca e quem encontro lá dentro? Uma amiga minha, mulata, ao lado do loiro. “Ué, o que tu faz aqui?”, pergunto pra ela, surpreso. “Oi Chico, vim aqui ficar com o meu namorado. Ele!”. Tóing. O cara nem me viu, né. “Ah, entendi, judeus e negões devem passar longe, mas eles adoram uma morenaça, são bem espertinhos”, digo, naqueles meus impulsos ...

Café com leite

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Lá na década de 1990, eu estava trabalhando na Band AM, e como produtor, fui cobrir um evento na Câmara de Vereadores de Porto Alegre. Aguardava na frente do prédio, esperando a guria que iria fazer a reportagem. Ao meu lado o operador, R. E a uns cinco metros da gente aparece um casal, ele negro e a ela branca, abraçados e começam a se beijar. O operador R me dá um tapa no ombro e fala: “Mas olha só aquilo, que pouca vergonha”. “Eles estão apenas se beijando”, constato. “Ela tá beijando um negro, mas se fosse a minha filha, eu enchia de porrada. Não se dá o respeito”, ameaça. “Tu não notou nada?”, pergunto pra ele, que tá fazendo uma declaração racista prum negro. “O quê?” “Cara, tu tá me ofendendo, eu sou negro, né”. “Ah, não, Chicão, tu é apenas café com leite”, diz ele, saindo pra fumar um cigarro. Quero ver se eu decidisse sair com a filha dele...

O carteiro

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Venho pela Rua da Praia, me encaminhando para o Correio do Povo, quando ouço alguém me chamar. “Izidro, ô Izidro”. Paro e fico tentando imaginar quem será aquela pessoa. Ah, um antigo colega do Paula Soares, mas não recordo o nome. “Tu é o Izidro, né?”. “Sim, sim”. “E aí cara, o que tem feito da vida”, pergunta. “Trabalho no Correio”. “Puxa, cara, que pena, tu estudava tanto, era tri CDF, e virou carteiro, puxa, só lamento...”, lamenta, me dando um tapinha no ombro e seguindo caminho, como se eu fosse um pária.

Parem as máquinas

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O sonho de todo jornalista antigamente era berrar “Parem as máquinas”. Eu fiz isso em novembro de 2004. Estava no plantão, 3h da madrugada, sozinho na redação, assistindo tevê, quando entra o plantão da Globo...”acaba de morrer em Paris o líder palestino Yasser Arafat”...dou um pulo da cadeira, e corro para avisar o diretor de redação Telmo Flor e o editor-chefe Eugênio Bortolon, que estavam na diagramação, fechando a capa com o resultado de um jogo, gritando: “parem as máquinas”. Elas realmente param e eu tenho o privilégio de escrever a matéria de capa sobre o Arafat. Hoje periga eu dizer isso, e alguém dizer para esquecer, completando que a gente publica a notícia dois dias depois...

Beto

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Sábado à tarde, passo no Zaffari da Riachuelo, e faço minhas comprinhas básicas para passar a noite enfurnado em casa, claro, pizza, uma garrafa de vinho. Ao sair do súper, escutando um heavy metal no ipod, vejo se aproximar uma linda guria, olhos azuis, cabelos pretos longos, uma boca carnuda, vermelha. Ela vem em minha direção abrindo um baita sorriso, para e fala comigo. Por causa dos fones de ouvido, não escuto o que ela disse. Aí tiro os fones. “Oi, sim?”. “Tu não é o Beto?”. “Não, sou o Chico”, respondo, colocando os fones de novo. Ela permanece parada, solta um lamento, algo como um “ah”, e continua me olhando, como se esperasse uma reação minha. Distraído, retomo minha caminhada, vejo meu lotação, entro nele, e um segundo depois, cai a ficha: “Imbecil, a resposta não era não, mas sim, não sou o Beto, mas se você quiser, eu viro o Beto”. Por isso que passo às noites de sábado sozinho.

Desistindo dos animais

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Quando criança tinha um verdadeiro zoológico em casa. Ser jornalista era o objetivo, e se sobrasse tempo eu faria um segundo turno como biólogo, veterinário ou professor de história. Tinha cachorro, gato, tartaruga, papagaio, coelho, pato, peixe...pois bem, primeiro uma decepção com um gato ladrão e assassino. E aos 14 anos decidi encerrar de vez a adoração por bichos quando estava jogando bola na calçada com meu cachorro e a bola escapa para o meio da rua. O bichinho corre atrás dela, e segundos depois é atropelado e morto por um ônibus. Putaquepariu, foi um choque. Pensei, depois de chorar por dias, que nunca mais iria me apegar a um animal que fosse. E só não me apeguei mais, como não suporto animais perto de mim. Sinceridade.

Não gosto de gatos

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Sei que as minhas amigas que têm gato em casa vão entender minha antipatia pelos bichanos. Quando era criança, estudava pela manhã no Paula Soares, e meus pais passavam fora de casa o dia todo. Então a mãe deixava minha comida no forno, num prato, e quando eu chegava para o almoço, sozinho, tinha de comer o rango frio mesmo, pois era perigoso uma criança mexer com fogo. Sento à mesa, tevê ligada num desenho animado, e numa distração de segundos, meu gato, o Mimi, dá um pulo e pega minha almôndega e se manda...um tempo depois, ganho um pato, filhotinho, e batizo de Saturnino, em homenagem a um desenho francês. Tou brincando com ele, e o mesmo gato, abocanha o Saturnino bem na minha frente...chorei muito de raiva, de impotência, e nunca mais gostei dessa espécie.

A primeira vez

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A primeira vez que senti o racismo de perto foi muito, muito terrível, aos 12 anos. Havia uma menina que morava no final da minha rua chamada Simone. Linda, linda, me lembrava a Glória Pires naquela novela, Cabocla. Quase todos os finais de tarde eu pegava minha bicicleta e ia até a esquina, e ficava observando ela, brincando com o irmão mais novo em frente à casa. Eu nem sabia como falar com ela, só ficava admirando-a. E um dia, sinto um puxão no banco da minha bike. Olho para trás e tem uma senhora me olhando. Antes que eu possa fugir de pavor, ela berra comigo: “Olha aqui, seu guri de merda, sou a mãe da Simone. E vim te avisar, some, pois minha filha nunca vai namorar um negro. Pode esquecer”, diz ela, que falou mais coisas, que se apagaram com o tempo. Medo, vergonha...me mandei dali e nunca mais fui vê-la e nunca falei para meus pais da agressão verbal que sofri. Anos depois, passei pela guria no centro. E fiquei pensando comigo, tomara que ela tenha se casado com um negão, e t...

Bob Pai e Bob Filho

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Piá, fui a um jogo do Grêmio à noite no Olímpico com meu pai lá no final dos anos 1970. Inverno, chegamos em casa congelados e famintos, e fomos direto pra cozinha. A gente vê sobre o fogão um panelão com um carreteiro ainda fumegante. O pai pega os pratos, os talheres, nos serve e devoramos aquela gostosura. Literalmente lambemos os beiços. Na manhã seguinte, na hora do café – ah, bela época em que as famílias ainda tomavam café juntinhas -, a mãe pergunta pra gente: “Vocês já alimentaram o Toddy (o cachorro foi batizado com o nome de minha bebida preferida à época)?”. “Não”, respondo. “Estranho, então onde foi parar a comida dele? O panelão estava vazio...”. O meu pai me olha, com os olhos arregalados, e o gole de chocolate, sim, criança não tomava café, desce amargo. Sim, o pateta e o patetinha comeram comida de cachorro, quase uma lavagem...recém começavam a fabricar comida industrializada para os bichanos da casa, e os bichos ainda comiam as sobras da família...mas tava bom pra...

Careca

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De 15 em 15 dias passo a máquina 1 na cabeça. Ou seja, mantenho um restinho de cabelo e sumo com os rastros de fradinho. E não é que ontem errei o corte? Como ficou tudo desalinhado, sim, isso é possível, tive de passar a gilete para corrigir a cagada. Aí lembrei do que aconteceu ainda na primeira metade dos anos 1990. Eu iria ao falecido e inesquecível Porto de Elis. E naquele dia, fui ao barbeiro e pedi máquina zero. O velhote ainda perguntou se eu tinha certeza. “Sim, manda ver, não deixa um fio de cabelo”, garanti. Pois de noite, tomando uma ceva no Porto de Elis, duas gurias começam a conversar comigo, e uma me elogia: “Ah, tu é bonitinho, quero ficar contigo”, dispara. Nossa, ganhei a noite, penso. E não é que a outra comenta: “Eca, minha nossa, ele é careca, tu é louca?”. O comentário parece ter trazido luz à primeira, que desiste de me beijar e elas somem na multidão. Meses depois, o Ronaldo Nazário fica famoso, careca, e as mulheres começam a olhar para os desprovidos de cab...

Sogro raivoso

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Eu tinha um sogro que não ia com a minha cara, e quem nunca teve isso, né? Pois bem, o velho estava de aniversário e para tentar agradar a figura, comprei um vinho importado, francês, caro pra caramba. No dia da janta, toda a família reunida à mesa, e entrego o presente. Ele abre, todo curioso, o pacote, olha a garrafa de Bordeaux e me pergunta: “que merda é essa?”. Aí chama a filha dele, então minha namorada, e dispara: “Ô fulana, olha a porcaria que teu namorado me trouxe!” A minha cunhada, que estava junto quando eu comprei o vinho, tenta me ajudar: “Pai, isso custou uma grana, eu vi quando ele comprou, vem da França”. Mas não adianta, quando o cara é grosso...”Vinho bosta”, decreta. A minha sogra termina o assunto. “Chico, esquece, da próxima vez compra um Frei Damião, gasta só 3 reais, e assim tu vai conseguir agradar ele”. Bom, nunca agradei, e um sábado, estava na casa da guria, quando a mãe dela chega na sala e diz, sincera: “Meu filho, o fulano vem vindo aí, então não leva...

Corredor Polonês

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Fui a um evento da Sociedade Polonesa de Porto Alegre no Sindicato dos Bancários, coquetel, depois um filme... fico conversando com a assessora de imprensa do sindicato e com a Adriana Androvandi, quando nos avisam que o filme vai começar...saímos correndo, entramos na sala, já lotada... Eu olho pro lado, aquelas cabeças brancas me olhando, afinal eu destoava no ambiente, um espaço mínimo para passar e chegar lá na frente, onde havia um lugar para sentar na escada. “Vai por este corredor”, alguém me diz. Eu paro, olho para todos e naqueles meus impulsos politicamente incorretos, disparo: “Claro, vocês estão me fazendo atravessar o verdadeiro corredor polonês”. O pessoal foi obrigado a dar risada da constatação óbvia.

DJ nervosinho

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Em certo período de minha vida fui DJ, sim, colocava som em festinhas, em aniversários, em clubes, em troca de uns trocados e comida de graça. O irritante, neste serviço, era aguentar os palpiteiros de plantão, pedindo músicas ou que estavam fora do set list ou que tinha determinada hora para ser tocada, afinal uma música fora de hora quebra o embalo da galera. E como sou chamado pelo Ilgo Wink de Chico, o irascível, às vezes, muitas vezes, dei motivo para ser chamado assim ao mandar ver na tolerância zero. Uma vez colocava som num colégio em Viamão, formatura de oitava série, e as gurias começaram a encher a paciência pedindo incessantemente que eu tocasse Menudo. Eu toquei, mas antes fiz todo mundo escutar uma sequência de Black Sabbath, e às velhinhas fizeram uma cara quando começou aquele som de chuva, Run to the Hills e Panama. Quando vi, todo o salão gritava “louco, louco, louco”, enquanto que as velhinhas chamavam a diretora. No final do Van Halen, coloquei a maldita música do...

Os carros que parem

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Passear com a mãe pelo Centro de Porto Alegre é sempre uma aventura. Como ela está com 74 anos, acha que os carros devem prestar continência à ela. Ou seja, a dona Flora não respeita sinal verde, vai atravessando a rua, e tenho sempre de segurá-la para que não pare embaixo de um carro ou ônibus. Ai ela sempre me olha e resmunga: “Os motoristas é que têm de parar pra mim, sou velha, aposentada, eles têm de me respeitar...”, repete sempre. Dona Flora, não estamos num país civilizado, onde as pessoas respeitam os mais velhos. Se nem cedem o lugar no ônibus, e passam por cima dos ciclistas, por que eles iriam parar pruma senhorinha de cabelos brancos? Infelizmente é assim.

Discriminado por ser politicamente incorreto

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Uma história em que não posso dar os nomes, por ser politicamente incorreta. Vá lá, pseudônimos. A Cátia chega pra mim e pergunta se irei à janta na casa da Rejane no sábado à noite. Ops, não sei de nada, pois não fui convidado. “Bah, foi mal, Chico”. Não me abalo, ninguém é obrigado a me convidar pruma janta. Só que não resisto e ligo para a Rejane. “Oi”. “Oi Chico”. “E aí guria, qual a programação de sábado à noite?”, sacaneio. “Ah, não sei. Não estou a fim de fazer nada!”. “Para, vamos dar uma volta na Cidade Baixa”, insisto. “Não sei”, retruca ela. “Não aceito não como resposta, às 7 horas passo na tua casa para te pegar”. “Não, não”, ela se apavora. “Nem quero saber”, digo. “Chico, serei honesta contigo, vai ter uma janta aqui em casa hoje”, revela ela. “Eu sei, tava de sacanagem contigo”. “É que vai vir um amigo meu, que é gay, e tenho medo de que tu faça piadas com ele”. “Ah, não faria isso”, falo. “Faria sim, tu é muito sacana e ele é sensível”. “Claro, ele é gay”, brinco. “...

O cigarro da Daniela

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Nunca gostei de cigarro, mas uma vez caí na tentação. Tinha uns 13 anos, sétima série, e gamei numa colega de 16 anos, que já estava no segundo grau, Daniela. Ela fumava, glamourosamente, pelo menos era o que eu achava, elegante, o cigarro entre os dedos, os olhos azuis, o cabelo preto na altura dos ombros, a calça jeans rasgada. Que faz um guri? Ora, vai lá comprar uma carteira de cigarro para parecer mais velho e tentar chegar na guria. Ela fica olhando o retardado aqui tentando tragar, se engasgar...começa a rir, tenta me ensinar a fumar, mas eu não consigo puxar a fumaça pro pulmão...pelo menos ela conversou comigo durante uma semana. Bem, naquele primeiro dia chego em casa fedendo, a minha mãe está preparando a janta e sente o cheiro. “Que cheiro de cigarro. Tu andou fumando?”, pergunta. Eu me apavoro, nego. “Se te pegar fumando, vai levar uma surra tão grande que não vai andar por uma semana”, e partindo da dona Flora, não ficava apenas na ameaça. Corro pro quarto, abro a m...

Oito de abril é Dia Mundial de Combate ao Câncer

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Minha mãe é uma guerreira. Em 2008, eu ainda me tratando da porra de uma depressão, e ela chega e me diz estar com câncer num seio. E a dona Flora descobriu sozinha, ao fazer o teste do toque em casa. Vou com ela ao médico para receber o resultado dos exames. Sentamos e o médico abre o envelope. “Dona Flora, como dizer?”. “Pode falar, doutor, pode falar a palavra”. “Realmente, a senhora tem câncer numa das mamas”. Eu desabo no choro, e ela ali, impávida. O médico diz que tem tratamento, que tudo pode ficar bem. “Temos de retirar os cistos”, determina o médico. “Mas o câncer pode voltar?”, pergunta ela. “Sim, mesmo com a quimio ou a radioterapia, ele pode voltar”. “E se eu tirar totalmente o seio?”. “A chance de cura é quase 100%”, responde o médico. “Doutor, estou com 70 anos, velhinha, as tetas tão caídas, ninguém mais quer olhar e muito menos pegar elas, só o câncer, então vamos tirar tudo de uma vez”, raciocina a dona Flora. Eu e o médico temos de rir da lógica maternal. Hoje tá ...

Trombadinha

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Sábado à noite, vou ao Bar do Beto da Venâncio Aires com a minha amiga Rosane Sant’Ana. Ela estaciona o carro ali na Vieira de Castro, um bréu tremendo. Minutos depois, estamos pedindo uma ceva, e a Rô lembra que esqueceu o celular no carro. “Vou lá buscar, vai que a Júlia (a filha dela) liga?”. Eu digo que vou, está escuro, é perigoso. Como sou uma besta quadrada em relação a carros, pergunto como abro o veículo. Chego ao lado do carro, enfio a chave e nada, empurro, viro, e ela quase quebra. Tento de novo e nada. Desisto. Volto pro bar e a Rô acaba tendo de buscar o telefone. Chega a hora de ir embora, vamos em direção ao carro. A Rô para ao lado de um carro cinza, e eu sigo reto. “Onde tu vai”, pergunta ela. “Ora, pro carro”, digo. “O meu é este”, diz ela. Aí notei a gafe, eu tentei abrir um outro carro, preto, não sei o modelo, mas não era o mesmo da Rô, que ainda por cima tinha outra cor. Imaginem se o alarme do carro preto tivesse disparado? O que um negão de 1,90m iria explicar...

Nazista Tupiniquim

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Aconteceu em dezembro de 2011, uma segunda-feira, no Opinião. Shows das bandas Gama Bomb e Dark Funeral. Na entrada encontro os parceiros de shows Zé Godoy e Jeff Witt, que levou o filho adolescente. Tudo transcorre bem na primeira apresentação, aí entra o black metal Dark Funeral. O Jeff, careca, olhos claros, calça militar camuflada. E de repente um cara vem até ele, levanta o braço direito e grita: “Heil Hitler”, e começa a conversar com o Jeff, chamando ele de colega. O Zé sai dali, vai prum canto e começa a rir de nervoso. Eu fico observando a conversa lunática do nazista, que tem um colega, mulato... o Jeff desconversa, se afasta, e vem nos contar o que ocorreu, os caras, evidentemente acharam que ele era nazi...de repente me olha e não perde a piada, né, para espairecer: “Não fica perto de mim, tu quer que eu apanhe dos meus novos amigos?”. Nos resta rir da situação constrangedora, o Jeff pega o filho e a gente decide ir embora dali ainda na terceira música. Nazista europeu já...

Pagodeira

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Lembrei hoje dessa história carregada de preconceito. Há alguns anos, separado e curtindo uma fossa, passei o ano novo na casa de uma amiga, descendente de alemães. Só um negão na festa, eu. E lá pela uma da manhã começa a pagodeira, que todo mundo sabe, detesto. Mas fico na minha, sentadinho num canto, tomando um refrigerante. Aí o pai dela, um alemão de quase dois metros, vem falar comigo: “Aí Chicão, não vai lá na roda mostrar para o pessoal o que a tua raça sabe fazer?” Putaqueopariu...chamo a guria e pergunto onde fica a sala de televisão, para onde me retiro. Da próxima vez, vou levantar e dizer: “É isso aí pessoal, acabou a brincadeira. Isto é um assalto, todo mundo pro banheiro, e me entreguem celulares, bolsas, relógios e carteiras”. Se é pra apatifar...

Pidona

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Isso foi no inverno passado. Shopping Paseo, sábado à noite. Encontro a Rosane Sant’Anna e a filha dela, a Júlia, pra comer uma pizza. Aparece um carinha, seus 30 e pouco anos, com uma garotinha, loirinha, olhos verdes. Os dois limpos, roupas simples. E o carinha: “Boa noite, desculpe incomodar, mas a minha filha aqui está com fome, não come há 3 dias”...olhamos pra guriazinha e ela nos olha com aquele olhar do Gato de Botas, pidão...PQP, dá um dó, uma pena, mas sinto no ar cheiro de golpe. Por mais que doa, negamos ajuda. Minutos depois, o primeiro pedaço de pizza desce por demais salgado, o primeiro gole de chopp nada redondo, como diz aquele comercial. Fico com aquela cena na cabeça. Na sexta-feira seguinte, Dream Theater no Pepsi On Stage, lá ao lado do Aeroporto Salgado Filho. Acaba o show e vou encontrar os amigos na frente do ginásio. Alguns comendo cachorro-quente, acompanhado de cerveja ou refri. E quem aparece? O carinha e a guriazinha, com aquele olhar. “Boa noite, desculp...

Caipira

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Histórias de meu cotidiano. Estou eu na parada esperando o ônibus, o lotação, o que vier primeiro, para ir trabalhar. Para não perder o costume, escutando música no ipod, quando uma senhora me chama. Tiro os fones: “Sim?”, pergunto. “As bainhas de sua calça estão embaixo das meias...”, avisa ela. Olho para baixo e, realmente, parece que eu estou pescando peixinho em água rasa, um matuto que chegou da roça ontem. Agradeço e comento: “A senhora vê a falta que faz uma mulher na vida de um homem. O cara fica relapso e nem nota como sai de casa, todo desarrumado”. Ela responde: “Meu filho, saia de casa no carnaval, se mostre, que você vai achar aquela garota especial”. “Ih, tá brabo, eu e carnaval não combinamos”, digo. “Ah, não desista, vejo algo legal para você nos próximos dias”. Chega o ônibus e ela finaliza: “Desculpe me meter na sua vida, mas você parece ser uma pessoa tão boa, emana algo bom. Torço por você”. Só me resta agradecer e ficar torcendo para que aquela senhora esteja ce...

Air Guitar

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Estou andando na Rua da Praia, chuva caindo, e vejo um cara tocando guitarra imaginária, e penso, que doido...aí me dou conta que também sou adepto do air guitar e do air drums quando estou escutando meus rocks pesados, enquanto circulo por Porto Alegre. Que bom ser doido!

Assim caminha a humanidade

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Exatos sete anos atrás, numa noite de sábado, enquanto esperava minha namorada chegar em casa, e com falta de espaço para todas as minhas críticas de cinema na revista Carta Capilé e no Cena de Cinema, decidi iniciar o blog www.sala-escura.blogspot.com. Desde então, já foram quase mil críticas de cinema, a revista acabou, troquei o site do Renato Martins para, ao lado do Marcos Santuário e da Adriana Androvandi, me dedicar ao site do Correio do Povo, onde nós três mandamos bala no CineCP (http://www.correiodopovo.com.br/blogs/cinecp/). Mas como não só de cinema e futebol vive o homem, e como muitas histórias pululam ao meu redor, resolvi abrir mais este canal de comunicação para compartilhar as loucuras que ocorrem comigo e com quem está ao meu redor. É isso.