terça-feira, 14 de maio de 2013

“Abstêmio”

Ao me formar, consegui uma entrevista de emprego numa rádio, Verdes Pampas, lá em Santiago do Boqueirão, entre Santa Maria e São Borja. Me toco pra lá, indicado pelo seu Paulo, o dentista da cidade e pai do Dimitri, meu colega na faculdade, e do Andrei Silva, hoje um dos parceiros nos shows de metal no Opinião. Bem, chego lá na rádio, entro na sala do dono, que nem recordo o nome. Um escritório imenso, um mesão de madeira e o velho tomando um chimarrão, que me oferece. E eu recuso. “Senta aí, vivente”, me diz ele, com um puta sotaque gaudério, apontando a cadeira. Obedeço. “Bom, antes de começar a entrevista, uma pergunta”, fala ele. Fico quieto. “Guri, tu bebes?”. Pensa rápido, pensa rápido. Digo que não, pois realmente não bebia naquela época. “Buenas, então podemos continuar a charla”, decide ele. Quinze minutos depois, estou contratado. Aí pergunto: “Por que o senhor perguntou se eu bebia ou não?”. “É que todo o jornalista que trago da Capital pra trabalhar aqui acaba me trazendo problemas de bebedeiras”. Vou morar num quarto de hotel, na época não havia internet, os jornais chegavam com dois dias de atraso na cidade, apenas dois canais de televisão, e como estava no inverno, tudo fechava às 17h. Tédio mortal. O jeito era ficar no hotel jogando cartas e...beber. Aí descobri o porque da pergunta e da preocupação do dono da Verdes Pampas. Logo, logo, estaria dentro de uma garrafa para passar o tempo. Um mês depois simplesmente fiz minhas malas, fui pra rodoviária e voltei pra Portinho. Chegando aqui, liguei pro dono da emissora, me desculpei pela fuga e disse que seria impossível me adaptar à cidade. Ele ainda me ofereceu o triplo do salário. Pela minha sanidade mental, recusei.

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