quinta-feira, 6 de junho de 2013

“Lobo”

O Lobo era foda. Não perdoava as namoradas dos amigos e nem as meninas que estavam na mira dos amigos. Todo domingo a gurizada se reunia antes do futebol, para falar sobre as façanhas ou fracassos da balada de sábado à noite. E invariavelmente o Lobo, que era apaixonado pela irmã de um dos amigos, mas sempre fracassava em suas tentativas, acaba se consolando em outras carnes. Lobo porque se fazia de carente e atacava sem piedade as menininhas. O pessoal ficava meio puto, mas acabava por perdoar o carinha, só que ficavam todos com medo de ser o próximo a ser passado para trás. E chegaria o meu dia. Dia dos namorados e tinha festa Love Songs, apresentado pelo radialista Arlindo Sassi no Partenon Tênis Clube. Eu estava todo derretido pela Viviane, e a convidei para ir na festa. A guria topou na hora, e pensei com meus botões que no sábado iria me dar bem. Pô, a guria aceita meu convite logo no 12 de junho. Quer sinal maior? E chega a data, e o Lobo tenta se aproximar da irmã do amigo, e leva outro fora. Arrasado, ele pede pra ir junto lá no PTC comigo e a Viviane. Meu radar não funcionou e eu aceito. O cara tá lá com uma cara de choro, sentado no salão, tomando uma Coca-Cola e eu dançando rostinho colado com a Viviane, mas ainda sem avançar o sinal vermelho. A timidez e o medo me impedem que eu a beije. Uma, duas, três, quatro músicas lentas depois, e a guria: “Chico, vai lá falar com o teu amigo. Ele tá tão triste....dá uma força para ele”. E eu daria mesmo. Para agradar a guria que eu queria tanto namorar, vou lá bater um papo com o Lobo. Escuto suas lamúrias. “Pô, cara, brigadão pela força”, agradece ele. O Sassi avisa: “A próxima é a última lenta. Depois um pouquinho de embalo”. E começa a tocar Kid Abelha com o hit “Como Eu Quero”. “Véio, vai lá dançar esta com a Viviane”, digo. Ele me olha sério, me dá um tapa no ombro. Aliás, vou proibir que as pessoas me deem tapa no ombro. Sempre me fodo com este gesto. E lá vai ele dançar com a Viviane. Eu pego uma Coca-Cola, e fico ali contando os minutos pra música acabar. O salão fica escuro, eu tomo um gole do refrigerante, e de repente as luzes piscam, e o que vejo: o Lobo falando no ouvido da Viviane. E no segundo seguinte eles estão se beijando no meio da pista....Quase tenho um treco, não acredito no que meus olhos estão vendo, pisco, e sim, eles estão se amassando. Atiro a garrafa no chão e me dirijo pros dois, e os separo. “Que porra é esta?”, pergunto. O Lobo: “Chico, foi mal, eu imaginei outra guria e beijei ela”. E a Viviane: “Aconteceu, aconteceu”. Perco a cabeça, e empurro o rosto da guria com a palma da mão direita. E na sequência dou um soco no rosto do Lobo. “Tu tá louco”, diz a Viviane. “Cala a boca, sua puta”, berro, saindo da pista. Eles me seguem, o Lobo se desculpando e a Viviane me xingando por tê-la empurrado. “Tu me empurrou, não fala mais comigo”. “Tu que não fala mais comigo, putinha”. A festa acaba para nós três. Passo as duas semanas seguintes rezando para que eles não prossigam com os beijos e amassos, que enfim o Lobo não namore a Viviane. Mas o coração dele pertence a outra menina, e o coração da Viviane nunca foi meu.

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